Copa do Mundo empilha polêmicas com imigração e segurança nos EUA

Lista de problemas tem árbitro barrado, troca de local de treinos, amistosos cancelados e atletas interrogados por horas

PorRedação Lance!Rio de Janeiro (RJ)
11/06/2026 15:16
Atualizado há 1 minutos
Diversos países estão tendo problemas com a imigração dos EUA para a Copa do Mundo (Imagem gerada por IA)
Diversos países enfrentam problemas com a imigração dos EUA para a Copa do Mundo (Imagem criada por IA)

A Copa do Mundo dos Estados Unidos acumula polêmicas antes mesmo de começar. De árbitro barrado a delegações inteiras revistadas ainda na pista de pouso ao lado do avião, a política de imigração de Donald Trump, presidente em exercício no país, tem causado transtornos para participantes do Mundial, especialmente os originários de nações de maioria islâmica. Atletas renomados interrogados por horas, profissionais de imprensa e torcedores com pedidos de visto rejeitados, e violação da isonomia da competição na preparação se somam entre as questões que chamam atenção antes de a bola rolar.

Em resposta aos questionamentos sobre problemas com a imigração, o presidente dos EUA afirmou:

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— Estamos trabalhando para garantir que as pessoas certas entrem — declarou Trump, depois de críticas do Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Turk, que pediu para o país reconsiderar as suas práticas.

Irã: proibição de passar a noite nos EUA

Em guerra com o país-sede, a seleção iraniana foi a mais afetada. Tem seus três jogos na fase de grupos — contra Nova Zelândia, Bélgica e Egito — a serem realizados em solo estadunidense. Porém, não poderão passar a noite no país. Foi o motivo de pedirem a troca da sua base de treinos, originalmente em Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México.

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Por conta disso, a seleção teve de cancelar seus amistosos preparatórios para o Mundial. Primeiro foi o jogo contra Porto Rico, imediatamente cancelado com a mudança do local de treinos. Chegou a se cogitar um duelo com o Panamá, mas não avançou. Por último, a partida contra Granada também acabou por ser descartada.

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Manifestação em apoio ao governo iranianio, com presença da seleção do Irã na Copa, na praça Enghelab, centro de Teerã. Na imagem, uma multidão se concentra à noite empunhando bandeiras do país e celulares em frente a um grande palco iluminado, sob um imenso painel vertical que exibe jogadores da seleção nacional de futebol perfilados. (Foto: Patrícia Campos Mello/Folhapress)
Celebração em Teerã com confirmação da seleção na Copa (Foto: Patrícia Campos Mello/Folhapress)

Além desses problemas, houve bastante atraso na emissão de vistos para a delegação e também pessoas barradas. O presidente da Federação Iraniana de Futebol teve seu visto negado pela imigração americana por suposta ligação com a Guarda Revolucionária — um braço econômico e de elite militar do regime com íntima ligação com a estrutura do esporte no país. Também há inúmeros relatos divulgados na mídia internacional de torcedores e jornalistas com vistos negados.

Egito x Irã durante o Pride Weekend

Ainda há mais uma polêmica que vem agitando os bastidores do Mundial. O último jogo dos iranianos na fase de grupos, contra o Egito, no dia 27, em Seattle, acontecerá no mesmo fim de semana de um grande evento voltado à comunidade LGBTQIA+, o Pride Weekend, ou Fim de Semana do Orgulho. O caso é tratado com cautela pela Fifa. Ambos os países possuem rigorosa legislação contra homossexuais, e as respectivas federações já se manifestaram contrárias à realização de qualquer atividade ou ação relacionada ao tema dentro do perímetro da arena.

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Há informações de que o governo iraniano ordenou que o técnico da seleção abandone a partida no caso de qualquer manifestação nesse sentido dentro do estádio, depois de a agência de notícias Reuters publicar a informação de que torcedores planejavam levar bandeiras com as cores do arco-íris, um dos símbolos mais conhecidos do movimento LGBTQIA+.

Melhor da África não pode apitar nos EUA

Mais um episódio envolvendo dificuldade de entrada de pessoas, especialmente as vindas de países majoritariamente muçulmanos, nos Estados Unidos veio à tona. O árbitro Omar Abdulkadir Artan, da Somália, foi barrado pela imigração ao tentar entrar no país e está fora da Copa do Mundo como confirmou a própria Fifa. Sob alegação de que "o governo anfitrião determina, em última análise, quem recebe o visto e quem tem a entrada permitida em seu país".

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Abdulkadir é considerado um dos principais nomes da arbitragem africana e seria o primeiro representante da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. Ele já havia passado por diversas dificuldades na obtenção do visto e, com apoio da embaixada do país, conseguiu um passaporte diplomático. Mas a imigração americana não aceitou o documento e negou a entrada do árbitro, que, em 2025, foi eleito o melhor do seu continente. A alegação do governo americano foi de suposta ligação com grupos terroristas. Ele foi recebido com muita festa no retorno ao seu país. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, se pronunciou sobre o caso.

— É lamentável o que aconteceu com o árbitro da Somália. Mais uma vez, não controlamos tudo. Tentamos, vamos discutir, vamos conversar, vamos ver. Às vezes é bom acalmar os ânimos, relaxar; trabalhamos em tudo, tentamos resolver tudo. Às vezes, começar imediatamente a gritar e berrar tem o efeito oposto de encontrar uma solução - disse, em entrevista coletiva na última quarta-feira.

Árbitro Omar Abdulkadir Artan é recebido com festa na Somália após ser barrado pelos EUA para a Copa do Mundo (Foto: EFE/FolhaPress)
Artan é recebido com festa na Somália após ser barrado pelos EUA para a Copa (Foto: EFE/FolhaPress)

Artan recebeu apoio do primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, para apitar jogos do Mundial em Vancouver, no Canadá. Após ser barrado, ele também foi convidado pela Uefa para apitar a final da Supercopa da Europa, marcada para 12 de agosto, com confronto entre Paris Saint-Germain e Aston Villa em Salzburgo, na Áustria.

Iraque: astro interrogado por horas e fotógrafo barrado

Já a delegação iraquiana teve seu fotógrafo barrado de entrar nos Estados Unidos após horas de interrogatório pela imigração. O principal jogador da seleção, o atacante Aymen Hussein, autor do gol que classificou o Iraque para a Copa do Mundo, também foi questionado pela imigração por cerca de sete horas antes de ter a sua entrada permitida em solo americano.

Aymen Hussein marcou o gol da classificação do Iraque à Copa do Mundo de 2026
Aymen Hussein marcou o gol da classificação do Iraque à Copa (Foto: Azael Rodriguez/Getty Images/AFP)


Os problemas dos iraquianos para a Copa do Mundo nos EUA também não se limitam somente às delegações. Torcedores e profissionais de imprensa igualmente enfrentam dificuldade para acompanhar presencialmente ou fazer a cobertura da Copa do Mundo. A Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS, na sigla em francês) cobrou providências da Fifa, que até o momento não se pronunciou.

No último dia 5, o presidente da entidade, Gianni Merlo, enviou uma carta ao diretor de relações de mídia da Fifa, Bryan Swanson, e ao chefe de operações e serviços de mídia da entidade, Jochen Steinhoff. No documento, ele afirma:

— Estamos diante de um problema antigo e inaceitável para nós, jornalistas: a recusa de vistos de entrada a colegas regularmente credenciados. Há muitos casos: colegas iranianos, colegas africanos, alguns dos quais receberam vistos de entrada única. Se a equipe deles jogar no Canadá ou no México e eles acompanharem a viagem, não poderão retornar aos Estados Unidos. Os casos são inúmeros e, repito, inaceitáveis.

Senegal: revista rigorosa na pista de pouso

Além dos mesmos problemas para imprensa e torcedores, os atletas senegaleses passaram por uma situação incomum com a imigração. Todos os membros da delegação de Senegal foram rigorosamente revistados, com detectores e vistoria de bolsas de mão, ainda na pista de pouso, ao lado do avião que os trouxe aos EUA. A seleção do Uzbequistão, outro país de maioria islâmica, também foi alvo do mesmo tipo de procedimento logo ao desembarcar do ônibus que os levava para um amistoso preparatório contra a Holanda. Não há registros de o mesmo protocolo ter sido adotado com a seleção europeia.

Seleção de Senegal é revistada ainda na pista de pouso (Reprodução)
Seleção de Senegal é revistada ainda na pista de pouso (Reprodução)

Haiti: uniforme alterado pela Fifa

Já a seleção do Haiti se submeteu à ordem da Fifa para retirar da sua camisa uma estampa com imagem em referência à revolução que liberou o país do domínio da França. O uniforme da equipe traz uma ilustração da Batalha de Vertières, decisiva para a independência. O "The Athletic", do "New York Times", trouxe a declaração de um porta-voz da delegação do Haiti, afirmando que houve uma interpretação equivocada da Fifa e confirmando o pedido de sua federação à fornecedora de material esportivo para que alterasse os uniformes.

Uniformes do Haiti antes da alteração exigida pela Fifa
Uniformes do Haiti antes da alteração exigida pela Fifa (Divulgação)

Em entrevista ao Lance!, o presidente da Associação Nacional de Juristas Islâmicos (Anaji) no Brasil, Girrad Sammour, afirmou enxergar "islamofobia" na atuação das autoridades estadunidenses:

— A Fifa frequentemente afirma que o futebol é uma ferramenta de união entre povos e culturas. Justamente por isso, a entidade deveria desempenhar um papel mais ativo para assegurar que atletas, árbitros, dirigentes e profissionais credenciados possam participar das competições em igualdade de condições. A defesa dos valores do esporte exige mais do que uma posição de neutralidade — disse.

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