Entenda o que é a Guarda Revolucionária Iraniana, considerada terrorista pelos EUA
Lance! ouviu historiador e jornalista para esclarecer laços da organização com o futebol

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O mundo assistirá, a partir de 11 de junho, a uma Copa do Mundo com contornos inéditos. Não somente será o primeiro Mundial com sede em um país que está em guerra, mas a seleção da nação que é o outro lado do conflito está presente para competir. A equipe do Irã confirmou sua participação, mas fez exigências, como garantias de segurança e vistos para membros que tenham cumprido serviço militar obrigatório na Guarda Revolucionária Iraniana (GRI), considerada terrorista pelos americanos e canadenses.
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Poucas informações chegam ao Ocidente sobre a vida de fato no Irã. O que de fato faz a Guarda Revolucionária? Como é o futebol no país? Quem financia o esporte?
Para esclarecer essas dúvidas, a reportagem do Lance! conversou com pessoas que viveram em Teerã, entre elas Osmar Loss, ex-técnico do Persépolis, o maior clube do país, que deixou o Irã por terra via fronteira com a Turquia após o início da guerra em fevereiro, e o professor e historiador especialista em Oriente Médio, Andrew Patrick Traumann. Ele publicou livros sobre o Irã como: "Os militares e os aiatolás: relações Brasil-Irã (1979-1985)".
Entre a vigilância estatal com profissionais disfarçados, o respeito profissional e as nuances de uma organização que atua tanto como braço militar de elite como pilar econômico do país, a ligação de membros da delegação com a Guarda Revolucionária é um dos principais pontos de tensão sobre a participação iraniana na competição.
— A Guarda Revolucionária Iraniana é quase que um estado paralelo ali. Eles têm um poder militar muito grande. São um ministério à parte do Ministério do Exército. Eles têm um orçamento próprio para aeronaves, um orçamento próprio para navios, um orçamento próprio para o próprio exército deles. Eles têm um braço que se chama Forças Quds. Quds, em árabe, significa Jerusalém. Então, são as Forças de Jerusalém. E essas forças que vão, por exemplo, para o Líbano treinar o Hezbollah, financiar o Hezbollah, ajudar os Houthis no Iêmen. Eles (a Guarda) dominam o setor do petróleo, do gás, da infraestrutura, é uma força econômica poderosíssima — explicou Traumann.

Em questões de segurança, a Guarda Revolucionária só interfere no macro. Pequenas manifestações, por exemplo, são tarefa para a polícia — no caso, a polícia mais ideológica, uma milícia voluntária denominada Basij, como explicou Traumann. Protestos como o de janeiro, que já colocam em xeque a segurança em maior escala, entram no escopo da GRI.
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A reportagem do Lance! conversou com um experiente jornalista que viveu por anos em Teerã. Ele preferiu não ser identificado por motivos pessoais, mas descreveu como é um membro da Guarda. Não será um radical de uniforme. Será um homem de negócios, de paletó, barba feita, educado.
— A Guarda Revolucionária é um pilar da economia. É um braço econômico do regime tanto quanto a base da elite militar. Ela é diferente do Exército, da polícia, do serviço secreto. Tem dinheiro, tem poder e controla a economia. Ao contrário do que muitos pensam, ela não é ideológica. Ela busca dinheiro. É melhor você ser preso pela Guarda do que pela polícia. É mais moderna, mais sintonizada. A sobrevivência do regime é com ela. Se precisar fazer coisa feia, ela vai fazer. Quando tem um protestinho, a polícia faz. Quando é um negócio que já estremece o país, aí a guarda entra em cena. São a locomotiva econômica do país, isso não é segredo, eles têm orgulho do que fazem — disse o jornalista.
Traumann acrescentou:
— São pragmáticos, digamos que eles (os membros da GRI) são mais pragmáticos. Se tiverem de sujar as mãos, eles vão sujar.
Mas todo esse poderio é sentido de forma muito sutil no dia a dia de quem trabalha no futebol. Na visão do técnico Osmar Loss, enquanto esteve à frente do maior clube do Irã, em nenhum momento uma pessoa se apresentou a ele como membro da GRI.
— Não tem presença diária, pelo menos eu não conheço ninguém, ninguém se identificou como sendo da Guarda Revolucionária, entendeu? As pessoas que convivem dentro do ambiente do jogo são as mesmas pessoas sempre. Não é aberto como aqui no Brasil, a imprensa não assiste ao treino, as pessoas que vão ao treinamento precisam ter a minha permissão — contou o treinador brasileiro.
'Totalmente supervisionado pelo Estado'
De acordo com Traumann e o jornalista ouvido pela reportagem, sempre há pessoas da inteligência da Guarda infiltradas nas instituições esportivas, e em diversas outras camadas. É a Guarda que provê recursos, direta ou indiretamente, para a Federação Iraniana e para a infraestrutura do esporte, mas ela não controla diretamente os clubes da modalidade mais popular do país. Não é raro o chamado Derby de Teerã, entre Persépolis e Esteghlal, reunir 80 mil pessoas no estádio da capital iraniana, que passa por reformas.
— Eles fazem essa coisa, tanto esse papel de comitê olímpico quanto o de federação de futebol, distribuindo verba, construindo infraestrutura, mas sem favorecimento a algum clube ou outro, até onde sei. Eles são donos de empreiteiras, vão construir a infraestrutura, os estádios, as estradas e tudo isso, e claro que também vão escolher para onde vai o dinheiro. Futebol é o esporte mais popular do Irã e, depois disso, é curioso, tem a luta livre e o halterofilismo — explicou o historiador.
O professor Traumann destacou ainda o poder do uso do futebol, pela popularidade no país, como ferramenta de influência política, controle e persuasão. Ele traz o conceito de "soft power", uma estratégia para conquistar simpatia por meios alternativos, como atração cultural.
— A seleção de futebol é totalmente uma ferramenta de soft power. Você não tem nem a liberdade de viagem. O atleta sai do Irã e isso é totalmente supervisionado pelo Estado, quem entra, quem sai. Eu, que tenho dois livros publicados sobre o Irã, o meu sonho é ir para lá, mas é superdifícil entrar.
Jogo da Paz com os EUA em 1998

Apesar da longa ausência de relações diplomáticas oficiais entre os dois países, houve momentos em que a hostilidade foi quebrada, e justamente por meio do esporte. Em 1998, na França, houve um momento singular na primeira participação iraniana em uma Copa do Mundo. A seleção venceu os EUA na partida disputada em Lyon, mas o fato mais notório ocorreu antes mesmo de a bola rolar. Em vez da habitual troca de flâmulas, iranianos e americanos trocaram flores antes do apito inicial. Os times posaram juntos para uma foto histórica, e o confronto ficou mundialmente conhecido como o Jogo da Paz.
O Irã integra o Grupo G da Copa do Mundo. A estreia na primeira fase da competição será no dia 15 de junho contra a Nova Zelândia, em Inglewood, subúrbio de Los Angeles, na Califórnia. No dia 21, na mesma cidade, enfrentará a Bélgica. O encerramento da fase de grupos acontecerá no dia 26 de junho, contra o Egito, em Seattle.
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