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Após fugir da guerra, técnico Osmar Loss conta como é viver no Irã

Treinador usou internet ilegal, escapou pela Turquia e falou da relação do futebol com militares

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Vicente Seda
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 27/05/2026
06:00
Osmar Loss teve de interromper sua segunda passagem pelo Persépolis por conta da guerra no Irã (Arquivo pessoal)
imagem cameraOsmar Loss teve de interromper seu segundo trabalho no Persépolis, maior clube do Irã, por causa da guerra

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No início deste ano, o técnico Osmar Loss fazia uma intertemporada com o Persépolis, maior clube do Irã, quando se iniciaram os massivos protestos em Teerã contra o governo, que geraram imagens de extrema violência reproduzidas mundo afora. Mas, no Catar, onde estava com sua delegação, não havia muita informação além de especulações de que uma guerra de fato estaria para começar. No fim de fevereiro, com os ataques dos Estados Unidos e Israel à capital iraniana, Loss teve de sair correndo do país, por terra, via Turquia. Já em segurança em solo turco, ele deu entrevista ao Lance! e explicou como funciona de fato o futebol em uma das nações mais fechadas do planeta.

Loss narrou fatos curiosos, como o clube fornecer aos estrangeiros uma conexão de internet que, em tese, seria ilegal no Irã: uma antena da Starlink do bilionário Elon Musk. No campo, existe um respeito ao trabalho do treinador difícil de se repetir até em clubes das ligas mais poderosas e profissionais do mundo: o CEO do Persépolis lhe ligava pedindo permissão antes de aparecer para assistir a um treino da equipe.

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— São situações que nem mesmo a gente sabe exatamente como eles proporcionaram. A única coisa que eu me resguardei foi pedir um documento oficial do clube, assinado pelo presidente e pelo CEO, de que eles estavam proporcionando pra gente a internet, porque a gente sabe que é contra a lei. (...) A preocupação era a gente estar usando e, daqui a pouco, um cara que nem entende de futebol, que não nos conhece, nos levar para alguma investigação — contou.

Além dos detalhes da fuga com o início da guerra, ele explicou também como era a questão da vigilância governamental, a segurança, a estrutura familiar, o tratamento dado às mulheres no país, entre outras questões culturais.

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➡️Irã é obrigado a mudar a sua base para a Copa do Mundo

Osmar Loss comemora gol nos minutos finais que garantiu título da liga iraniana pelo Persépolis na temporada 2023/34 (Divulgação)
Osmar Loss comemora gol nos minutos finais que garantiu o título da liga iraniana pelo Persépolis na temporada 2023/24 (Divulgação)

Confira a entrevista de Osmar Loss

Onde é que você estava, o que você estava fazendo quando ouviu a primeira bomba cair?

— A realidade é assim: a expectativa pelo início da guerra já vinha desde o início dos protestos, ou seja, no princípio do mês de janeiro já se tinha uma perspectiva de que ia se transformar em uma guerra de fato. A gente nem estava dentro do Irã, a gente estava em intertemporada no Catar. Então, já foi uma primeira decisão voltar ou não, porém, naquele momento, a gente tinha uma expectativa de que poderia acontecer uma guerra, mas era um protesto interno. Então, era não sair à noite e estar seguro. Tínhamos contrato em vigor e responsabilidades profissionais.

— Durante esse período, do dia 13 de janeiro ao dia 28 de fevereiro, quando começou de fato a guerra, ouvíamos coisas do tipo: "em três dias vai acontecer um ataque", "nos próximos dias vai acontecer um ataque". Então, acabou que a gente teve a competição seguindo normalmente, a vida seguindo lá, e ficavam com essas informações rotineiras em função da imprensa especulando o início da guerra. Quando, de fato, o conflito começa, teríamos um jogo em Isfahan (terceira maior cidade do Irã), contra o Zob Ahan. A gente jogaria à tarde, e de manhã, na mesa do café, o pessoal já tinha dado informação: estão atacando Teerã. E aí a gente começa a receber, de fato, informações, nós também, os estrangeiros, por jornais e empresas de fora do Irã. O fato é que a gente tinha dificuldade de conexão.  

Vocês tinham acesso ao noticiário?

— Não, perdemos a conexão com a internet, mas tinha uma antena dessas Starlink que o clube proporcionou. Então, a gente conseguia ter acesso, com baixa qualidade, mas a gente tinha acesso a alguma coisa de informação. Ficava oscilando muito, caindo, mas a gente conseguia ter alguma coisa de informação. Sempre tinha alguém da comissão técnica conectado.

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Osmar Loss comemora título da liga com o Persépolis na temporada 2023/34 (Arquivo pessoal)
Osmar Loss comemora título da liga com o Persépolis na temporada 2023/34 (Divulgação)

Interessante isso, o fato de o clube ter proporcionado o acesso. Como o clube lidava com essa situação? Porque o clube, muitas vezes, tem uma ligação com o governo. Houve algum tipo de autorização oficial?

— São situações que nem mesmo a gente sabe exatamente como proporcionaram. A única coisa que eu me resguardei foi pedir um documento oficial do clube, assinado pelo presidente do clube, pelo CEO, de que eles estavam proporcionando a internet, porque a gente sabe que é contra a lei. É contra a lei ter isso lá, né? Uma internet que não seja a usual (que havia sido cortada) é contra a lei. Então, a gente tinha que se precaver. Estávamos em outro país e tínhamos de seguir as leis que são obrigatórias.

O que é mais uma mostra de que isso estava totalmente autorizado pelo governo, não é? Ou não seria feito, principalmente, pelo clube.

— A preocupação era estarmos usando e, daqui a pouco, um cara que nem entende de futebol, que não nos reconhece, nos levar para alguma investigação. E aí, vira um problema muito maior, entendeu? Então, a gente se precaveu, porque, também, a gente não podia ficar lá sem comunicação com os nossos familiares fora. Para os nossos familiares, as notícias eram diárias, porque eles também têm a preocupação. Então, imagina ficar três, quatro dias sem comunicação com a família. Vira um estresse emocional gigante. Não sabe o que aconteceu, né? Então, voltando, a gente estava na mesa do café e, aí, a gente tem a informação dos primeiros ataques, primeiras bombas.

Osmar Loss, ex-técnico do Persépolis, do Irã, com amigos em restaurante em Teerã (Arquivo Pessoal)
Osmar Loss, ex-técnico do Persépolis, do Irã, com amigos em restaurante em Teerã (Arquivo Pessoal)

E vocês não ouviram nada quando estavam na mesa do café?

— Nesse momento, não, porque nós estávamos em outra cidade. O ataque começou diretamente em Teerã. E, aí, sim, passada mais de uma hora e meia, duas horas, a gente começa a perceber ataques em Isfahan também. E, aí, a gente escuta. A gente não vê nenhuma explosão, mas escuta. Vemos as baterias tentando interceptar os ataques. Mas, assim, nada como a gente viu nas imagens que foram mostradas posteriormente. Coisa muito pequena. A gente tomou a decisão de voltar para Teerã, que foi uma decisão muito importante. Enquanto todo mundo queria sair de Teerã, que era o maior alvo dos primeiros ataques, a gente queria voltar, porque a nossa vida era lá. E a saída para a direção do norte do país, para sair pela Turquia, era passando por Teerã. Não tínhamos como sair. Estávamos mais ao sul. E o pior cenário ali... O melhor cenário seria ir até a fronteira com o Iraque e sair via barco para Dubai. Porém, havia muito ataque ali também, no estreito de Ormuz, onde hoje é o epicentro da guerra. Então, decidimos retornar. E, graças a Deus, essa decisão foi acertada. Chegamos com segurança.

Como foi esse trajeto todo que vocês fizeram a partir de Teerã?

— A gente dormiu essa noite (após a chegada de Isfahan). A gente chegou em torno de nove e meia da noite. No dia seguinte, às nove da manhã, a gente já estava rumo à fronteira com a Turquia. Também agradecendo muito ao clube, que proporcionou ônibus, porque eram muitas pessoas. Gente de outros times também, junto conosco, estrangeiros de outros times. Essa retirada foi totalmente organizada pelo clube. Totalmente. Nós não perdemos nem trinta minutos para conseguir passar vinte e uma pessoas na fronteira entre Irã e Turquia. Então, foi muito positivo. A comunicação já com as esferas militares, de fronteira, polícia... Tudo muito tranquilo, organizado e, por isso, a gente agradece muito ao clube. Na Turquia, a gente se sente mais seguro, ainda sob tensão, mas muito mais seguro.

Rotina segura e povo hospitaleiro

E teve algum momento em que você tenha se sentido inseguro no Irã ou durante esses ataques, nessa fase final, ou em algum outro momento? Porque muito se fala aqui de radicalismo, de monitoramento, daquela vigilância muito pesada, e você está me descrevendo um cenário um pouco diferente, de flexibilidade, de eles darem internet, por exemplo. Então, como era isso na realidade da experiência de quem viveu lá?

— Eu acho importantíssima essa pergunta para desmistificar um pouco do que se é divulgado massivamente aqui no Ocidente. Não só no Brasil, como a nossa conexão com espanhóis, alemães, holandeses, canadenses, todo mundo recebendo informações antes de conhecer a realidade, muito piores do que a realidade realmente se apresenta para quem vive lá. É um povo extremamente solícito, gosta de receber as pessoas, tem extrema cordialidade, muito similar ao povo nordestino no Brasil, que gosta de receber em casa. Gosta de conhecer a pessoa, está sentado ali na beira da praia e já convida para jantar. Você não tem o controle do que acontece na guerra, de onde cairá o míssil, de onde vai ser o ataque. Mas, em outros cenários, a gente não tem nenhum problema de segurança; pelo contrário, a vida cotidiana lá é mais segura do que no Brasil. Você pode andar com o telefone durante a noite, andar com um colar de ouro, sair e caminhar pela rua, que dificilmente, não é que não aconteça, mas dificilmente acontecerá algum evento como a gente vê no Brasil, rotineiramente acontecendo, em São Paulo, Rio de Janeiro e capitais, principalmente.

Osmar Loss na sacada do seu apartamento em Teerã com membros da comissão técnica do Persépolis (Arquivo pessoal)
Osmar Loss na sacada do seu apartamento em Teerã com membros da comissão técnica do Persépolis (Arquivo pessoal)

E como é hoje em relação à sua última passagem pelo Persépolis?

— Na primeira passagem, eu fiquei dois anos. Agora, nessa, infelizmente, pela guerra, a gente teve que abreviar, mas então, no mínimo, eu vivi no Irã dois anos e meio. Se a gente comparar, e eu vejo pela referência da minha esposa e filhas, quando elas foram nos primeiros anos, ali por 2022, para visitar, tinha muito mais problema em relação à mulher. Vestimentas, cuidados com os restaurantes, o tipo de roupa, usar o véu... Já agora, em 2025, 2026, já muito, muito mais liberado para mulher do que era no passado. Para o homem, continua a mesma coisa, não mudou. Você anda na rua com segurança, frequenta excelentes restaurantes, o custo de vida é muito baixo. Trânsito caótico, pior que São Paulo. Então, assim, tem muita similaridade. Você tem um país em que você faz um voo de duas horas e sai de 35 graus de temperatura na beira da praia para uma montanha de neve para esquiar. Então é um país com uma beleza natural riquíssima.

E em relação à cultura, como foi a adaptação?

— Assim, a cultura persa é muito diferente da nossa. Tem muitas peculiaridades. Ela tem alguns costumes que são bastante similares até com outros países da Ásia. Por exemplo, o fato de não usar o calçado dentro de casa, de tirar o calçado na entrada, de ter um calçado específico para usar no banheiro. Então a pessoa chega na porta do banheiro, tira o calçado, bota outro que está dentro do banheiro. Quando sai do banheiro, deixa aquele calçado lá e bota o seu de estar dentro de casa de novo. Então, alguns detalhes que são particulares deles. O uso do chá. Assim como os chineses, eles usam muito chá. Toda hora estão bebendo chá. Piqueniques em parques são muito comuns. As pessoas vão para tomar chá, levam sua comida e sentam nas árvores.

E a estrutura familiar?

— O apelo familiar é muito parecido com a região Sul do Brasil. Assim como os italianos e os portugueses, que se reúnem. Tem muito essa questão do matriarcado. Porque lá o homem tem a liberdade, mas quem comanda a casa é a mulher. Em que sentido? O homem é que trabalha. Hoje as mulheres trabalham lá com mais liberdade, mas o homem é o provedor financeiro, e a mulher é a que organiza a casa. Ou seja, o homem ganha o dinheiro, dá o dinheiro para a mulher, e a mulher é que faz as compras, que organiza a casa, esse tipo de coisa. A voz do homem na estrutura familiar tem um peso muito importante, mas a voz da mulher tem mais importância dentro da família do que a do homem.

Temos aqui no Brasil uma onda de casos de violência doméstica, violência contra a mulher, e como muito se fala do tratamento às mulheres no Irã... Qual é a a frequência com que se vê isso lá? É muito comum ter violência doméstica, feminicídio?

— Eu não consigo acompanhar as notícias, não falo farsi, então, assim, falo de vez em quando com as pessoas que são de lá e ninguém reflete muito isso. Eles também não são de expor muito essas questões que eles sentem vergonha, por exemplo, a questão das mulheres obrigadas a usar véu. A população em si não é muito... não apoia esse tipo de decisão, então eles ficam constrangidos de falar sobre coisas que eles não apoiam e que eles se sentem sem forças para mexer, para mudar. Efetivamente, a gente não tem esse tipo de informação sobre a violência feminina. O que eu posso dizer é que, no meu círculo de convivência, não enxergo isso e não tenho nenhum evento que alguém tenha relatado para mim nesses dois anos e meio de alguma violência contra a mulher.

Torcida do Persépolis no Estádio Azadi, em Teerã (Divulgação)
Torcida do Persépolis faz festa no Estádio Azadi, em Teerã (Divulgação)

Jogadores na Guarda Revolucionária

O principal entrave desde que a seleção iraniana confirmou a participação na Copa é o fato de que diversos jogadores cumprem serviço militar obrigatório na Guarda Revolucionária, considerada organização terrorista pelos Estados Unidos e pelo Canadá. Em algum momento, você teve de lidar com esse tipo de questão? Como funciona essa questão do serviço obrigatório? Os atletas tinham algum problema de visto para entrar quando iam jogar fora do país?

— Olha, eu participei de uma Champions League (asiática) com o Persépolis em 2023, a gente não teve problema, a gente teve jogos na Arábia Saudita, Catar, a gente teve jogos nos Emirados, ou seja, nenhum país em que seja muito dramático fazer uma entrada para um iraniano. O que eu sei, e eu não posso te dizer 100%, porque eu não sou um especialista na lei, mas eu sei em função de convivência com os jogadores que são da minha equipe, que também fazem parte da seleção, é que o serviço militar é obrigatório para todos os homens. Aí que vêm as particularidades, alguma coisa assim: quando o jogador é da seleção, ele pode postergar sua participação no serviço militar até 28 anos de idade. Muitas vezes, eles são inclusive liberados quando têm não sei quantas chamadas para seleção, coisas do tipo.

E quais os critérios para isso?

— O que a maioria dos jogadores, principalmente os jogadores com mais qualidade, tem? Existem clubes que são clubes que pertencem a organizações não militares, mas ligadas aos militares, por exemplo, clubes da Aeronáutica, clubes da Marinha, clubes do Exército, de um modo geral. Então, eles se transferem para esses clubes por uma temporada e meia. E isso serve como serviço militar. Por exemplo, na primeira divisão do Irã, a gente tem um clube só hoje em que isso é possível, o Malavan, ligado à Marinha e que fica no norte do Irã, no Mar Cáspio. Então, muitos jogadores vão para lá, inclusive jogadores de alto nível que não foram para a seleção ainda acabam se transferindo para lá e jogam lá durante uma temporada e meia. São 18 meses de serviço militar obrigatório lá.

E quando se trata de um atleta comum, sem grande destaque?

— Quando o jogador não tem isso, ele tem que ir para o serviço militar e aí muitas vezes ele acaba tendo que ir para outras organizações que não são as mais simples, entre aspas, para jogar futebol fazendo serviço militar. Não deve ser nem um pouco simples.

E você chegou a ter convivência ou tinha alguém no clube frequentemente dessa Guarda Revolucionária como dirigente ou que participasse do dia a dia?

— O que eu posso te falar é: não tem presença diária, pelo menos eu não conheço ninguém. Ninguém se identificou como sendo da Guarda Revolucionária, entendeu? As pessoas que convivem dentro do ambiente do jogo são as mesmas pessoas, não é aberto como aqui no Brasil. A imprensa não assiste ao treino, as pessoas que vão ao treinamento precisam ter a minha permissão, ou seja, eu decido quem pode assistir ao treino. Não é como num clube no Brasil, em que o diretor leva um, o dirigente leva um, o outro leva um amigo; não, tudo passa pela decisão do treinador. Inclusive o presidente, o CEO do clube, quando quer assistir ao treino, me liga. Posso ir hoje? Respeitam mesmo o treinador; é como o manager da Inglaterra dos anos 90 na época do Sir Alex Ferguson.

E como é essa estrutura dos clubes? De onde vem o dinheiro? 

— Persépolis e Esteghlal são os dois maiores clubes de Teerã. Eles pertenciam ao governo, acho que ao Ministério de Esportes, não à Guarda Revolucionária. Só sei que o dinheiro provém do governo iraniano, porém, em 2024, eles trocaram isso porque, quando os dois maiores times do país alcançaram a Champions League (asiática), como teriam o mesmo CNPJ, não poderiam participar os dois. Então, o governo tinha que decidir por um. Agora, o governo separou. O Persépolis hoje pertence a um banco (na verdade, a um consórcio composto por seis bancos, com 15% mantidos pelo Ministério da Juventude e Esportes). O Esteghlal pertence a uma petrolífera, então hoje é administrado financeiramente por eles. Se os dois atingirem o pré-requisito para competições internacionais, estão liberados. Os demais clubes todos têm empresas por trás, empresas fortes, de aviação, de alumínio, ferro, vários tipos de empresas. Então a questão é que muitas vezes essas empresas também são controladas por fundos, que aí você vai ver que são fundos estatais. Eu não conheço exatamente, por isso que eu não posso te afirmar nada, porque eu não conheço de fato a lei que está por trás disso. Tem bastante rivalidade entre esses dois times de Teerã.

Ouvi comentários de que é normal ter 80 mil pessoas no clássico. É por aí?

— Hoje o estádio principal de Teerã, que é uma das regiões que foram até bombardeadas, não está disponível para jogo. É um estádio que, no passado, teve clássico com 120 mil pessoas, e exatamente como eram os clássicos nossos aqui no Brasil de antigamente, meio a meio, não importa quem é o mandante. Então, é muito bonito. Eu tive a oportunidade de participar, antes de o estádio parar para reforma, de um clássico que decidiu a Copa do Irã. A gente venceu, 2 a 1 na prorrogação, e tinha 80 mil pessoas no estádio, 40 mil de azul, 40 mil de vermelho. O estádio parou para reforma agora, mas não teve nada a ver com a guerra, não. Vai diminuir a capacidade do estádio, que era de cerca de 100 mil; parece que vai diminuir para 75 mil, com muito mais conforto.

E, nessa questão dos protestos, vimos cenas muito brutais aqui, uma repressão muito forte. Como é que foi sentido isso por quem estava no Irã? Você chegou a ver alguma coisa? Você chegou a se sentir inseguro? Ou estar perto de alguma região violenta?

— Na realidade, a gente não estava dentro do Irã, mas no Catar. Quando a gente retornou para o Irã, já tinham encerrado os protestos, já estava tudo controlado. A gente tem, assim, amigos que estavam dentro, dizendo que durante à noite era muito caótico. Cenários assim de... não posso chamar de guerra, porque eu nunca convivi numa guerra, mas cenários de enfrentamento entre polícia e manifestantes. Em muitas das regiões da cidade, os protestos eram sempre noturnos, e a vida durante o dia era normal, as pessoas indo para o trabalho. De noite, sim, se reuniam em determinado local combinado e ali faziam os seus protestos. E aí, muitas vezes, a interferência, a intervenção da polícia acabava gerando essas imagens de fogo e até mesmo de assassinatos, de mortos.

Osmar Loss e comissão técnica no Estádio Azadi após título do Persepolis, do Irã, na temporada 2023/34 (Arquivo pessoal)
Osmar Loss e comissão técnica no Estádio Azadi após título do Persépolis, do Irã, na temporada 2023/24 (Arquivo pessoal)

Quem estava com você na hora da fuga?

— Nós tínhamos 21 pessoas, a minha equipe mais os componentes da equipe do Gol Gohar. Outros brasileiros e europeus que estavam juntos da minha equipe também, e a minha comissão técnica, que tinha o preparador físico, Juliano, o assistente técnico, Rafael e o analista de desempenho, Wendel, mais um outro preparador físico espanhol e o treinador de goleiros, também espanhol. De jogadores, tinham alguns do Gol Gohar, inclusive um iraniano que tem família no Canadá, e alguns africanos também.

Seleção é uma das mais fortes da Ásia

E qual é a sua avaliação sobre a seleção iraniana?

— A seleção iraniana está entre as mais fortes da Ásia e, com certeza, a mais forte da região do Golfo Pérsico. Normalmente se classifica com antecedência para a Copa do Mundo. Para este ciclo de 2026, conseguiu a classificação muito rapidamente; em 2022 também. Então, ela tem uma representatividade na Ásia muito forte. Certeza de que é uma das três melhores, junto com Japão e Coreia do Sul. 

E quais jogadores da seleção iraniana você destacaria?

— É uma geração que tem bastante experiência em competição, participação em pelo menos duas Copas do Mundo, e os jogadores que eu poderia destacar, claro que não estão definidos 100% os convocados, seriam o Taremi, o Mohebi e o Alipour, três atacantes com experiência internacional, jogam ou já jogaram em ligas mais fortes que a iraniana, mas há outros tantos jogadores com talento e competitividade para fazer uma boa Copa do Mundo.

*Nota da redação: o treinador se refere aos atacantes Mehdi Taremi, 33 anos e 1,85m, atualmente no Olympiacos, da Grécia, e que também já defendeu a Inter de Milão e o Porto, de Portugal; Mohammad Mohebi, ponta-esquerda de 27 anos e 1,86m que atua no futebol russo; e Ali Alipour, atacante de 30 anos e 1,81m de altura que está no Persépolis, e já jogou em clubes portugueses.

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