Presidente de associação de juristas islâmicos vê islamofobia dos EUA na Copa do Mundo

Girrad Sammour diz que Fifa não está defendendo valores do esporte

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
10/06/2026 15:43
Atualizado há 2 minutos
Girrad Samour, presidente da Anaji, mostra preocupação com casos de islamofobia na Copa do Mundo
Girrad Sammour, presidente da Associação Nacional de Juristas Islâmicos, vê preconceito dos EUA contra muçulmanos (Foto: Divulgação)

A Copa do Mundo nos Estados Unidos vem acumulando casos de restrições, revistas rigorosas e até barração de profissionais. E uma característica comum a praticamente todos os atingidos por esse tipo de medida é terem origem em países de maioria islâmica. O Irã apresenta uma situação à parte e inédita em uma edição do Mundial, já que está em guerra com o país sede. Nas demais ocorrências, a motivação não é expressada com clareza pelas autoridades americanas.

Para Girrad Sammour, presidente da Associação Nacional de Juristas Islâmicos (Anaji), uma entidade sem fins lucrativos que atua na defesa dos direitos da comunidade islâmica no Brasil, trata-se de "islamofobia".

— Infelizmente, há evidências de que a comunidade muçulmana enfrenta, há décadas, um fenômeno global de islamofobia. Depois dos atentados de 11 de setembro, consolidou-se em muitos países uma associação indevida entre Islã, terrorismo e ameaça à segurança. Essa mentalidade produz uma espécie de culpabilização coletiva. Mais de dois bilhões de muçulmanos acabam sendo vistos sob uma lente de desconfiança em razão dos atos de uma minoria extremista. Naturalmente, cada caso precisa ser analisado individualmente. Porém, quando se observa um padrão recorrente envolvendo países de maioria islâmica, não é preconceituoso levantar essa discussão; pelo contrário, é uma obrigação em defesa dos direitos humanos e da igualdade — disse.

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Girrad Samour, presidente da Anaji, mostra preocupação com casos de islamofobia na Copa do Mundo
Girrad Samour, presidente da Anaji, mostra preocupação com casos de islamofobia na Copa do Mundo (Foto: Divulgação)

No caso dos iranianos, as sanções foram as mais graves. A seleção do país foi proibida de passar a noite em território americano, mesmo com todos os jogos da primeira fase marcados para estádios nos EUA. Terão, após as partidas, de se deslocar para Tijuana, no México, já que a estadia para treinos em Tucson, no Arizona, local inicialmente escolhido para os treinamentos da equipe, ficou inviável. Até um amistoso de preparação precisou ser cancelado. Além dos relatos de extrema dificuldade de torcedores e jornalistas do país em obter vistos de entrada, o presidente da Federação Iraniana de Futebol também foi barrado sob alegação de ligação com a Guarda Revolucionária Iraniana. E os EUA cancelaram os ingressos destinados à torcida iraniana para os jogos da seleção, descumprindo regra da Fifa, que obriga a destinação de 8% das entradas para as federações dos países que disputarão cada partida.

Os iraquianos também sofreram. O fotógrafo oficial da seleção teve sua entrada nos EUA proibida, enquanto o principal jogador do país, Aymen Hussein, responsável pelo gol que classificou o Iraque para a Copa do Mundo, passou por cerca de sete horas de interrogatório antes de ter seu ingresso em território americano liberado. Outro caso notório é o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Eleito melhor da África em 2025, ele seria o primeiro a representar seu país em um Mundial. Mas foi impedido de entrar nos EUA e teve o seu corte da competição confirmado pela Fifa, que se eximiu de responsabilidade pela decisão.

Também circulam pelas redes vídeos da delegação de Senegal sendo revistada e passando por detectores de metal ainda na pista de pouso, ao lado do avião que os trazia para o torneio. O mesmo aconteceu com jogadores e comissão técnica do Uzbequistão ao desembarcarem do ônibus que os levava para a disputa de um amistoso preparatório com a Holanda.

— A Fifa frequentemente afirma que o futebol é uma ferramenta de união entre povos e culturas. Justamente por isso, a entidade deveria desempenhar um papel mais ativo para assegurar que atletas, árbitros, dirigentes e profissionais credenciados possam participar das competições em igualdade de condições. A defesa dos valores do esporte exige mais do que uma posição de neutralidade. É evidente que a Fifa não possui autoridade para se sobrepor à soberania dos países-sede. Entretanto, ela possui influência política e institucional suficiente para dialogar com governos e exigir garantias mínimas para todos os participantes. O silêncio ou a simples transferência de responsabilidade acabam gerando a percepção de que determinados problemas estão sendo normalizados — avaliou Sammour.

O caso do árbitro somali, em especial, chamou a atenção de Sammour por se tratar de um profissional reconhecido e escolhido por mérito para participar da Copa do Mundo.

— Esse caso é particularmente preocupante. Estamos falando de um profissional escolhido por mérito esportivo e considerado um dos principais árbitros do continente africano. A Somália é uma nação de maioria muçulmana. Quando somamos esse episódio aos problemas enfrentados por iranianos, iraquianos e outros representantes de países islâmicos, a comunidade internacional tem o direito e até o dever de questionar se estamos diante de acontecimentos desconexos ou de um padrão mais amplo de suspeição. Talvez cada episódio, isoladamente, possa encontrar uma justificativa administrativa. Mas, quando observados em conjunto, eles revelam um cenário que não pode ser ignorado.

O jurista enxerga uma normalização da cultura de associar o Islã ao terrorismo. Afirma que, mesmo no Brasil, há casos de pessoas impedidas de ingressar em território nacional ou submetidas a procedimentos excepcionais em razão da inclusão de seus nomes em supostas listas internacionais de vigilância, sem que haja qualquer condenação judicial ou prova concreta da prática de atos terroristas.

— O que mais preocupa é a sua normalização. Quando práticas discriminatórias passam a ser justificadas em nome da segurança, sem a devida individualização das condutas e sem observância do devido processo legal, corre-se o risco de criar uma categoria de cidadãos que precisam continuamente provar que são inocentes. Isso é incompatível com os princípios dos direitos humanos, da liberdade religiosa e da própria presunção de inocência, pilares fundamentais de qualquer sociedade democrática.

Sammour também fez referência ao combate ao antissemitismo, que ganhou novos contornos com os conflitos recentes entre Israel, Palestina, Líbano e Irã, e disse que a islamofobia é igualmente uma realidade que precisa ser confrontada pela comunidade internacional.

— Assim como o mundo combate o antissemitismo, o racismo e todas as formas de intolerância religiosa, é preciso reconhecer que a islamofobia é uma realidade crescente e que a sua normalização representa uma ameaça aos direitos humanos, à liberdade religiosa e ao próprio ideal de convivência pacífica entre as nações. O combate à islamofobia não é uma pauta exclusiva dos muçulmanos; é uma causa em defesa da dignidade humana e dos valores universais que devem unir, e não dividir, os povos.

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