A taça não faz a coroa: por que a imortalidade do futebol vai além da Copa do Mundo

A genialidade e o impacto cultural superam a falta da Copa do Mundo

PorPedro BernardoRio de Janeiro (RJ)
22/07/2026 15:10

Supervisionado porNathalia Gomes,
Troféu da Copa do Mundo
Troféu da Copa do Mundo (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)

O futebol é movido por narrativas de glória e, no topo dessa pirâmide, está a Copa do Mundo. A cada quatro anos, o planeta para para consagrar um novo grupo de heróis. Recentemente, vimos Lionel Messi alcançar o ápice de sua trajetória ao erguer o troféu no Catar, enquanto Kylian Mbappé já ostenta o título de campeão mundial e um vice no currículo. Esse sucesso frequentemente alimenta um debate comum: ganhar a Copa do Mundo é o critério definitivo para colocar um jogador no topo da história?

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Zico em ação pela Seleção Brasileira
Zico, maestro da icônica Seleção Brasileira de 1982, se consagrou como um dos maiores gênios do futebol sem erguer o troféu da Fifa (Foto: Reprodução)

Condicionar a genialidade de um atleta a um torneio de tiro curto, disputado poucas vezes na carreira e que depende de uma enorme engrenagem coletiva, é uma análise rasa. Grandes ícones do esporte atravessaram suas eras revolucionando o jogo, quebrando recordes e encantando as pessoas, mesmo sem nunca terem colocado as mãos na taça da Fifa. A ausência desse troféu não reduz o tamanho de suas trajetórias.

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A dor e a aceitação dos gênios contemporâneos

Na era moderna, a discussão gira muito em torno de Cristiano Ronaldo e Neymar. O astro português colecionou cinco Bolas de Ouro, empilhou títulos da Champions League e transformou a história de sua seleção ao conquistar uma Eurocopa inédita. Sendo o maior artilheiro de seleções do mundo, o craque sempre deixou claro que vencer a Copa do Mundo era o seu maior desejo profissional, admitindo que o fim desse sonho em sua última participação foi um momento difícil de processar. Ainda assim, ele ponderou que, se sua carreira terminasse sem esse título, ele seria eternamente grato por tudo o que conquistou.

Cristiano Ronaldo acenando
Maior artilheiro de seleções do mundo, Cristiano Ronaldo lamenta a eliminação de Portugal em sua última participação em Copa do Mundo (Foto: Thomas Coex / AFP)

Neymar viveu uma relação igualmente intensa com o torneio. Principal referência técnica do futebol brasileiro no século XXI e campeão de absolutamente tudo por clubes, o atacante conviveu com lesões graves em momentos decisivos de suas Copas e desabafou publicamente sobre o peso psicológico dessas eliminações. O camisa 10 expressou o sentimento de desabamento emocional que as quedas em Copas do Mundo provocaram, mas o seu impacto técnico no futebol mundial e as marcas históricas com a camisa da Seleção Brasileira permanecem intocáveis.

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Neymar chorando após eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo
Neymar chora após queda do Brasil; atacante conviveu com o peso das eliminações, mas mantém marca histórica na Seleção (Foto: Angela Weiss / AFP)

Os arquitetos do futebol que o mundo consagrou

Olhando para o passado, a história se repete com os maiores revolucionários do esporte. O holandês Johan Cruyff comandou o "Carrossel Holandês" em 1974, mudando a tática do futebol mundial como atleta e pensador do jogo através do Futebol Total. A Holanda perdeu a final, mas Cruyff tratava o vice-campeonato com naturalidade, apontando que o reconhecimento global pelo estilo inovador daquela equipe valia mais do que a própria medalha de ouro.

Cruyff é amplamente considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos
Johan Cruyff em ação pela Holanda em 1974; o craque revolucionou o esporte e valorizava o estilo inovador do time acima do vice-campeonato (Foto: Reprodução)

No Brasil, Zico liderou a mágica Seleção de 1982, considerada uma das melhores equipes de todos os tempos. O Galinho de Quintino, que se consagrou como o maior ídolo da história do Flamengo e o verdadeiro cérebro daquela icônica geração, já destacou em entrevistas que a falta da taça não tira o seu sono. Para ele, o carinho e o respeito do torcedor pelo futebol vistoso praticado superam qualquer frustração com o resultado final.

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O peso da injustiça histórica

O caso de Paolo Maldini é outro exemplo emblemático de que o topo do futebol não depende de uma única medalha. Considerado por muitos o maior defensor da história do esporte e uma lenda incontestável do Milan, o ex-zagueiro disputou quatro Copas do Mundo e bateu recordes de minutos em campo no torneio. Ironicamente, a Itália se sagrou tetracampeã em 2006, justamente no primeiro Mundial após a sua aposentadoria da Azzurra. Maldini declarou anos mais tarde que aceitou seu destino esportivo e que se considera um jogador de enorme sucesso, mesmo sem esse troféu no peito.

Maldini em ação pela Itália
Lenda do futebol e maior defensor da Itália, Paolo Maldini bateu recorde de minutos em Mundiais, mas se aposentou da Azzurra antes do tetra em 2006 (Foto: Reprodução)

Roberto Baggio, o "Codino Divino", viveu o outro lado da moeda em 1994. Gênio técnico que carregou a Itália naquela Copa, ele acabou marcado por um destino cruel na disputa de pênaltis contra o Brasil, que selou o vice-campeonato. Baggio admitiu em sua biografia e em entrevistas que aquele erro o perseguiu por anos, mas o reconhecimento de seu país e do mundo à sua habilidade genial acabou cicatrizando a ferida.

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Roberto Baggio (Itália) - 1994
Roberto Baggio lamenta o pênalti perdido na final de 1994; habilidade genial do camisa 10 superou o trauma do vice-campeonato (Foto: Divulgação)

Mais atrás no tempo, encontramos Ferenc Puskás, líder da fantástica Hungria dos anos 50 e dono de uma das maiores médias de gols da história, que viu seu esquadrão perder a final de 1954 para a Alemanha de forma surpreendente. Na mesma prateleira está Alfredo Di Stéfano, o grande motor do Real Madrid pentacampeão europeu nas décadas de 50 e 60, que sequer conseguiu jogar uma partida de Copa do Mundo devido a lesões e fatores políticos de sua época. Alguém ousaria dizer que a história do futebol seria menor sem eles?

A ilusão do imediatismo

Colocar Lionel Messi ou Kylian Mbappé em um patamar superior aos atletas citados apenas pelo fato de possuírem o troféu da Copa do Mundo é ignorar o contexto coletivo do futebol. Um jogador genial pode decidir partidas, mas ele não controla fatores como o planejamento de uma federação, a qualidade técnica de seus companheiros de geração ou erros de arbitragem.

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A beleza do futebol reside na capacidade de emocionar e transformar o esporte. Vencer a Copa do Mundo traz uma glória imensurável, mas a imortalidade esportiva é conquistada pela regularidade, pela genialidade e pelo impacto cultural que o atleta deixa para as próximas gerações. Cristiano Ronaldo, Zico, Maldini, Neymar e tantos outros não precisam da aprovação de um torneio de sete jogos para manterem suas coroas intocáveis.

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