Lúcio de Castro: nos meus pesadelos, Neymar ainda ri aos 45 do 2º tempo
O imaginário do medo: das lendas urbanas aos anos de chumbo

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Tinha a Mulher Loura, o Mão Branca, o Homem do Saco, o Bebê Diabo, o Chupa Cabra. Tinha também o Carro Preto.
As imagens povoavam a cabeça da garotada. Quem nunca ficou com medo de ir ao banheiro da escola ali pela primeira infância porque falavam que a Mulher Loura estava tocando o terror por lá com uma faca na mão.
O jornal popular dava capas seguidas para o Bebê Diabo. Dias a fio.
O Mão Branca era de outra ordem.
Martelava o imaginário da gente.
Coisas de tempos cinzentos desse país. Anos de chumbo.
Quem conhece a história sabe do que estamos falando.
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O "zeitgeist" e as almas penadas da América Latina
Pelo continente, La Luz Mala é a alma penada que fustiga os pecadores. O Pomberito é cruel com quem açoita a floresta. Cuba e México dividem sem ciúme o temor reverencial por La Llorona.
Os povos são assim, la gente é assim.
As lendas urbanas, parte de nossas vidas.
Os sintomas das ansiedades de uma época, talvez as melhores sínteses do "zeitgeist" alemão, o palavrão pra resumir "o espírito do tempo". Instrumentos para reforçar valores, caminho seguro para a gente entender como cada sociedade lida com suas inquietações.
O que sabemos ao certo é que essas imagens nos acompanham desde sempre, algumas até como trauma. O fato é que desde o último domingo ainda não consegui me esquecer daquela imagem.
Aquela. Volta mais forte do que a lembrança da Mulher Loura ou do Chupa Cabra. Como trauma. A saber com o tempo se é irreversível.
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O trauma dos 45 do segundo tempo
Era o Brasil indo embora de mais uma Copa do Mundo. Exatos 45 do segundo tempo.
Um país sem respirar, apelando para todos os santos.
De repente, a TV fecha o close.
Neymar ria.
Segundos. Talvez mais.
Alheio a tudo, a todo sentimento. A sua equipe, a sua gente.
Perdendo, desafiava o goleiro numa guerra particular, dissociada de todo o contexto da vida e do mundo. Tirava onda. E ria. Mas tirava onda de que, meu deus?
Já se vão anos vendo futebol e outros esportes. Como torcedor ou como repórter. Em muita quantidade e intensidade. E a mesma paixão.
Confesso que não me lembro de paralelo no mundo inteiro.
Ouso dizer que nunca houve algo assim, uma atitude do tipo.
Essa tão imensa falta de empatia.

De Bororó a Neymar: o egocentrismo no gramado
Minto.
O futebol de praia do Rio de Janeiro teve um personagem clássico.
Alfredo Bororó.
Desfilava seu futebol imenso pelas areias dos campeonatos do Flamengo e de Copacabana.
Por um tempo, defendeu e foi o 9 do meu Ipiranga querido, tão presente nas lembranças até hoje. Um preto forte, centroavante tão craque como irascível.
Bororó amava só a ele mesmo. Nunca soube o que era uma equipe.
Mas ao menos era engraçado. E não estava lidando com o sentimento de milhões. Apenas dos 10 ao lado dele, no máximo de uma rua.
Se o time estivesse perdendo de 5 x 0, ia lá, fazia um gol e desafiava o time: "Vocês estão perdendo. Eu estou ganhando". Nunca imaginei que ia rever Alfredo Bororó numa Copa do Mundo. Com a 10 do Brasil.
A alma alugada
A bem da verdade, deu o óbvio.
Só quem usa antolhos não conseguiu ver o que era tão evidente.
Como alguém que não jogava em alto nível há mais de três anos e se desmanchava diante do poderoso Recoleta poderia ir para uma Copa do Mundo?
Evidente que a bola não explica.
Explicam muito mais os subterrâneos do futebol brasileiro.
Os fétidos corredores de nossa instituição maior da bola.
O imenso jogo jogado muito além das quatro linhas.
A política com "p" minúsculo.
No fim, é tudo sobre o dinheiro mesmo.
O velho bardo uruguaio, sempre por aqui lembrado, resumiu tão bem.
"O futebol profissional não ocorre em outro planeta, e neste planeta as coisas são como são. O que não se vende, se aluga". (Galeano, Eduardo).
Foi assim. Com a alma alugada a interesses tão pequenos, viajou quem não fazia o menor sentido. Pior. Entrou em campo. Por qual razão, meu Deus?
E saímos de mais uma Copa.
A única certeza agora é da absoluta impossibilidade de me esquecer daquela imagem.
O riso desprovido de alma e empatia diante de um povo inteiro.
Lúcio de Castro: leia mais colunas
Lúcio de Castro escreve sua coluna no Lance! todas as sextas-feiras. Veja outras colunas:
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