Última Copa de Neymar teve incerteza de Ancelotti e opção da CBF
Camisa 10 estava em uma das duas listas de convocados feitas pelo treinador

MORRISTOWN, NJ (EUA) - A pouca utilização de Neymar na Copa do Mundo, primeiro por ele estar se recuperando de lesão muscular, depois por opção do técnico, reforça que Carlo Ancelotti nunca esteve 100% convencido de que o atacante deveria estar no Mundial.
➡️OPINIÃO: Amado e odiado, Neymar encerra o seu ciclo na Seleção Brasileira
Ancelotti chegou a um dos dias mais importantes de seu trabalho na Seleção Brasileira, preparado para qualquer cenário. Na manhã de 18 de maio, horas antes de anunciar os 26 convocados para a Copa, o treinador italiano tinha prontas duas listas distintas. Em uma delas, Neymar estava entre os escolhidos. Na outra, o camisa 10 era substituído pelo atacante João Pedro, do Chelsea. Mais do que uma simples alternativa, a estratégia deixou nas mãos da cúpula da CBF a palavra final sobre o retorno do principal astro do futebol brasileiro.
Naquele dia, Ancelotti deixou o Hotel Guanabara, no Centro do Rio de Janeiro, e seguiu para o Museu do Amanhã, onde faria a convocação mais importante como técnico da Seleção Brasileira. A relação anunciada às 17h (de Brasília) foi a que continha o nome de Neymar, mas a definição passou por horas de avaliação nos bastidores.
A existência das duas listas ajuda a explicar a postura adotada pelo treinador desde sua chegada à CBF. Em vez de comprar uma disputa interna, Ancelotti preferiu apresentar os dois cenários possíveis e permitir que a direção da entidade conduzisse a decisão política sobre a presença ou não de Neymar entre os convocados.
Os bastidores ganharam um novo capítulo durante o Fórum de Lisboa, realizado em Portugal. O evento acontece anualmente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e é organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Foi justamente durante o encontro que Francisco Mendes, filho de Gilmar Mendes e hoje um dos nomes mais influentes da CBF, afirmou a interlocutores, sem qualquer cerimônia, quem considera ter sido o responsável pelo retorno de Neymar à Seleção.
— Quem convocou o Neymar fui eu.
A declaração reforçou a percepção de que a convocação extrapolou critérios exclusivamente técnicos e envolveu decisões tomadas também nos bastidores da entidade.
Curiosamente, a postura de Ancelotti encontra respaldo na própria filosofia de trabalho defendida pelo treinador. Em seu livro "O sonho", o italiano diz que entende ser papel do técnico respeitar a autoridade da diretoria que o contratou, mesmo preservando para si a responsabilidade pelos resultados obtidos dentro de campo.
A reflexão ajuda a compreender por que Ancelotti chegou ao Museu do Amanhã com duas listas diferentes. O treinador tinha uma preferência técnica para cada cenário, mas estava disposto a acatar a decisão institucional antes do anúncio oficial.
O próprio comandante da Seleção deu indícios de que a definição aconteceu apenas às vésperas da convocação. Ao comentar recentemente o episódio, recorreu a um conhecido ditado italiano para evitar alimentar especulações.
— Sabe o que se diz na Itália? Que se minha avó tivesse roda, ela seria um carro. Quando eu cheguei ao museu (para anunciar a convocação), Neymar estava entre os 26 — afirmou em questionamento feito pelo Lance! em coletiva na Granja Comary, em Teresópolis.
A resposta não confirma quem tomou a decisão, mas também não desmente os bastidores. Somada à revelação feita no Fórum de Lisboa, ela reforça a impressão de que uma das principais escolhas da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo foi definida muito além da prancheta do treinador.


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