Lúcio de Castro: quando Brasil e Argentina inventaram a beleza do futebol
Se Brasil e Argentina jogam o futebol de maneiras tão distintas, a razão está na busca de uma resposta de ambos para um mesmo problema

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Era uma noite de sábado. Auge do inverno carioca, exatamente como são os invernos cariocas: uns 20 graus do lado de fora, suficiente para os filhos de São Sebastião tirarem seus casacos do armário. Mais exatamente 13 de julho de 2014. Véspera da final de uma Copa do Mundo. Argentina e Alemanha no Maracanã. Ou melhor, aquele arremedo de estádio que o crime dos nossos mandatários destruiu e hoje é só essa ferida que não fecha. Nem devia mais ser chamado de Maracanã. Voltemos.
Tinha ido jantar com amigos argentinos muito queridos que a profissão me deu. Muito mais do que a profissão, porque transcendem a isso, que a vida deu.
Ezequiel Fernandez Moores, gigante do "periodismo", referência de um continente. Alejandro Wall e Andres Burgo, não menos craques e orgulhos do ofício.
Torcer ou não pela Argentina
Um Baixo Gávea clássico, com tudo o que é um Baixo Gávea clássico e a paisagem de beleza e caos.
Foi lá pelas tantas que Ezequiel me faz a pergunta que eu tanto temia: "Para quem você vai torcer amanhã?"
Todas as minhas convicções na Pátria Grande… Sempre será uma traição torcer contra la sudamericanid.
Mas já tinha um mês com milhares de argentinos gritando "vamos, vamos…" na minha janela. Um título mundial era certeza de caos por aqui e mais noites sem dormir. O pragmatismo me fazia torcer pela primeira vez contra Bolívar.
Aleguei outra razão para justificar. Não menos verdadeira.
Falei para Ezequiel que gostava demais de Diego para ver outro argentino ousar essa coroa.
Era e ainda é verdade. Como Pelé nunca está em questão para mim, maior que Diego, ninguém.
A réplica foi desconcertante e poética.
"Então você quer me dizer que é mais argentino do que nós aqui", fulminou Ezequiel.
Estava tudo ali.
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Ser argentino é também entender Diego como a medida das coisas.
Muito mais. O símbolo de uma identidade nacional.
A possibilidade e o aceno, como nos ensina Pablo Alabarces, de uma nação exitosa mesmo que os fatos atropelem o mito na vida real. E mitos estão aí para isso, para acenar luz lá no fim do túnel.
A possibilidade de "la gente" como protagonista.
É por isso tudo que mais uma vez estarei diante da TV na noite de hoje nesse turbilhão de sentimentos.
Essa confusão tão nossa, tão do lado de baixo do Equador.
O fiel de mais um recital de Messi ali, vibrando com tudo o que imagino pode ser o melhor do futebol.
Convivendo com o incômodo de um maradonista que sonhou acordado com aquele nativo barrilete cósmico deixando uma fileira de gringos para trás e que já não podia ser parado por ninguém. E que lá no fundo, se incomoda com a ideia de alguém ousar superá-lo.
A ideia de não poder ser parado pelo mais forte em carne viva, metáfora de todos nós nos redimindo dos nossos tantos "sonhos postergados", como canta Mercedes.
E que mais uma vez se diga, nunca é demais, Pelé sempre de fora disso. Deixem Pelé fora de tudo o que for disputa humana.
É muito mais do que futebol na noite de hoje.
Na era do futebol alucinantemente vertical, por vezes até um tanto nauseante, há um tanto de poesia em ver alguém desafinando o coro dos contentes. A prática solitária do diferente num mundo monotonamente igual. No lugar das transições alucinadas, quem diria, "toco e me voy" revivido em uma scaloneta de sinfonia. É Menotti também revivido e, indo lá atrás, "la nuestra", o DNA argento. Nas palavras de Matías Mana, assistente de Scaloni, "o respeito pelo nosso território. Marcar uma diferença".
É sobre isso e por isso que estaremos mais uma vez diante da TV na noite de hoje.
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Sobre capoeiras e 'toco e me voy'
Há uma coisa ainda mais bonita nisso tudo. Tem uma beleza imensa em pensarmos que, se Brasil e Argentina jogam o futebol de maneiras tão distintas, a razão está na busca de uma resposta de ambos para um mesmo problema.
Quando o colonizador desembarcou por essas bandas trazendo uma bola e a bandeira britânica, os vizinhos Brasil e Argentina tiveram um mesmo problema. E duas soluções diferentes.
Se pelos lados hermanos a solução foi bater o invasor associando-se em passes curtos e deixando para trás, por aqui saímos pelo drible. O capoeira das ruas se livrando do açoite do branco incorporado na cancha de jogo. Duas soluções tão distintas para um mesmo problema e para a mesma questão que se apresentava.
No continente das veias abertas, Brasil e Argentina inventaram a beleza do futebol.
França
E por falar em beleza… E por falar em vertigem… Sim, voltaremos aqui para falar da França. Precisamos falar da França.
Verdade que lá em 3 de abril essa coluna foi dedicada ao futebol e ao esporte francês. A beleza do que está acontecendo por lá.
Para tristeza de alguns, tudo o que está acontecendo é, em última análise, fruto de uma decisão de estado. De políticas públicas.
O milagre de Clairefontaine não é tão milagre assim. É trabalho sério desde os anos 80 florescendo. Henry, Mbappé, Zidane e esse demônio chamado Olise não surgiram por acaso. Tá tudo aqui.


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