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Lúcio de Castro: Boto não me deixa falar sobre a Copa do Mundo

Visão sobre gestão no futebol brasileiro provoca debate sobre preconceito e eurocentrismo

José Boto, dirigente do Flamengo, com expressão série, de camisa preta
imagem cameraJosé Boto, durante a partida entre Corinthians e Flamengo, na Neo Química Arena (Foto: Rebeca Schumacker/Folhapress)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 05/06/2026
07:00

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Conteúdo Especial
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Uma semana para a Copa do Mundo.

Esta coluna obrigatoriamente teria que ser sobre a Copa do Mundo.

Tinha.

O jornalismo é dinâmico, como já dizia um velho chefe de reportagem ao avisar o reportariado de que seria preciso mudar uma página inteira no exato momento em que todos se levantavam para ir embora, noite de sexta-feira adentro.

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A notícia se impõe, arrematava ele.

Estava certo.

A entrevista de José Boto para "A Bola" é um desses fatos que se impõem.

Deixemos a panturrilha de Neymar para outro momento. Aliás, nunca faltam momentos para falar sobre a panturrilha de Neymar.

➡️ Lúcio de Castro: leia todas as colunas no Lance!

José Boto dando entrevista com paletó azul e blusa branca por baixo
José Boto conversa com João Guilherme no "Mengo Cast", programa da "Flamengo TV" (Foto: Reprodução/YouTube)

Difícil de acreditar

Na semana que se encerra, o diretor de futebol do Flamengo falou longamente ao jornal português. Sinal dos tempos digitais: é jornal, mas é sobretudo conteúdo em vídeo. E está circulando no YouTube mais próximo de você.

Confesso que custei a acreditar no que estava lendo e ouvindo.

Não por acreditar no humanismo do personagem, mas pela falta de pudor e cuidado ao proferir declarações carregadas de preconceitos injustificáveis (como se qualquer preconceito fosse justificável) e de uma visão além de elitista e retrógrada, com o pior viés colonialista possível.

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Hora de abrir aspas e reproduzir José Boto:

"Aqui no Brasil quase todos os dias são teste de fogo à gestão, porque há muitas questões emocionais a que não estamos habituados na Europa. Nós tomamos as decisões de uma maneira mais racional, não há essa emoção. Portanto, qualquer decisão aqui é sempre emocional, tem sempre uma repercussão grande, principalmente na imprensa e torcida".

José Boto se referia à decisão de demitir Filipe Luís.

Aqui já nem vale gastar muitas linhas sobre a demissão em si.

Da decisão de afastar um treinador que um mês antes havia feito um jogo duríssimo, como poucos no mundo fizeram, diante do mais do que poderoso PSG. Um título mundial que escapou no único momento em que o treinador já não podia ter controle: a disputa por pênaltis.

Uma performance de 120 minutos que impressionou o mundo inteiro.

Pouco tempo antes, havia sido campeão da Libertadores.

Mais do que isso: um treinador com raiz no clube, conhecedor da alma rubro-negra. Um profissional de excelência, com potencial para ser um "Alex Ferguson do Flamengo", se possível e enquanto possível.

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Sem explicação, em um recado desrespeitoso de um minuto, José Boto demitiu o treinador após um 8 x 0 no Maracanã.

Falei que não ia gastar muitas linhas e já se vão algumas.

Arrematando, esse colonialismo patrício não é inédito. Nem de longe.

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Em 2021, Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, explicou assim o sucesso por aqui: "Essa é a mentalidade europeia. Disciplina é uma coisa que às vezes falta no Brasil. O rigor, o trabalho diário". Difícil saber se a fala é mais desprezível ou inadmissível. Talvez ambas.

Voltemos à entrevista de José Boto, razão desta coluna ter adiado o tema da Copa do Mundo.

Repetindo:

"Aqui no Brasil quase todos os dias são teste de fogo à gestão, porque há muitas questões emocionais a que não estamos habituados na Europa. Nós tomamos as decisões de uma maneira mais racional, não há essa emoção. Portanto, qualquer decisão aqui é sempre emocional, tem sempre uma repercussão grande, principalmente na imprensa e torcida".

Quem não sentiu, no mínimo, algum desconforto ao ler a frase, talvez precise rever conceitos.

Eurocentrismo sem base

No centro de tudo está a ideia de que na Europa as decisões são mais racionais. Ou seja, um eurocentrismo que não se sustenta sob qualquer base científica, humana, antropológica ou genética.

A crença de que um povo toma decisões mais racionais que outro não tem respaldo.

Há aí um eco de teorias ultrapassadas, que vão desde o evolucionismo social até os piores capítulos do colonialismo.

Excetuando-se literaturas e protocolos de viés eugenista e fascista — e aqui se fala de ideias, não de pessoas — José Boto não conseguiria sustentar sua tese de hierarquias de racionalidade entre povos.

A confusão entre racionalidade e cultura é etnocentrismo puro.

Um pensamento simplista. Paupérrimo. Incompatível com alguém em posição de comando no Flamengo.

De alguém que, aparentemente, não compreende plenamente o próprio Flamengo.

O já citado pudor poderia ter evitado a menção à "racionalidade europeia", especialmente considerando a quantidade de barbáries produzidas ao longo da história — sem necessidade de enumeração.

No fim, o colonialismo também se expressa na tentativa de se colocar como "centro da história". No caso de um dirigente de futebol, é uma autoatribuição de superioridade sobre o entorno. Em bom português: uma carteirada. Sem sustentação.

O "outro" vira o atraso. Pior: o bárbaro.

José Boto tem salvação. Para começar, deveria entrar na Gávea hoje e ser presenteado com um exemplar de Frantz Fanon.

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