Lúcio de Castro: Eduardo e Mônica estavam no Museu do Amanhã
Há algo de muito errado por aqui no reino da bola

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Uma coluna ou um artigo são a revanche do repórter. Preso eternamente às amarras do mais do que necessário rigor no exercício do seu ofício, essa categoria de jornalista se vê obrigada a contar suas histórias em reportagens com um texto limpo, equilibrado, sem exageros, quase asséptico. E sem adjetivos.
Contemplar os dois lados, e ao menos tentar se aproximar de alguma neutralidade, mesmo que Edward Carr tenha nos ensinado há tanto tempo que ela é impossível. "Uma ilusão", arrematava com sua refinada elegância britânica, já que "os fatos não falam por si", como quer o senso comum e como sempre falamos na hora do embate.
Pois assim é. Ou deveriam ser as boas reportagens.
Do repórter diz-se que cabe tentar ao máximo tudo isso acima.
Ao colunista não cabe nada disso.
A coluna é por natureza, o espaço da opinião. E se quiser, do devaneio, do sonho, do arrebatamento. Até do delírio, se assim desejar. E se assim desejar, explicitar o lado em que está. No Maracanã, na vida.
No país de Nelson Rodrigues, nem deveria ser necessário explicar tamanha diferença entre uma coluna e reportagem para quem não consegue entender. Para quem não tem um mínimo do discernimento para entender que as imensas possibilidades dos adjetivos mais derramados do colunista não se repetem jamais no trabalho do repórter.
Esse breve passeio entre as diferenças de lugar entre o momento do colunista e o do repórter é para dar conta de que como é bom aqui alternar os postos.
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Por um instante, largar o ofício amado e maior, de repórter, para escrever essas linhas. Como colunista.
Poder adjetivar. Poder exagerar. Deixar o livre pensar conduzir as palavras.
Fazer as citações mais ferinas. Que presente, quase uma pausa para descanso.
Tudo isso é para contar, valendo-se da condição de colunista e não de repórter, que Eduardo e Mônica estavam no Museu do Amanhã na última segunda-feira.
E que teria sido deles a melhor definição para a convocação da Seleção Brasileira.
Em cinco palavras. Nada precisava mais ser dito.
"Festa estranha com gente esquisita".
Bota estranha nisso.
Pirotecnia no anúncio dos convocados para Copa
Quando 47 seleções que vão disputar uma Copa do Mundo apresentam a lista dos seus escolhidos batendo o portão sem fazer alarde, e só uma escolhe o caminho da pirotecnia, há algo de muito errado por aqui no reino da bola.
Ou no reino da CBF.
Parece óbvio.
Pirotecnia cheia de excessos, para não usar o cafona que o colunismo me permitiria escrever.
Como é próprio dos novos ricos, essa gente emergente afeita a sair do tom, perdida em neons roxos e botões dourados.
Não é possível deixar de lado o histórico recente, o prontuário do último ciclo da Seleção Brasileira para ser óbvio que o que aconteceu foi uma festa estranha com gente esquisita.
Afinal, foram quatro anos de degradação.
Presidentes da CBF sendo trocados.
A gosto do freguês: corrupção, assédio sexual, como quiser. Teve de tudo.
Quatro treinadores, um vexame histórico dentro do Monumental de Nuñez.
Ninguém ali tem um amigo para aquela cutucada salvadora: "menos, muito menos". Para pedir um pouco de discrição e focar no que interessa: a preparação.
A simplicidade alemã por essas bandas em 2014 não ensinou nada?
Era preciso mesmo aquele excesso, parecendo baile de influencer? Aliás, era mesmo o paraíso dos influencers.
Mas existiu algo pior do que a cafonice.
E aqui desligamos o modo colunista um minuto e voltamos à parte mais nobre do ofício, a reportagem.
Teve conflito de interesse. Teve mais.
Numa reportagem publicada em meu site, mostrei que a produção da festa e decoração foram feitas pelos mesmos escritórios que trabalhavam para a estatal do DF no mesmo momento em que o vice da CBF andava por lá.
Tinha superfaturamento, subfaturamento, licitações viciadas, denúncia de lavagem de dinheiro.
Por uma magnífica conjunção astral, as mesmas empresas denunciadas em 2018 na "Operação Praia de Goa" reapareceram na festa estranha de gente esquisita. As mesmas pessoas.
E aqui falar em "festa estranha com gente esquisita" já começa a soar infantil.
Seria apenas uma cafonice tropical, um pecado permitido do lado debaixo do Equador perdido numa tarde do centro do Rio se fosse só isso, como mostramos na reportagem.
A festa estranha com gente esquisita é a prova de que não aprendemos nada depois de tantos escândalos na CBF.
E no fim de tudo, o momento de constrangimento, a história ainda não contada mas que ainda há de ser contada: o jogador há três anos sem jogar, com 15 jogos na temporada, convocado sob urros.
Depois não reclamem quando chega um 7 x 1.
A vida cobra. A história cobra. A bola cobra. A bola pune.
A bola não perdoa uma "festa estranha com gente esquisita".


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