Lúcio de Castro: uma revolução chamada Pep Guardiola
Uma década que redefiniu o jogo e obrigou o futebol a se reinventar em todas as direções

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Pep se vai.
Depois de dez anos no comando do City.
O futebol está órfão.
De um gênio da raça.
Não bastasse tudo isso, um animal político, que sempre teve noção do seu tamanho ao lado de boas causas.
O homem que mudou o jogo.
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O debate está aberto, mas será difícil me convencer de que tudo que aconteceu depois da primeira década deste século na bola não passou por ele.
Como ação ou como reação.
Como criação ou como antídoto.
Daquele Barcelona fantástico que obrigou todos os demais treinadores a queimarem a cabeça para tentar não ficar numa eterna roda de bobo.
Das duas, uma: ou copiavam ou tentavam inventar o antídoto.
E assim que conseguiam chegar perto do que o catalão fazia, ele já estava indo para o próximo número.
Mais do que isso: parecia rasgar tudo o que inventara em sua capacidade surreal de reinvenção.
Sempre vai existir o chato a apontar que "isso já se fazia antes dele". É possível. Mas com ele ficou muito maior.
Ou gente como o professor Luxemburgo, que até hoje, a cada novidade que surge, bate no peito e diz convictamente que já fazia isso no Bragantino dos anos 80.
Foi com Guardiola que muitas coisas tomaram forma definitiva.
Foi ele que aposentou os goleiros que não sabem jogar com os pés.
Hoje transformados quase em peças de museu.
Mas quando aquilo começou, parecia uma insanidade.
Não era. Era futebol em busca da sua melhor forma.
Agora parece tão óbvio o goleiro transformado no primeiro construtor do jogo. Mas se alguém te falasse isso antes de Pep, seria amarrado em camisa de força.
É fato que algumas coisas sempre estiveram por aí. Mas depois dele parecem que eram apenas um esboço.
Como os laterais invertidos, os atacantes por dentro.
E sim, há registro de algum "Falso Nove" por aí antes de Pep.
Depois dele fica até meio vergonhoso reivindicar.
Afinal, foi num 2 de maio de 2009 que Pep imortalizou Messi na função. Muito mais do que isso, imortalizou aquela parte do gramado, algumas vezes deserta, como um dos mais mortais pedaços da rinha.
O episódio, magnificamente contado em "Guardiola Confidencial", do seu biógrafo Martí Perarnau, expõe muito mais do que uma criação tática, aquela que é provavelmente a maior característica dos gênios: a obsessão, a insana busca pela perfeição.
Recentemente, lembrei aqui numa coluna na obsessão de Van Gogh. Sua busca pela perfeição, sua carta ao irmão Theo falando que ia "desenhar o berço, espero, ainda umas cem vezes, além deste de hoje. Com obstinação."
Mas guardiolismo do que isso, impossível.
Foi tudo isso que fez Guardiola ligar para Messi às dez da noite de um sábado, véspera de um Barça x Real e fazer a realeza ir até o centro de treinamento do Barcelona. Se Antonela acreditou que ia ao campo do jogo no sábado à noite e que era o treinador do outro lado, não se sabe.
Alucinado em busca de respostas para o dia seguinte que já chegava, teve a luz: tinha um buraco ali naquele pedaço do Real.
A invenção não ficou por aí. Era pra entrar pelos lados do campo como sempre até os 10 minutos. Quando então faria o sinal para que Messi inaugurasse oficialmente o lugar, o posto e a função: estava criado o "Falso Nove".
Foi um massacre. A placa do caminhão ainda passa por Barcelona e leva os 6 x 2 exposto na carroceria.
Foi ele também que obrigou os treinadores adversários a queimar a mufa e pensar antídotos.
Para desgosto de quem não consegue ver beleza em tudo o que se faz no presente, foram as criações de Guardiola e os antídotos que fizeram do sempre espetacular jogo ainda mais frenético.
Em busca desse antídoto, os adversários forjaram a pressão alta que tornou o jogo tão vertiginoso nos dias atuais. Era preciso fustigar aquele abuso dos goleiros jogando com os pés, construindo o jogo, induzir ao erro.
Klopp foi a maior expressão dessa fagocitose campal alucinante. Mas no início de tudo, estava a necessidade de inventar algo para bater Guardiola.
O jogo transformando gramados de cento e dez metros em campos de salão com 22 jogadores compactados em 30 metros e transições rápidas, foi tudo para tentar bater nele.
Um saboroso perfil no "The Athletic" nos últimos dias conta outras tantas histórias que não estão nos ótimos livros de Martí Perarnau.
Além do futebol e de Guardiola, a matéria nos lembra enquanto jornalistas o quanto vale o investimento em bom jornalismo.
E que sem tempo, investimento, bons profissionais, nada acontece.
Um colírio na era dos cliques apressados. Um farol muito além de intenções: sem todos esses itens citados não tem jornalismo.
Como comprovam as tantas histórias contadas nesse perfil.
No entanto, a história que mais gosto envolvendo Guardiola não está ali.
Pep tinha tirado aquele período sabático entre o Barcelona e o Bayern. Papo de 2012, 2013.
Escolheu Nova Iorque como casa.
Mais exatamente o Upper West Side. E mais exatamente ainda o exclusivíssimo edifício The Ardsley, um templo art déco, vista engolindo o Central Park, vizinho ao Dakota, imortalizado por abrigar John Lennon e também cenário do assassinato.
Um repórter brasileiro descobriu a morada do gênio.
Nenhum jornalista, de lugar nenhum, tinha quebrado o silêncio daquele retiro.
Era nobre qualquer tentativa.
O melhor argumento talvez fosse mesmo evocar a condição de brasileiro, lugar tantas vezes citado como da admiração de Guardiola.
Estabelecida a campana, ficou dias e dias postado enquanto o mundo passava.
Até que um dia surge no horizonte, longilínio, chegando em casa...ele.
A chance seria breve. Era preciso um argumento definitivo em poucos segundos.
Então o repórter sacou: "Pep, sou brasileiro, repórter, Brasil...", com sorriso no rosto achando que a sedução iria se estabelecer.
Pep parou, dando alguma esperança.
Olhou...
E mandou:
"F... que você é brasileiro". E subiu.
Genial até em sua falta de educação.
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