Lúcio de Castro: Arthur Muhlenberg, a eternidade rubro-negra
Cronista, que faleceu na última quarta-feira (22), foi uma força da natureza

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"Às vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta".
A frase é uma obra inteira. Eduardo Galeano é o autor.
Então, sejamos catapulta e não âncora.
A ocasião e o homenageado exigem tal postura.
A tradição e a grandeza da crônica esportiva brasileira exigem tal postura.
O passado glorioso do gênero por aqui só pode ser catapulta.
Nosso personagem, mais ainda.
Foi por aqui que a crônica esportiva deu uma volta contra qualquer tentativa de ser rotulada como algo menor e sobreviveu.
Do outro lado, tinha muita gente grande.
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Num tempo em que a intelectualidade considerava o futebol como um assunto menor, indigno de virar literatura, gigantes explodiram qualquer tentativa de limite.
Nelson Rodrigues, Mário Filho e um sempre esquecido, mas provavelmente o pioneiro — já que, cronologicamente, abriu o caminho dos grandes escrevendo sobre a bola —: José Lins do Rego. (Poderia citar outros tantos, mas um meio de campo desses já basta).
Com todo o encanto de sua genialidade transposto para o que a crônica exige: alguma leveza, brevidade, o cotidiano visto com algum humor, um tanto de subjetividade no olhar do "Zélins".
É uma imensa pena que esteja esquecido como tal nesses dias de caça-cliques. Mais do que isso: é péssima notícia que rubro-negros não conheçam seus textos sobre o ser Flamengo, sobre a alma rubro-negra.
Um breve fragmento da crônica "O Flamengo", de 15 de novembro de 1951:
"Mais um ano do meu querido Flamengo. Amo-o como um dos mais ardentes amores de minha vida. E por ele, este meu coração de 50 anos bate no peito com as 120 pulsações dos minutos apertados da torcida. Sinto-o na angústia e não me amargo com isso. Aí está a minha paixão incontida, o meu maior arrebatamento de homem, confundido na multidão", parte da coletânea com crônicas de José Lins do Rego, "Flamengo é puro amor: crônicas escolhidas" (Marcos de Castro, editora José Olympio).
Outros contaram, em verso e prosa, com nobreza, as coisas do Flamengo depois da morte do autor, em 1957.
Até chegarmos a uma força da natureza.
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Arthur Muhlenberg.
O Urublog.
Todo o encantamento e a genialidade da crônica, revividos. Concentrados na alma rubro-negra.
Um talento imenso.
Muito mais do que um cronista espetacular do nosso tempo, da cidade, do Flamengo.
Alguém que gostava de gente.
Tinha a cara do Rio e a cara do Flamengo.
A resenha mais sofisticada. Porque simples, como são as mais sofisticadas coisas.
Engraçado sem fazer qualquer força.
Um monte de história surreal.
Da parceria com Bob Dylan, numa noite num cabaré de péssima reputação de Copacabana, até as mais gloriosas jornadas em rubro-negro.
As mensagens mais espetaculares no zap, a genialidade em três linhas, numa ideia despretensiosa. Talvez nem se desse conta do quão espetaculares eram algumas falas.
O que poderia parecer total nonsense, na boca de qualquer outro, virava um espetáculo.
Os disparates, soltos de repente.
As ideias mais loucas. As melhores.
Transformar a língua do TTK em idioma oficial da nação rubro-negra. A urgência em que o Flamengo saísse do Leblon e voltasse para o Flamengo.
Discípulo direto do realismo mágico de Gabo. De Gabo, não. De Zico.
Sem jamais perder a indignação. Com as coisas do Flamengo elitizado, como alguns querem, com os retrocessos do Brasil.
Na última mensagem, falei pra ele que ele precisava seguir firme. Afinal, a gente tinha visto Valter Minhoca e Professor Waldemar no comando.
Não tinha nenhuma justiça em não estar aqui agora, na hora da colheita.
A resposta, com a cara dele: "no sapatinho, we can".
E terminou com algo que parece perdido numa mensagem de zap, mas tem uma força poética tão surreal.
Só um rubro-negro maior poderia ter escrito a frase com a qual nos despedimos.
Não. Na verdade, só ele poderia ter escrito essa última mensagem:
"Rumo à nossa Tóquio espiritual."

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