Lúcio de Castro: Libertadores – É tempo de 'soroche'
O mal da altitude espera o Flamengo na estreia na Libertadores

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Amanhã é dia de "soroche". A emboscada de Francisco Pizarro que derrubou o último imperador inca ainda nos custa caro. Atahualpa foi vencido, e com ele a genialidade de uma civilização que ainda hoje espanta pelo tanto que sabia. Nas mais diferentes áreas. A vingança ficou como maldição. O forasteiro que chega a Cusco, a capital do império incaico, padece sem dó do "soroche". O mal da altitude. É o que espera o Flamengo amanhã. Estreia da Libertadores defendendo a coroa.
Quis o destino, ou apenas as bolinhas do sorteio, que a primeira fosse morro acima.
Diante do Cusco, 3.400 metros de altitude.
É um elenco poderoso, de 2 bilhões de orçamento por ano, 600 milhões em contratações. E do outro lado…a altitude. E o tal do zagueiro implacável: o "soroche".
Que ninguém menospreze. O "soroche" é cruel demais.
Tenho visto alguns desdenhando, dizendo que não é El Alto, na Bolívia, a 4 mil metros de altitude.
Bobagem. Ainda que obviamente distinto de 4 mil metros, 3.400 metros no lombo são suficientes para atrapalhar as pernas, o raciocínio, para chamar o ar do fundo da alma e pedir rendição para o imperador.
No campo e bola não há comparação. Mas a última coisa que estamos falando aqui é campo e bola.
Ao longo dos anos, tomei por prática não julgar atuações na altitude. Não faz sentido. É outro mundo.
Resenha sobre Libertadores não pode menosprezar o 'soroche'
Tupac estará a postos. Cumprindo a profecia do poeta que disse no verso inesquecível:
"Levantou seu grito de liberdade/
Com seu sangue regou a terra/
e seu exemplo não morrerá/
Mataram, mas não matarão!
Qualquer resenha sobre Libertadores não pode menosprezar o "soroche".
Numa era de clubes brasileiros com poderio financeiro muito maior do que os vizinhos, quando as bolinhas começam a sair, mais vale ficar atento a quilometragem das viagens no nosso calendário insano e na altitude dos adversários do que neles mesmo.

E é disso que estamos falando amanhã.
Muito longe do grupo A, o do Flamengo, ser a chamada "carne assada". Não é. Estudiantes, com toda força que dispõe no momento, "queridinho" do Milei por assinar com ele o desejo de que tudo se transforme em SAF, e fechando o grupo, Independiente Medellín. Difícil lá dentro desde o mais famoso e temido dos Pablos.
A regra de preocupar-se mais com a viagem ou com a altitude na primeira fase tá valendo pro estreante do dia.
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No grupo C, em condições normais, o La Guaira não faria susto ao Tricolor.
A viagem faz. Caracas não é logo ali.
Uma Caracas que anda estranha. A nostalgia colonial do império retomou os saques. Levaram ouro, petróleo, o povo anda cabreiro…
O adversário não mete medo também. Difícil é jogar pelo Brasileiro no fim de semana, viajar, jogar de novo…
Já o Cruzeiro não anda firme mas o antigo bicho-papão do grupo, o velho Boca, muito menos.
Resta o Barcelona equatoriano, que não é o Barça mas sempre dá algum trabalho. E de perto também não tem nada.
O refresco deve ficar por conta do Universidad Católica no decadente futebol chileno. Enganado pela "plata dulce" que marcou o futebol chileno da ditadura Pinochet e se revelou uma farsa, nunca mais se levantou.
E agora se iludiu de novo com as SAFs locais. Desde então, nunca mais revelaram ninguém.
Já sem Dorival e Dorivalzinho, o Corinthians encara outro fantasma de si mesmo, o Peñarol. Foi tempo de botar medo.
Santa Fé e Platense completam o presente. As primeiras fases têm sido generosas com o Palmeiras.
Não importa. Se os grupos fossem difíceis, iriam se virar do mesmo jeito. Tem sido a marca do time de Abel, tão chato quanto vencedor.
Por fim o Mirassol. Desfeito, parece que o mata-mata está mais distante.
Ao fim, restará saber se teremos mais uma final brasileira. Montevidéu aguarda.
Se Paris vale uma missa, Montevidéu não fica atrás.
Fosse só uma ida por homenagem a Eduardo Galeano, e já valeria chegar à grande final.
Daria uns bons anos para saber o que o maestro diria sobre uma competição que leva o poético nome de "Libertadores da América" ter cartolas como os nossos no comando.
Já estaria na fila daquela mesa do Café Brasileiro onde ele passava tardes memoráveis de resenha.

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