Lúcio de Castro: a ex-tribuna de imprensa do Maracanã e o jornalismo no divã
A era dos influencers se abateu como uma tragédia na tribuna sagrada

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Nelson Rodrigues comprimia o olhar até o gramado do Maracanã em esforço inútil. Nada do que estava acontecendo em campo era registrado. Azar dos fatos. No dia seguinte, aquele que expôs sem retoques a alma brasileira publicava uma crônica irretocável sobre o jogo. Ali por perto, o João Sem Medo traduzia o mesmo jogo tocando no coração do mais humilde que grudava o rádio no ouvido como
ninguém jamais fizera.
De noite, os dois debatiam na mãe de todas as resenhas, a histórica e inigualável "Resenha da Facit", questões de vida ou morte. De futebol. Esgrimavam seus argumentos ferozmente.
A seleção era a pátria de chuteiras ou não? Debates sem fim, debates para a história.
Olhando assim, é impossível não sucumbir a um pouco de nostalgia. Do que não vivi. Meu "Meia-Noite em Paris" poderia ser aquela tribuna da imprensa do Maracanã daqueles dias.
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Disputaria com alguns outros momentos da história, outros lugares, mas estaria na briga com certeza.
Chegar na tribuna da imprensa do Maracanã hoje e pensar nas cenas acima é um exercício melancólico de padecimento e um tanto de vergonha.
E se alguém quiser achar que é sinal de velhice já ou nostalgia tola, então que me deixem com os dinossauros. Legal deve ser hoje. Um show de horror.
Era dos influencers
A nobreza da profissão se esvaindo em gritaria ensandecida na mais absoluta canastrice. A era dos influencers se abateu como uma tragédia na tribuna sagrada.
Alguns dos mandamentos mais sagrados do ofício rasgados.
Muito longe de querer comportamento de filhos de chocadeira, amorfos, sem time e sem coração.
Mas cada coisa no seu lugar.
Mais exatamente a alguns metros depois dali. Na arquibancada. E pronto, tudo resolvido.
Só que tem a guerra pelos cliques.
Eram 18h10 do último domingo quando um grito em nome da restauração de alguma dignidade ecoou nas redes.
Pelo horário, considerando que o Fla x Flu começou às 18h, e gol de Pedro saiu lá pelos 9 minutos abrindo o placar, foi logo em cima disso.
Não é difícil ligar o tuíte que viralizou em 436 mil visualizações ao gol. E ao que aconteceu em seguida na tribuna.
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Carlos Eduardo Mansur, grande jornalista e doce figura humana, sujeito daqueles cujo equilíbrio nas posições sempre nos dá alguma inveja, escreveu:
"A tribuna de imprensa do Maracanã virou uma arquibancada. Não é aceitável". Ponto.
Não é sobre preconceito com as novas formas do jornalismo, fulano ou sicrano.
Por trás da tuitada, existe um longo debate a ser percorrido sobre os rumos da profissão.
Nunca foi sobre uma tribuna desfigurada apenas.
No olho do furacão, está uma profunda mudança: a revolução digital. Espetacular para tantas coisas e possibilidades do próprio jornalismo, mas que com ela trouxe também uma crise estrutural para a profissão.
Para a modalidade "jornalismo investigativo", essa redundância que nem devia existir porque todo jornalismo deveria pressupor tal característica, o buraco é maior ainda.
O que for dito aqui sobre crise no jornalismo, multiplique por dois e estamos falando do "ramo" investigativo.
Foi nessa transformação digital que o jornalismo passou a competir com conteúdos rápidos, virais.
Com uma lógica que privilegia velocidade e volume, em detrimento da profundidade.
Muita opinião, muito copia e cola, muita "denúncia" que não é nada, muito Caetano estacionando o carro no Leblon na manchete, muito power point de fácil viralização e nenhuma substância.

A tribuna do "Novo Maracanã"
E assim a audiência vai valendo mais do que botar o pé na lama e reportar. Do que aqueles dias virados em uma sala, afundado em documentos… Há um tanto de opção política de chefias e donos, tão bem sabemos, em detrimento do jornalismo na acepção da palavra. Mas isso fica para outro dia. Tenho falado bastante disso mundo afora.
O que dá clique é urrar na tribuna. É xingar, ofender. O algoritmo no fim de tudo como o senhor todo-poderoso.
Não é só sobre "influencers". Muitos jornalistas também se veem pressionados a virar "influencer".
Foi assim que a tribuna virou um show de horror. É sobre a tribuna do Maracanã. E é sobre muito mais.
Mas, para quem chegou até esse parágrafo e se encheu de pessimismo com os rumos do ofício, aquele jovem reportero que, como esse velho periodista aqui sonhou que seu trabalho mudava o mundo, saiba que, como diria Cazuza, ainda estão rolando os dados.
Há sempre um outro lado, bem sabemos, regra de ouro aprendida nos bancos universitários.
E esse outro lado é que nunca tivemos tanta oportunidade para descobrir grandes histórias como agora.
Nunca tivemos tantas ferramentas. Nunca tivemos tanta chance de disseminar essas histórias.
Que ninguém se esqueça que um jornalista deve ser antes de tudo um teimoso. Que é no canto do ringue que ele deve crescer.
Que é ali, no desconforto da saraivada de golpes que a nobreza do jornalismo se impõe. Fiscalizar poderes e poderosos, a profissão que só existe se "balançar o barco", como poeticamente disse Ruben Salazar.
"A paixão insaciável" na definição que mais gosto, Gabo em estado puro.
A tribuna do "Novo Maracanã" é a cara do crime ali cometido contra o verdadeiro Maracanã, destruído na cobiça dos vendilhões do templo. Templo sagrado. Não só do futebol, mas de uma nação.
Mas aqui ninguém se rende, ensinou o titã Maceo. Somos teimosos. Existem outros caminhos.
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