Lúcio de Castro: se eu quiser falar de Zico
Quando Deus cita seu nome, você precisa ouvir com atenção

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Elevação ou altura de uma coisa em relação a outra. Orgulho excessivo; altivez, arrogância, presunção, sobrançaria, sobranceria.
Desde segunda-feira (23), fui acometido por tudo isso acima. Tudo o que define soberba no velho dicionário. Tinha chegado até esse momento da vida com muitos dos sete pecados capitais, mas não esse. Acabou. Me entreguei definitivamente à soberba.
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A palavra de Deus
Para falar a verdade mesmo, não ando sequer cumprimentando ou apertando a mão de ninguém. Marra mesmo. Marra de cão, diriam no meu Rio de Janeiro.
Acontece que fui citado por Deus. Nenhum mortal citado (e elogiado!) por Deus segue sendo o mesmo após tal fato.
Foi assim:
Na segunda, Zico veio até a sede deste matutino (que não é mais um matutino, mas fica assim mesmo) participar de uma live. Resenha de primeira, como tudo que envolve Zico, encontrando parceria de primeira no estúdio com a turma boa do Lance!: Fernando David, João Lidington e Smigol.
Saiu de tudo: Flamengo, Brasil, seleção, futebol de hoje, futebol de ontem, Copa, expectativa. Vale recuperar para quem não viu.
Mas, de repente...
O momento já eternizado no meu celular e os amigos não aguentam mais receber.
João faz uma pausa para anunciar as atrações que os leitores e assinantes encontram no jornal. E manda, na sequência, que o jornal tem reportagens exclusivas, atrações, colunistas, Lúcio de Castro...
Eis que Deus, que a tudo ouvia, interrompe a chamada e manda: "grande Lúcio de Castro".
Ele. O ídolo de uma vida toda. O monstro sagrado que fez o menino chorar copiosamente no dia em que se despediu diante da multidão no Maracanã. Aquele que uma nação passou a chamar de Deus e, por isso, no dia 3 de março, diz que é Natal.
Diante do que, qualquer um há de perdoar a soberba. Foi como receber flores em vida. Foi como satisfazer toda a cota de vaidade — vivo ainda.
Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga, como nos lembram Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. O que importa é satisfazer a vaidade agora. Afinal, depois, que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais.
Exagero?
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Mito inalcançável
Num país com imensa dificuldade de construir memória, de erguer seus mitos e heróis — parte natural e nada estranha em um processo histórico marcado por rupturas institucionais, formação tardia das instituições republicanas, golpes, pouca valorização da preservação histórica e a eterna dificuldade de consolidar um imaginário coletivo duradouro —, Zico é exceção que vai muito além das quatro linhas.
Oposto da vizinha Argentina, onde Gardel, Evita, Diego e Perón duelam para saber quem está no topo do altar dos mitos da pátria, por aqui, por tudo isso acima, temos essa dificuldade.
E, nesse vazio, Zico é expressão de pertencimento e continuidade para o povo dele, para a nação dele — fatores fundamentais que constroem os mitos.
As gerações foram passando. Vieram os filhos. Zico seguiu como mito inalcançável de uma nação. Os filhos deram lugar aos netos. Zico seguiu. Mito inalcançável de uma nação.
Talvez já estejamos na quarta geração e nem nos demos conta. E os bisnetos daqueles que choraram quando Moraes Moreira perguntou como a gente ficaria agora, sem Zico, nas tardes de domingo do Maracanã, vão chegando.
E nada indica — e nada vai mudar.

Zico seguirá sendo o mito inalcançável de uma nação. Pode ser que um presidente tenha um dia cometido a heresia de dizer que uma hora o Zico vai passar no Flamengo. Ninguém lembra disso. Ninguém lembrará de alguém tão menor. Nem merece linha a mais, salvo o pé de página da história.
Zico vai seguir. Mito inalcançável de uma nação.
E eu seguirei, insuportável desde que Deus falou: "grande Lúcio de Castro".
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