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Seleções africanas ignoram rótulos em campanha histórica na Copa do Mundo

Nove das dez participantes avançam para o mata-mata

PorPedro WerneckRio de Janeiro (RJ)
28/06/2026 09:56
Salah é abraçado por todos os companheiros do Egito
Salah, ídolo do Egito, é abraçado efusivamente pelos companheiros após gol decisivo para classificação na Copa do Mundo (Foto: Alex Grimm / AFP)

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A Copa do Mundo de 2026 já começou histórica para a África, com o recorde de dez participantes. Em campo, as seleções africanas aproveitaram a oportunidade e garantiram inéditas nove vagas no mata-mata. Com federações mais organizadas, jogadores talentosos e times com características variadas, reforçando a identidade de cada um dos países, as equipes do continente recusam o persistente rótulo de "surpresas" e voltam a desafiar o resto do mundo.

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O aumento do número de concorrentes no Mundial gerou receio de maior desequilíbrio entre as seleções. Mas a África mostrou que tem ao menos uma dezena de países capazes de competir com qualquer adversário, seja por meio do futebol técnico e ofensivo de Marrocos, da velocidade e jogo de "trocação" da Costa do Marfim ou do ferrolho de Cabo Verde, que impediu a favorita Espanha de balançar as redes.

Vozinha, goleiro do Cabo Verde, fenômeno da Copa do Mundo
Vozinha ergue bandeira de Cabo Verde após garantir empate por 0 a 0 com a Espanha na estreia do país em Mundiais (Foto: Roberto Schmidt / AFP)

A visão preconceituosa sobre o futebol africano ainda persiste em declarações como a do alemão Bastian Schweinsteiger, que classificou a seleção marfinense como "um pouco selvagem". Mas o campo prova o contrário. A igualdade é cada vez maior. Neste Mundial, a África teve 44,4% de aproveitamento na fase de grupos, ou seja, conquistou 40 de 90 pontos possíveis.

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Ao longo do torneio, as seleções africanas desafiaram prognósticos precoces. Quando derrotada de forma dominante pelo México, a África do Sul foi praticamente descartada. Mas o desfecho do grupo, com classificação sul-africana e 100% de aproveitamento do país-sede, mostrou que o resultado foi muito mais mérito mexicano. Depois de apresentar dificuldades na vitória magra sobre o Panamá, quando precisou abrir mão de suas características de jogo, Gana arrancou chocante empate com a Inglaterra. E Cabo Verde, que para muitos empatou com a Espanha por ótima partida do goleiro Vozinha, também igualou os jogos contra Uruguai e Arábia Saudita.

Desempenho das seleções africanas na fase de grupos da Copa:

  • África do Sul: classificada na 2ª posição do Grupo A, com 4 pontos ✅
  • Marrocos: classificado na 2ª posição do Grupo C, com 7 pontos ✅
  • Costa do Marfim: classificada na 2ª posição do Grupo E, com 6 pontos ✅
  • Tunísia: eliminada no Grupo F, sem somar pontos ❌
  • Egito: classificado na 2ª posição do Grupo G, com 5 pontos ✅
  • Cabo Verde: classificado na 2ª posição do Grupo H, com 3 pontos ✅
  • Senegal: classificado na 3ª posição do Grupo I, com 3 pontos ✅
  • Argélia: classificada na 3ª posição do Grupo J, com 4 pontos ✅
  • RD Congo: classificada na 3ª posição do Grupo K, com 4 pontos ✅
  • Gana: classificada na 3ª posição do Grupo L, com 4 pontos ✅
Thapelo Maseko é abraçado por companheiros após marcar para a África do Sul
Thapelo Maseko é abraçado por companheiros após anotar gol da classificação da África do Sul ao mata-mata da Copa do Mundo (Foto: Yury Cortez / AFP)

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Triunfo do futebol africano

A evolução do futebol africano passa por ideias de jogo provenientes dos países: seis dos 10 participantes começaram a Copa do Mundo com técnicos nacionais — a Tunísia trocou o tunisiano Sabri Lamouchi pelo francês Hervé Renard após o primeiro jogo. E a África ainda tem um 7º representante entre os treinadores do Mundial: o marroquino Jamal Sellami comanda a Jordânia.

O movimento de valorização de profissionais internos teve seu marco em 2022, quando todas as seleções africanas tiveram comandantes nacionais e o semifinalista Marrocos alcançou a melhor campanha da história da África sob comando de Walid Regragui. Nas duas edições anteriores, contudo, o continente chegou ao Mundial com maioria de técnicos estrangeiros. Em 2010, apenas uma das seis equipes tinha um africano à beira do campo.

É claro que não há receita única para o sucesso ou demérito em contratar um treinador estrangeiro, como até o Brasil fez antes desta Copa do Mundo. Mas a mudança de panorama na África é muito expressiva por desafiar um preconceito histórico de que os talentos do continente são fruto de capacidade física, mas não de inteligência tática e visão de jogo. Dentro e fora de campo, as seleções mostram que o sucesso africano não depende da importação de estrategistas.

Os técnicos das seleções africanas na Copa do Mundo de 2026:

PaísTécnicoNacionalidadeClassificada?

África do Sul

Hugo Broos

Bélgica

Sim

Argélia

Vladimir Petkovic

Suíça

Sim

Cabo Verde

Bubista

Cabo Verde

Sim

Costa do Marfim

Emerse Faé

Costa do Marfim

Sim

Egito

Hossam Hassan

Egito

Sim

Gana

Carlos Queiroz

Portugal

Sim

Marrocos

Mohamed Ouahbi

Marrocos

Sim

RD Congo

Sébastien Desabre

França

Sim

Senegal

Pape Thiaw

Senegal

Sim

Tunísia

Sabri Lamouchi / Hervé Renard

Tunísia / França

Não

Sentado no banco de reservas, Pape Thiaw acompanha jogo de Senegal contra a Noruega
Pape Thiaw, técnico de Senegal, acompanha sério o jogo contra a Noruega pela 2ª rodada da Copa do Mundo (Foto: Angela Weiss / AFP)

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Planejamento de longo prazo

Em um futebol tão globalizado, impulsionado por intensos processos migratórios, as fronteiras entre os países diminuíram e são muitos os jogadores com mais de uma nacionalidade, frequentemente de nações europeias e africanas. Nos últimos anos, as federações da África evoluíram no processo de captação e retenção de talentos com origem em seus países.

A histórica classificação de Cabo Verde, que disputa sua primeira Copa do Mundo, é bastante simbólica. A diáspora cabo-verdiana é quase três vezes maior do que a sua população: mais de um milhão de cabo-verdianos moram longe do arquipélago africano. No atual elenco, 14 integrantes nasceram fora do país, mas acreditaram no processo de desenvolvimento dos Tubarões-Azuis.

A seleção marroquina, mais consolidada entre as africanas, tem papel revolucionário na captação e retenção de talentos. Marrocos se apoia em projeto organizado e vitorioso, além da alta concorrência por vagas em equipes europeias, para conquistar atletas de altíssimo nível. É o caso de Achraf Hakimi (PSG) e Brahim Díaz (Real Madrid), nascidos na Espanha.

O grande destaque da equipe do norte da África nesta Copa do Mundo é o meia Ayyoub Bouaddi (Lille), de 18 anos, que nasceu na França e defendia a seleção tricolor nas divisões de base. Mas a federação não venceu a concorrência por acaso: mesmo tão jovem, já é titular absoluto do time. E a promessa é vir muito mais por aí, já que os marroquinos foram campeões mundiais sub-20 em 2025.

Marroquino Ayyoub Bouaddi persegue a bola, enquanto é marcado pelo escocês Ryan Christie
Prodígio marroquino Ayyoub Bouaddi persegue a bola, enquanto é marcado pelo escocês Ryan Christie (Foto: Franck Fife / AFP)

Reorganização com impacto estrutural

A seleção da Costa do Marfim foi outra que fez jus às expectativas. A geração liderada por Yan Diomande (RB Leipzig), de 19 anos, fez o que a safra de craques como Yaya Touré e Didier Drogba não conseguiu: a classificação para o mata-mata. Em entrevista ao Lance! antes do início da Copa do Mundo, o ex-lateral marfinense Arthur Boka, que disputou as Copas de 2006, 2010 e 2014, antecipou por que as perspectivas do atual elenco eram bem mais promissoras.

— Eu vi e vivi muitas coisas, e agora é bem diferente. A nova geração tem tudo. Tudo mudou. Eles têm campos perfeitos, que não tínhamos na nossa época. Agora, é tudo bem mais profissional. Então, eles têm mais possibilidades de alcançar os seus objetivos, mais chances de chegarem à sua melhor forma, de sempre estarem 100%. A África não tinha isso antes. Agora é tudo muito profissional, tudo muito bom, muito diferente. E os jogadores levam a sério. O nosso tempo era bem diferente do de hoje. Agora, os jogadores podem enfim pensar apenas no futebol: em treinar bem, evoluir, jogar bem. Isso melhorou muito o futebol africano. E os jogadores têm muita qualidade — relatou.

Yan Diomande, da Costa do Marfim, encara marcação de Kimmich, da Alemanha
O jovem Yan Diomande encara marcação do veterano Kimmich; jóia marfinense fez fase de grupos excelente (Foto: Alexander Hassenstein / AFP)

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História da África na Copa do Mundo

Participantes africanos por Copa do Mundo:

  • 1930 - nenhuma de 13 seleções (0%)
  • 1934 - 1 de 16 seleções (6,25%)
  • 1938 - nenhuma de 15 seleções (0%)
  • 1950 - nenhuma de 13 seleções (0%)
  • 1954 a 1966 - nenhuma de 16 seleções (0%)
  • 1970 a 1978 - 1 de 16 seleções (6,2%)
  • 1982 a 1990 - 2 de 24 seleções (8,3%)
  • 1994 - 3 de 24 seleções (8,3%)
  • 1998 a 2006 - 5 de 32 seleções (15,6%)
  • 2010 - 6 de 32 seleções (18,7%)*
  • 2014 a 2022 - 5 de 32 seleções (15,6%)
  • 2026 - 10 de 48 seleções (20,8%)

*África do Sul sediou

Melhores campanhas de seleções africanas:

  • 2022 - Marrocos semifinalista
  • 1990 - Camarões nas quartas de final
  • 2002 - Senegal nas quartas de final
  • 2010 - Gana nas quartas de final

Participações por seleção:

  1. Camarões: 8 vezes (1982, 1990, 1994, 1998, 2002, 2010, 2014, 2022)
  2. Marrocos: 7 vezes (1970, 1986, 1994, 1998, 2018, 2022, 2026)
  3. Tunísia: 7 vezes (1978, 1998, 2002, 2006, 2018, 2022, 2026)
  4. Nigéria: 6 vezes (1994, 1998, 2002, 2010, 2014, 2018)
  5. Argélia: 5 vezes (1982, 1986, 2010, 2014, 2026)
  6. Gana: 5 vezes (2006, 2010, 2014, 2022, 2026)
  7. Egito: 4 vezes (1934, 1990, 2018, 2026)
  8. Senegal: 4 vezes (2002, 2018, 2022, 2026)
  9. Costa do Marfim: 4 vezes (2006, 2010, 2014, 2026)
  10. África do Sul: 4 vezes (1998, 2002, 2010, 2026)
  11. Zaire (atual RD Congo): 2 vezes (1974, 2026)
  12. Angola: 1 vez (2006)
  13. Togo: 1 vez (2006)
  14. Cabo Verde: 1 vez (2026)


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