Seleções africanas ignoram rótulos em campanha histórica na Copa do Mundo
Nove das dez participantes avançam para o mata-mata

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A Copa do Mundo de 2026 já começou histórica para a África, com o recorde de dez participantes. Em campo, as seleções africanas aproveitaram a oportunidade e garantiram inéditas nove vagas no mata-mata. Com federações mais organizadas, jogadores talentosos e times com características variadas, reforçando a identidade de cada um dos países, as equipes do continente recusam o persistente rótulo de "surpresas" e voltam a desafiar o resto do mundo.
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O aumento do número de concorrentes no Mundial gerou receio de maior desequilíbrio entre as seleções. Mas a África mostrou que tem ao menos uma dezena de países capazes de competir com qualquer adversário, seja por meio do futebol técnico e ofensivo de Marrocos, da velocidade e jogo de "trocação" da Costa do Marfim ou do ferrolho de Cabo Verde, que impediu a favorita Espanha de balançar as redes.

A visão preconceituosa sobre o futebol africano ainda persiste em declarações como a do alemão Bastian Schweinsteiger, que classificou a seleção marfinense como "um pouco selvagem". Mas o campo prova o contrário. A igualdade é cada vez maior. Neste Mundial, a África teve 44,4% de aproveitamento na fase de grupos, ou seja, conquistou 40 de 90 pontos possíveis.
Ao longo do torneio, as seleções africanas desafiaram prognósticos precoces. Quando derrotada de forma dominante pelo México, a África do Sul foi praticamente descartada. Mas o desfecho do grupo, com classificação sul-africana e 100% de aproveitamento do país-sede, mostrou que o resultado foi muito mais mérito mexicano. Depois de apresentar dificuldades na vitória magra sobre o Panamá, quando precisou abrir mão de suas características de jogo, Gana arrancou chocante empate com a Inglaterra. E Cabo Verde, que para muitos empatou com a Espanha por ótima partida do goleiro Vozinha, também igualou os jogos contra Uruguai e Arábia Saudita.
Desempenho das seleções africanas na fase de grupos da Copa:
- África do Sul: classificada na 2ª posição do Grupo A, com 4 pontos ✅
- Marrocos: classificado na 2ª posição do Grupo C, com 7 pontos ✅
- Costa do Marfim: classificada na 2ª posição do Grupo E, com 6 pontos ✅
- Tunísia: eliminada no Grupo F, sem somar pontos ❌
- Egito: classificado na 2ª posição do Grupo G, com 5 pontos ✅
- Cabo Verde: classificado na 2ª posição do Grupo H, com 3 pontos ✅
- Senegal: classificado na 3ª posição do Grupo I, com 3 pontos ✅
- Argélia: classificada na 3ª posição do Grupo J, com 4 pontos ✅
- RD Congo: classificada na 3ª posição do Grupo K, com 4 pontos ✅
- Gana: classificada na 3ª posição do Grupo L, com 4 pontos ✅

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Triunfo do futebol africano
A evolução do futebol africano passa por ideias de jogo provenientes dos países: seis dos 10 participantes começaram a Copa do Mundo com técnicos nacionais — a Tunísia trocou o tunisiano Sabri Lamouchi pelo francês Hervé Renard após o primeiro jogo. E a África ainda tem um 7º representante entre os treinadores do Mundial: o marroquino Jamal Sellami comanda a Jordânia.
O movimento de valorização de profissionais internos teve seu marco em 2022, quando todas as seleções africanas tiveram comandantes nacionais e o semifinalista Marrocos alcançou a melhor campanha da história da África sob comando de Walid Regragui. Nas duas edições anteriores, contudo, o continente chegou ao Mundial com maioria de técnicos estrangeiros. Em 2010, apenas uma das seis equipes tinha um africano à beira do campo.
É claro que não há receita única para o sucesso ou demérito em contratar um treinador estrangeiro, como até o Brasil fez antes desta Copa do Mundo. Mas a mudança de panorama na África é muito expressiva por desafiar um preconceito histórico de que os talentos do continente são fruto de capacidade física, mas não de inteligência tática e visão de jogo. Dentro e fora de campo, as seleções mostram que o sucesso africano não depende da importação de estrategistas.
Os técnicos das seleções africanas na Copa do Mundo de 2026:
| País | Técnico | Nacionalidade | Classificada? |
|---|---|---|---|
África do Sul | Hugo Broos | Bélgica | Sim |
Argélia | Vladimir Petkovic | Suíça | Sim |
Cabo Verde | Bubista | Cabo Verde | Sim |
Costa do Marfim | Emerse Faé | Costa do Marfim | Sim |
Egito | Hossam Hassan | Egito | Sim |
Gana | Carlos Queiroz | Portugal | Sim |
Marrocos | Mohamed Ouahbi | Marrocos | Sim |
RD Congo | Sébastien Desabre | França | Sim |
Senegal | Pape Thiaw | Senegal | Sim |
Tunísia | Sabri Lamouchi / Hervé Renard | Tunísia / França | Não |

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Planejamento de longo prazo
Em um futebol tão globalizado, impulsionado por intensos processos migratórios, as fronteiras entre os países diminuíram e são muitos os jogadores com mais de uma nacionalidade, frequentemente de nações europeias e africanas. Nos últimos anos, as federações da África evoluíram no processo de captação e retenção de talentos com origem em seus países.
A histórica classificação de Cabo Verde, que disputa sua primeira Copa do Mundo, é bastante simbólica. A diáspora cabo-verdiana é quase três vezes maior do que a sua população: mais de um milhão de cabo-verdianos moram longe do arquipélago africano. No atual elenco, 14 integrantes nasceram fora do país, mas acreditaram no processo de desenvolvimento dos Tubarões-Azuis.
A seleção marroquina, mais consolidada entre as africanas, tem papel revolucionário na captação e retenção de talentos. Marrocos se apoia em projeto organizado e vitorioso, além da alta concorrência por vagas em equipes europeias, para conquistar atletas de altíssimo nível. É o caso de Achraf Hakimi (PSG) e Brahim Díaz (Real Madrid), nascidos na Espanha.
O grande destaque da equipe do norte da África nesta Copa do Mundo é o meia Ayyoub Bouaddi (Lille), de 18 anos, que nasceu na França e defendia a seleção tricolor nas divisões de base. Mas a federação não venceu a concorrência por acaso: mesmo tão jovem, já é titular absoluto do time. E a promessa é vir muito mais por aí, já que os marroquinos foram campeões mundiais sub-20 em 2025.

Reorganização com impacto estrutural
A seleção da Costa do Marfim foi outra que fez jus às expectativas. A geração liderada por Yan Diomande (RB Leipzig), de 19 anos, fez o que a safra de craques como Yaya Touré e Didier Drogba não conseguiu: a classificação para o mata-mata. Em entrevista ao Lance! antes do início da Copa do Mundo, o ex-lateral marfinense Arthur Boka, que disputou as Copas de 2006, 2010 e 2014, antecipou por que as perspectivas do atual elenco eram bem mais promissoras.
— Eu vi e vivi muitas coisas, e agora é bem diferente. A nova geração tem tudo. Tudo mudou. Eles têm campos perfeitos, que não tínhamos na nossa época. Agora, é tudo bem mais profissional. Então, eles têm mais possibilidades de alcançar os seus objetivos, mais chances de chegarem à sua melhor forma, de sempre estarem 100%. A África não tinha isso antes. Agora é tudo muito profissional, tudo muito bom, muito diferente. E os jogadores levam a sério. O nosso tempo era bem diferente do de hoje. Agora, os jogadores podem enfim pensar apenas no futebol: em treinar bem, evoluir, jogar bem. Isso melhorou muito o futebol africano. E os jogadores têm muita qualidade — relatou.

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História da África na Copa do Mundo
Participantes africanos por Copa do Mundo:
- 1930 - nenhuma de 13 seleções (0%)
- 1934 - 1 de 16 seleções (6,25%)
- 1938 - nenhuma de 15 seleções (0%)
- 1950 - nenhuma de 13 seleções (0%)
- 1954 a 1966 - nenhuma de 16 seleções (0%)
- 1970 a 1978 - 1 de 16 seleções (6,2%)
- 1982 a 1990 - 2 de 24 seleções (8,3%)
- 1994 - 3 de 24 seleções (8,3%)
- 1998 a 2006 - 5 de 32 seleções (15,6%)
- 2010 - 6 de 32 seleções (18,7%)*
- 2014 a 2022 - 5 de 32 seleções (15,6%)
- 2026 - 10 de 48 seleções (20,8%)
*África do Sul sediou
Melhores campanhas de seleções africanas:
- 2022 - Marrocos semifinalista
- 1990 - Camarões nas quartas de final
- 2002 - Senegal nas quartas de final
- 2010 - Gana nas quartas de final
Participações por seleção:
- Camarões: 8 vezes (1982, 1990, 1994, 1998, 2002, 2010, 2014, 2022)
- Marrocos: 7 vezes (1970, 1986, 1994, 1998, 2018, 2022, 2026)
- Tunísia: 7 vezes (1978, 1998, 2002, 2006, 2018, 2022, 2026)
- Nigéria: 6 vezes (1994, 1998, 2002, 2010, 2014, 2018)
- Argélia: 5 vezes (1982, 1986, 2010, 2014, 2026)
- Gana: 5 vezes (2006, 2010, 2014, 2022, 2026)
- Egito: 4 vezes (1934, 1990, 2018, 2026)
- Senegal: 4 vezes (2002, 2018, 2022, 2026)
- Costa do Marfim: 4 vezes (2006, 2010, 2014, 2026)
- África do Sul: 4 vezes (1998, 2002, 2010, 2026)
- Zaire (atual RD Congo): 2 vezes (1974, 2026)
- Angola: 1 vez (2006)
- Togo: 1 vez (2006)
- Cabo Verde: 1 vez (2026)
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