África faz justiça com recorde na Copa do Mundo de 2026 e mira profecia de Pelé
Continente terá 10 seleções, algumas com ambição de superar 4º lugar de Marrocos em 2022

Sub-representada em torneios passados, a África terá um número recorde de seleções na Copa do Mundo de 2026. Serão dez, ficando atrás apenas da Europa, com 16. A participação tão expressiva é fruto de luta secular dentro e fora de campo, que alcançou o reconhecimento tardio do tamanho geográfico e potencial esportivo do continente.

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África próxima do primeiro título mundial?
Na década de 1970, Pelé se empolgava com o desenvolvimento do futebol africano e previa que uma seleção do "Berço da Humanidade" seria campeã mundial até a virada do século. A profecia não se concretizou, mas o continente vem da melhor campanha na história do campeonato — Marrocos semifinalista em 2022 — e já não está tão distante de, mesmo com atraso, cumprir as palavras do Rei.
Para o ex-lateral Arthur Boka, que disputou três copas do mundo e 85 jogos pela seleção da Costa do Marfim (2006, 2010 e 2014), a realização do sonho africano acontecerá em um futuro próximo.
— O que disse Pelé se aproxima: as coisas estão se tornando cada vez melhores para os países africanos. Eu tenho certeza de que vamos ganhar a Copa do Mundo um dia. Nas próximas edições ou até nesta, uma equipe africana já pode ganhar a Copa — disse ao Lance!.
A previsão do jornalista Luis Fernando Filho, especialista em futebol africano, não é muito diferente: uma representante do continente alcançará, no mínimo, uma decisão mundial até 2046.
— A tendência é, em até 20 anos, termos a primeira seleção africana chegando em final de Copa do Mundo. Com a globalização do futebol e do talento africano, é quase inevitável que isso aconteça. Países como Marrocos, Senegal e Costa do Marfim possuem boas gerações futuras. Existe um trabalho em andamento para que os jovens de hoje protagonizem grandes feitos com suas seleções nos próximos ciclos — projetou ao Lance!.
De Copa em Copa: continente cada vez mais preparado
A África precisou lutar por um espaço na Copa do Mundo, mas não é de hoje que a participação vai muito além de mera representação. Especialmente desde a década de 1990, com Camarões de Roger Milla e Nigéria de Jay Jay Okocha, as equipes entram para disputar o torneio com beleza e competitividade. Em 2026, certamente não será diferente. Finalistas da polêmica decisão da Copa Africana de Nações, Marrocos e Senegal despontam como principais forças do continente.
O time marroquino não terá mais o técnico da campanha histórica da última edição: Walid Regragui pediu demissão em janeiro e foi substituído por Mohamed Ouahbi, antes treinador de base da seleção. Por outro lado, chega com elenco ainda mais forte, com remanescentes como o protagonista Hakimi (PSG) e a adição de jovens como Brahim Díaz (Real Madrid). Aliás, os dois nasceram na Espanha e poderiam ter defendido também a Fúria.
Em um futebol tão globalizado, impulsionado por intensos processos migratórios, as fronteiras entre os países diminuíram e são muitos os jogadores com mais de uma nacionalidade, frequentemente de nações europeias e africanas. Nesse contexto, Marrocos tem papel revolucionário na retenção de talentos.
— Existe um amplo projeto de estudo e captação de talentos africanos liderado pelas federações. Atualmente, as primeiras conversas são feitas nas categorias de base dos clubes europeus. Marrocos e Senegal, por exemplo, já têm conseguido convencer os jogadores de origens africanas a jogar nas suas categorias de base, antes mesmo de subirem ao futebol profissional dos clubes europeus — destacou Luis Fernando Filho.
Marrocos foi campeão mundial sub-20 vencendo a Argentina
Como resultado dessa retenção de jovens talentos, Marrocos conquistou o título mundial sub-20 no ano passado, derrotando no caminho o Brasil e a Argentina na final. Mas a seleção que disputa a Copa atual tem 19 jogadores nascidos fora do país, a maioria de França e Espanha — algo comum em outras seleções africanas. O Congo tem 20 atletas naturais de outros países e a Argélia, 16.
Brahim Díaz escolheu jogar por Marrocos após espera frustrante por chances na seleção espanhola. A concorrência por vagas em equipes europeias é um dos argumentos de convencimento das federações africanas, fortalecido cada vez mais também pelos ótimos resultados em grandes competições. Mas, para outros países obterem sucesso nesse movimento, é fundamental que a gestão do futebol no continente se livre da imagem negativa.
— Os termos-chave são organização, método e transparência. Historicamente, grandes federações africanas ficaram manchadas por corrupção e desorganização institucional. Isso tem mudado nos últimos anos. Nenhum jogador de alto calibre aceitará uma seleção africana que não seja minimamente organizada e ofereça um projeto de carreira. Brahim Diaz é o grande case. Poderia jogar pela Espanha, mas a Federação Marroquina ofereceu a ele um projeto de protagonismo e vem dando todas as ferramentas para se desenvolver — acrescentou o jornalista.

Costa do Marfim tenta surpreender
As mudanças também impactaram positivamente a Costa do Marfim. A geração de Arthur Boka contava com craques como Yaya Touré e Didier Drogba, mas não conseguiu chegar longe nas copas disputadas. Para o ex-lateral, a nova safra de jovens talentos do país é apoiada por uma federação mais organizada e tem cenário favorável para surpreender no Mundial deste ano. Em amistoso disputado na última quinta-feira (4), os marfinenses venceram a poderosa França por 2 a 1, de virada.
— Eu vi e vivi muitas coisas, e agora é bem diferente. A nova geração tem tudo. Tudo mudou. Eles têm campos perfeitos, que não tínhamos na nossa época. Agora, é tudo bem mais profissional. Então, eles têm mais possibilidades de alcançar os seus objetivos, mais chances de chegarem à sua melhor forma, de sempre estarem 100%. A África não tinha isso antes. Agora é tudo muito profissional, tudo muito bom, muito diferente. E os jogadores levam a sério. O nosso tempo era bem diferente do de hoje. Agora, os jogadores podem enfim pensar apenas no futebol: em treinar bem, evoluir, jogar bem. Isso melhorou muito o futebol africano. E os jogadores têm muita qualidade — relatou.

A nova geração marfinense promete. O elenco conta com o jogador africano mais valioso da atualidade: Yan Diomande, ponta de 19 anos do RB Leipzig avaliado em € 90 milhões (cerca de R$ 528 milhões na cotação atual) pelo Transfermarkt. Outros três atletas do país integram a lista dos 25 mais valiosos do continente, todos abaixo dos 23 anos.
— Eu penso que a Costa do Marfim irá longe nesta Copa do Mundo, porque temos muitos bons jogadores, que jogam em todas as partes da Europa e do mundo. Muitos bons jogadores mesmo. Temos atletas com experiência e uma geração jovem, que pode fazer muito nesta Copa. Seremos uma surpresa, tenho certeza — acrescentou Boka.

Próximo passo da evolução é alcançar o futebol de clubes
Em paralelo, o desenvolvimento africano também passa pela evolução dos campeonatos locais, com maior capacidade de retenção de talentos. Em muitos países, porém, ainda é um processo embrionário.
— Essa é uma questão que varia de acordo com os países. No Norte da África, temos os campeonatos mais competitivos do continente. O Egito tem como base os jogadores de Al Ahly, Zamalek e Pyramids. Na África do Sul, o Mamelodi Sundowns também lidera esse processo. No geral, especialmente na África Ocidental, os torneios necessitam de mais atratividade para atrair grandes vendas, apesar de os talentos existirem em todos os níveis — explicou Luis Fernando.
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África escalou uma pirâmide até as dez vagas na Copa de 2026
O continente africano não terá representação tão expressiva no Mundial organizado por Estados Unidos, México e Canadá por acaso. Foi um processo longo. Quando o torneio começou, na década de 1930, a África tinha quase todo o território sob domínio colonial europeu. Sem apoio, a maioria dos países não conseguia sequer se inscrever. A exceção foi o Egito, que conseguiu participar da segunda edição, em 1934, e foi eliminado pela Hungria na primeira fase.
O cenário começou a mudar com o processo de descolonização na década de 1950, que possibilitou a fundação da Confederação Africana de Futebol (CAF) em 1957. No entanto, mesmo sendo o continente com maior número de países e com a segunda maior população, a África disputava uma única vaga na Copa com Ásia e Oceania. Isso até 1966, quando a CAF se indignou com a situação e, sem sucesso nos apelos enviados à Fifa, resolveu boicotar o torneio. Na edição seguinte, então, a entidade máxima do futebol garantiu vaga direta para uma seleção africana. Assim, Marrocos jogou o Mundial de 1970 e deu fim ao inacreditável hiato de 36 anos.
Mesmo privadas de jogar o torneio, e consequentemente de se testar em cenário global, as equipes africanas evoluíram a cada edição. Dessa forma, ganharam mais vagas conforme o total de participantes aumentou. A partir de 1998, quando foi estipulado o formato com 32 competidores, a CAF passou a ter cinco vagas (15,6%). No inédito regulamento com 48 concorrentes para este ano, serão dez representantes africanas (20,8%).
Participantes africanos por Copa do Mundo:
- 1930 - nenhuma de 13 seleções (0%)
- 1934 - 1 de 16 seleções (6,25%)
- 1938 - nenhuma de 15 seleções (0%)
- 1950 - nenhuma de 13 seleções (0%)
- 1954 a 1966 - nenhuma de 16 seleções (0%)
- 1970 a 1978 - 1 de 16 seleções (6,2%)
- 1982 a 1990 - 2 de 24 seleções (8,3%)
- 1994 - 3 de 24 seleções (8,3%)
- 1998 a 2006 - 5 de 32 seleções (15,6%)
- 2010 - 6 de 32 seleções (18,7%) - África do Sul sediou
- 2014 a 2022 - 5 de 32 seleções (15,6%)
- 2026 - 10 de 48 seleções (20,8%)
Melhores campanhas de seleções africanas:
- 2022 - Marrocos semifinalista
- 1990 - Camarões nas quartas de final
- 2002 - Senegal nas quartas de final
- 2010 - Gana nas quartas de final
Participações por seleção:
- Camarões: 8 vezes (1982, 1990, 1994, 1998, 2002, 2010, 2014, 2022)
- Marrocos: 6 vezes (1970, 1986, 1994, 1998, 2018, 2022)
- Nigéria: 6 vezes (1994, 1998, 2002, 2010, 2014, 2018)
- Tunísia: 6 vezes (1978, 1998, 2002, 2006, 2018, 2022)
- Argélia: 4 vezes (1982, 1986, 2010, 2014)
- Gana: 4 vezes (2006, 2010, 2014, 2022)
- Egito: 3 vezes (1934, 1990, 2018)
- Senegal: 3 vezes (2002, 2018, 2022)
- Costa do Marfim: 3 vezes (2006, 2010, 2014)
- África do Sul: 3 vezes (1998, 2002, 2010)
- Zaire (atual RD Congo): 1 vez (1974)
- Angola: 1 vez (2006)
- Togo: 1 vez (2006)
Eliminações das africanas por fase:
- Fase de Grupos: 36 vezes
- Oitavas de final: 9 vezes (Egito em 1934*; Marrocos em 1986; Nigéria em 1994, 1998 e 2014; Gana em 2006; Argélia em 2014; Senegal em 2022)
- Quartas de Final: 3 vezes (Camarões em 1990; Senegal em 2002; Gana em 2010)
- Semifinal: 1 vez (Marrocos em 2022)
*Em 1934, as oitavas de final foram a primeira fase
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