Da guerra à eliminação dramática, Irã sai de cabeça erguida de Copa manchada
Participação iraniana teve tensões, condições desiguais e um desfecho frustrante

A trajetória do Irã na Copa do Mundo dos Estados Unidos terminou de forma melancólica. Decidida por outras equipes, já que a ponta do pé de Shojae Khalilzadeh impediu a definição no Lumen Field, em Seattle, diante do Egito. Ao depender de vitórias em jogos em que bastava o empate para todos os envolvidos se classificarem, a seleção "mais maltratada" da competição — palavras do treinador iraniano — viveu um clichê de montanha-russa de emoções, literalmente.
Os iranianos chegaram a comemorar a vaga na segunda fase já nos acréscimos de Argélia x Áustria. Euforia que se transformou em frustração e tristeza em instantes. O Irã terminou como nono na lista dos terceiros colocados de cada grupo, e só se classificam os oito melhores. ➡️Veja quem se classificou!
Tensão dentro e fora de campo
Desde meses antes do início do Mundial, o Irã já sabia que o seu destino era a tensão, dentro e fora de campo. Atacado pelos EUA em fevereiro, o país do Golfo Pérsico chegou para competir esportivamente em meio a uma guerra com o país-sede, algo inédito no torneio. Demorou a confirmar sua participação e, quando o fez, levou mais tempo ainda para obter vistos para a sua delegação — ou pelo menos cerca de metade dela, já que o restante foi barrado pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS, na sigla em inglês, que corresponde a Department of Homeland Security) por alegada ligação com a Guarda Revolucionária, um braço econômico e militar de elite do regime iraniano.
As tensões se elevaram quando a seleção teve de mudar sua sede para treinamentos de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México. A troca veio acompanhada de proibição para a delegação passar a noite em solo americano após os jogos. Neste ponto, a isonomia esportiva da Copa do Mundo foi pelo ralo. Enquanto a Fifa se curvou sem dar um pio para defender a igualdade de condições para os participantes da competição que organiza. Lavou as mãos.
Mas o povo que formou a primeira superpotência do planeta nos tempos de Ciro, o Grande, não se rendeu ao país de maior poderio econômico e militar do mundo moderno. Acostumados a adversidades, os iranianos seguiram como foi possível. Em campo, se não foram brilhantes, certamente não passaram vergonha, pelo contrário. No gramado, não houve derrota. A vitória foi competir de cabeça erguida.
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Com a preparação — e a recuperação dos jogos — prejudicada, o Irã foi a Los Angeles e deixou uma mensagem de agradecimento no vestiário. Gesto que foi repetido depois do empate com o Egito, mas com outra mensagem, um pedido de fair play, quando já estavam cientes de que dependeriam de resultados que não seriam os mais interessantes para as equipes que disputariam os duelos que decidiriam sua continuidade na competição.
— Talvez uma equipe consiga avançar na fase de grupos, mas somente com lisura e honra é possível manter a cabeça erguida diante da história. O fair play não é apenas uma linha nas regras do futebol; é a alma do jogo — dizia a mensagem, que também agradecia a hospitalidade de Seattle, deixada no vestiário do Lumen Field.
O maior nome da seleção, Mehdi Taremi, não se importou em ser tão diplomático. Deu uma tesoura voadora na Fifa.
— Essa Copa do Mundo é um desastre — disparou.
Taremi citou nominalmente o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e não se furtou a dizer com todas as letras o que se podia perceber nas entrelinhas. Questionado se tinha a impressão de que a organização queria o Irã fora da competição, não recuou:
— Temos que lutar contra tudo aqui. Não sei se as pessoas querem isso ou não, mas, da nossa perspectiva, sim, me parece que sim.
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Não bastassem todos os atritos que perduravam desde antes do início da disputa esportiva, ainda houve o repúdio tanto do Irã quanto do Egito à designação da partida em Seattle como Pride Match (Jogo do Orgulho). As federações dos países emitiram nota conjunta exigindo que símbolos relacionados à causa não fossem levados ao estádio — ambos reprimem a homossexualidade; no caso dos iranianos punições podem chegar à morte.
Neste caso, a Fifa foi firme e ratificou a autorização para bandeiras do arco-íris e outros itens que estivessem de acordo com seu regulamento — o que não aconteceu na Copa anterior, no Catar. Mas, apesar das ameaças de governantes iranianos, acenando até com possível abandono do jogo, não houve maiores problemas em função disso.
O capítulo final do drama iraniano ficou para sábado. Três jogos. Se qualquer um deles tivesse um resultado diferente, o Irã estaria na segunda fase. Mas a Croácia bateu Gana (neste jogo, o empate também barraria o avanço iraniano), a República Democrática do Congo venceu o Uzbequistão, e, por fim, o inacreditável empate entre Argélia e Áustria. Não pelo resultado em si, mas pela forma como o placar se consolidou nos instantes finais da partida.

Os dois países estariam classificados no caso de um empate, placar que eliminaria o Irã. E o 2 a 2 persistia até os acréscimos, com a Argélia arrancando vaias das arquibancadas de tantos toques para o lado nas proximidades do grande círculo, sem qualquer movimentação dos austríacos para reaver a posse. Se o juiz apitasse ali, certamente a vergonha teria de estampar as manchetes do pós-jogo.
Mas eis que, do nada, em vez de mais um passe para o lado, Houssem Aouar aproveitou o nítido desinteresse dos rivais em defender e lançou o ex-Manchester City Riyad Mahrez, que não perdoou. O 3 a 2 colocava os iranianos na segunda fase e eliminava os austríacos, que só então passaram a querer a bola novamente. E conseguiram. De forma inacreditável, no último lance da partida, Saša Kalajdžić aproveitou distração de uma defesa que já comemorava a vitória, e a viu escapar das mãos.
Em um espaço de três minutos, o Irã comemorou a vaga e chorou sua perda. Mas, fora de campo, a maior derrota certamente foi da organização de uma Copa manchada pela falta de isonomia.
Brasil x Japão
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