Organizações de direitos humanos sobre Egito x Irã: 'Respeito não é negociável'
Human Rights Watch e Sports & Rights Alliance explicam legislação contra pessoas LGBTQIA+ dos países e criticam política migratória de Trump

Egito e Irã se enfrentam nesta sexta-feira em um duelo cercado de grande expectativa, tanto pelo caráter decisivo no gramado, quanto por como será o ambiente nas arquibancadas do Lumen Field, em Seattle. O jogo, designado Pride Match (Jogo do Orgulho) pela cidade americana, acontece em meio à maior celebração local da comunidade LGBTQIA+, o Pride Weekend. As federações de ambos os países já protestaram formalmente junto à Fifa, que confirmou ao Lance! que não haverá restrição a símbolos da causa, incluindo a bandeira do arco-íris, desde que de acordo com seu código de conduta nos estádios. E organizações internacionais de direitos humanos afirmam que o "respeito não é negociável".
O impasse cultural persiste. Para entender como esses países lidam com o homossexualismo e a igualdade de gênero, o Lance! conversou com a diretora executiva da Sports & Rights Alliance (SRA), Andrea Florence, e com a diretora de iniciativas globais da Human Rights Watch (HRW), Minky Worden, sobre a mudança de postura da entidade nas competições. A Sports & Rights Alliance tem como parceiros organizações como a Anistia Internacional, Repórteres Sem Fronteiras, Transparência Internacional e World Players Association, além da própria Human Rights Watch.

— O respeito às pessoas LGBT não é negociável, nem por parte do Estado iraniano, nem pela Fifa. A não discriminação e a liberdade de expressão constituem responsabilidades da Fifa como entidade esportiva. Respeito, diversidade e equidade são direitos universais — e princípios basilares do esporte. O esporte não é um mundo separado. Pelo contrário, ele espelha a nossa humanidade: as virtudes, mas também os mesmos preconceitos e discriminações enraizados na nossa cultura. Por isso é tão importante que o esporte fomente e garanta o respeito à diversidade e à inclusão — disse Florence, que comemorou a confirmação oficial da Fifa de que as bandeiras da causa LGBTQIA+ poderão tremular no Lumen Field nesta sexta:
— É muito bem-vinda a garantia pública que a Fifa divulgou, declarando que este é um "evento inclusivo" e que "bandeiras de arco-íris e outras bandeiras de orientações sexuais e identidade de gênero são bem-vindas de acordo com o Código de Conduta da Copa da FIFA de 2026".
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Com longa experiência na área, Worden ressaltou as violações aos direitos de pessoas LGBTQIA+ no Egito e no Irã. E afirmou que a principal preocupação da organização é com elas.
— Acompanho a questão dos direitos humanos há 28 anos e há muito documentamos ameaças, assédio e abusos contra pessoas e comunidades LGBT, especificamente no Egito e no Irã. Para começar, a Human Rights Watch realizou pesquisas documentando violações de direitos humanos internacionais cometidas por essas nações e seus governos contra pessoas LGBT. É importante dizer que nossa principal preocupação é, de fato, com as ameaças enfrentadas pelas pessoas países; essa é sempre a prioridade — disse a diretora da Human Rights Watch.

Legislações que perseguem pessoas LGBTQIA+
Florence, que além de diretora da SRA é advogada especialista em direitos humanos, explicou como funciona a legislação nessas duas nações. Afirmou que, no Egito, embora não haja leis específicas contra a comunidade LGBTQIA+, há algumas que são usadas de maneira seletiva para perseguição. No Irã, a punição pode ser a execução.
— Em ambos os países, pessoas LGBT são perseguidas, sujeitas à discriminação e violência. No Egito, apesar de não existir uma lei que explicitamente criminalize relações homoafetivas, uma lei de "combate ao trabalho do sexo" é usada de maneira seletiva para perseguir pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero. Embora esses crimes prevejam uma pena máxima de três anos de prisão, em alguns casos as condenações podem chegar a seis anos. Já no Irã, o Código Penal Islâmico (2013) prevê a pena de morte, prisão e/ou açoitamento para diferentes crimes relacionados a atos sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo.

Omissão da Fifa em casos no Catar é criticada
Em 2022, no Catar, algumas situações no campo e fora dele chamaram atenção. A Fifa impediu que capitães de seleções europeias usassem uma braçadeira em referência à campanha de inclusão denominada "One Love". Um torcedor chegou a ser barrado por um acessório com características semelhantes, e as mesmas cores fizeram um jornalista ser barrado ao tentar entrar em um estádio da Copa do Mundo. Para Florence, advogada especialista em direitos humanos, houve infração ao próprio estatuto da entidade.
— Em teoria, nada mudou com relação à responsabilidade da FIFA de não discriminação entre a Copa do Catar e a Copa nos Estados Unidos. A FIFA, como entidade privada, tem a responsabilidade de respeitar os direitos humanos — como reconhecido desde 2016 no Artigo 3 do seu Estatuto e na sua Política de Direitos Humanos. Isso significa que, no Catar, a FIFA desrespeitou seu próprio Estatuto quando negou a entrada de jornalistas e torcedores com camisetas e bandeiras com arco-íris — argumentou Florence.

O artigo 3 do estatuto a que se refere a advogada e diretora da SRA, e que é aprofundado no documento com as diretrizes políticas mencionadas, diz: "A Fifa é comprometida a respeitar todos os direitos humanos reconhecidos internacionalmente e se empenhará em promover a proteção desses direitos".
— É responsabilidade da Fifa criar um ambiente de trabalho livre de assédio e abuso. Em Copas do Mundo anteriores, como na Rússia e no Catar, a Fifa falhou em garantir um ambiente livre de abusos para jogadores, torcedores, jornalistas e trabalhadores. Houve, inclusive, aquela questão envolvendo a braçadeira — completou Worden.
Organizações atacam política migratória de Trump
Worden e Florence foram igualmente críticas ao serem questionadas sobre os problemas enfrentados por diversas delegações, torcedores e jornalistas com a imigração americana. Casos como a barração do melhor árbitro da África em 2025, bem como de membros de delegações, jogadores interrogados por horas e até a forçada mudança de sede de treinamento da seleção do Irã, que não pode passar a noite no país. Para Florence, o presidente americano, Donald Trump, aplica uma política discriminatória.
— Os EUA de Trump estão implementando uma política migratória de discriminação, anti-direitos e autoritária. Com a Copa, essas violações claras de direitos humanos vieram à tona e definitivamente comprometeram a isonomia esportiva. Exatamente por isso que nós, da Sport & Rights Alliance, atuamos para que a Fifa se posicione contra essas práticas discriminatórias nos EUA e garanta que esse Mundial seja mesmo para todo mundo.

Worden ressaltou que não é aceitável ter membros da Guarda Revolucionária Iraniana (nome popular do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, ou IRGC na sigla em inglês) infiltrados na delegação esportiva.
- A seleção do Irã, às vezes, conta com membros da Guarda Revolucionária. Eles têm integrantes acompanhando as mulheres para garantir que elas estejam totalmente cobertas o tempo todo, certo? Isso não é aceitável. Portanto, não é aceitável ter agentes políticos que ameaçam mulheres viajando com a equipe. Mas também não é justo que a equipe seja impedida de entrar nos Estados Unidos e não consiga dormir nem descansar adequadamente; sabe, não é uma situação de igualdade de condições. Portanto, trata-se de uma situação desigual, e os EUA estão violando as regras da Copa do Mundo ao exigir que essa equipe viva e treine fora do país.

A diretora da HRW, contudo, usou o exemplo de uma ativista iraniana que é acompanhada pela organização para explicar que as restrições não se limitam a essas pessoas.
- A HRW trabalha há muitos anos com ativistas pelos direitos das mulheres no Irã que utilizam a Copa do Mundo como plataforma para sua luta por esses direitos. Uma das principais líderes do movimento chamado "Open Stadiums" esteve nas Copas do Mundo da Rússia e do Catar e teve seu visto negado. Trata-se de alguém que já obteve visto para os Estados Unidos anteriormente e chegou a visitar o país. Temos vários casos emblemáticos como esse: pessoas que deveriam ter permissão para vir aos EUA, mas estão sendo barradas. Estamos tentando demonstrar que se trata de uma política discriminatória.
Egito e Irã: onde assistir ao confronto
Egito e Irã entram em campo à meia-noite de sexta-feira (26), em Seattle, pela terceira e última rodada do Grupo G da Copa do Mundo de 2026. O confronto terá transmissão ao vivo pela CazéTV.
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