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Gestão Esportiva na Prática: a glória não precisa ter dono

Scaloni mostrou que liderar não é disputar a luz, mas criar condições para que ela alcance todos

PorFelipe Ximenes
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
15/07/2026 07:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Lionel Scaloni orienta jogadores da Argentina contra o Egito na Copa do Mundo
Lionel Scaloni orienta jogadores da Argentina contra o Egito na Copa do Mundo (Foto: Odd Andersen/AFP)

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Chegamos à penúltima coluna desta série sobre liderança sob pressão e há um personagem do qual não poderia deixar de falar. Lionel Scaloni é um líder improvável não por ser argentino, embora a humildade não seja exatamente a primeira característica que nós, brasileiros, costumamos atribuir aos nossos hermanos. Sua improbabilidade está na trajetória. Ele chegou ao comando da seleção sem a autoridade normalmente associada a um dos cargos mais exigentes do futebol mundial.

Chegou como interino, foi recebido com desconfiança e permaneceu porque soube construir. Foi personagem central na reconstrução de uma seleção ferida, aproximou gerações e criou ao redor de Lionel Messi um ambiente capaz de potencializá-lo sem diminuir os demais. Tudo o que eu pudesse escrever sobre ele, porém, já foi escrito, e muito melhor, por Thales Machado, chefe da editoria de Esportes da redação integrada dos jornais O Globo e Extra.

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A glória compartilhada

Em sua coluna "Scaloni, o campeão que não tomou posse da glória na Argentina", Thales encontrou uma definição que contém uma aula inteira sobre liderança. Descreveu um vencedor que recebe a glória quase como um susto, nunca como propriedade. Um treinador que ganhou o mundo sem se comportar como dono dele e comandou Messi sem disputar com ele o significado das conquistas.

Não me atreveria a competir com um texto tão bem escrito. Permito-me conversar com ele porque, para mim, Thales não é apenas o brilhante jornalista de O Globo. É o filho da Mara e do Hermano, botafoguense de quatro costados e, como eu, tricordiano. Thales, Pelé e eu nascemos em Três Corações/MG.

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As raízes que nos unem

Algumas cidades continuam morando dentro de nós muito depois de partirmos. Três Corações não explica o talento de Thales nem o de Pelé, mas ajuda a compreender a intimidade com que leio seu texto. Há ainda outra ligação: Hermano, pai de Thales, influenciou minha relação com o futebol na década de 1970, quando comecei a descobrir que as palavras também poderiam ser uma maneira de participar do jogo.

Naquela época, ainda menino, ganhei um concurso municipal de redação e alcancei o terceiro lugar na etapa estadual. O tema, escolhido em plena ditadura militar, era "Vamos construir juntos". Não me lembro exatamente do que escrevi. Os textos da infância costumam ser mais importantes pelo que despertam em nós do que pelo que dizem. A frase, porém, permaneceu guardada e reapareceu quase cinquenta anos depois, enquanto eu observava Lionel Scaloni conduzir a Argentina.

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Liderar com, não para

"Vamos construir juntos" é uma boa síntese do seu trabalho.

Scaloni não construiu uma seleção para Messi. Construiu uma seleção com Messi. A mudança da preposição altera profundamente o significado da liderança. Fazer todos jogarem para um único jogador poderia produzir dependência e ressentimento. Organizar um coletivo ao redor de seu maior talento, sem apagar a personalidade dos demais, exige uma compreensão sofisticada das relações humanas.

Messi continuou sendo a maior estrela daquela constelação, mas deixou de precisar ser a constelação inteira. Martínez, De Paul, Romero, Mac Allister, Enzo Fernández e tantos outros passaram a dividir responsabilidades esportivas e emocionais. Scaloni reconheceu uma hierarquia técnica sem transformá-la em uma hierarquia humana. Seu maior gesto de autoridade talvez tenha sido não disputar autoridade com o maior jogador de sua época.

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Scaloni conversa com Messi durante jogo entre Argentina e Cabo Verde na Copa do Mundo
Scaloni conversa com Messi durante jogo entre Argentina e Cabo Verde na Copa do Mundo (Foto: Patricia De Melo Moreira/AFP)

O húmus da liderança

A humildade de Scaloni não deve ser confundida com apagamento ou falta de ambição. Gosto de pensá-la a partir do húmus, da terra fértil, do adubo que alimenta silenciosamente aquilo que cresce acima dele. O húmus não disputa protagonismo com a árvore, não reivindica os frutos e não aparece nas fotografias da colheita. Ainda assim, sem ele, talvez nada florescesse.

Scaloni oferece direção sem sufocar, reconhece talentos sem se sentir ameaçado e mantém autoridade sem transformar o comando em espetáculo. Não confunde ser responsável pela condução com ser proprietário do resultado.

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No futebol contemporâneo, isso é raro. Muitos treinadores transformaram entrevistas em conferências, sistemas em marcas pessoais e escolhas táticas em demonstrações de superioridade intelectual. Alguns já não desejam apenas ganhar. Precisam provar que enxergam aquilo que ninguém mais conseguiu perceber. Scaloni não me parece interessado nessa disputa. Sua equipe tem princípios, organização e personalidade, mas não joga para comprovar uma teoria sobre o treinador. Ele aceita mudar, corrigir, sofrer e até não compreender imediatamente tudo o que aconteceu.

O peso da história e o teste do tempo

Hoje, quarenta anos depois da "mão de Deus", Argentina e Inglaterra voltam a se encontrar em uma Copa do Mundo, agora por uma vaga na final. O jogo carrega uma memória pesada demais para as quatro linhas. Em 1986, Maradona marcou com a mão e, poucos minutos depois, fez um dos gols mais extraordinários da história. A rivalidade reuniu futebol, identidade nacional, guerra e ressentimento. Quatro décadas depois, retorna cercada por outra despedida possível: cada partida de Messi pode ser a última em uma Copa. O treinador argentino já deixou claro para os jornalistas argentinos que será "apenas" uma partida de futebol.

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Talvez o grande teste de Scaloni hoje seja impedir que toda essa memória jogue antes da bola. Ele não precisa retirar da Argentina o drama, algo provavelmente impossível, mas ajudá-la a atravessá-lo sem tratá-lo como destino. Essa é uma de suas maiores virtudes: não curou a seleção do sofrimento; ensinou-a a não confundir sofrimento com sentença.

É, Thales, a Argentina segue em direção à sua quarta estrela, apesar de toda a minha torcida contra. Não vou mentir. Segue sofrendo, cantando, jogando e tentando fazer com que o último jogo de Lionel Messi nunca chegue. Hoje, diante da Inglaterra, a história voltará a rondar o campo. Scaloni, provavelmente, continuará sem tentar ser maior do que ela.

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A verdadeira essência do liderar

Se esta série se propôs a falar de liderança, Lionel Scaloni não poderia ficar de fora. Não apenas pelos títulos ou pelas decisões táticas, mas porque me lembra que liderar não é tomar posse da glória. É preparar a terra, reconhecer o tamanho dos outros e compreender que aquilo que construímos juntos nunca pertence inteiramente a uma única pessoa.

Quase cinquenta anos depois daquele concurso de redação, talvez eu finalmente compreenda melhor a dimensão do tema que me deram.

Vamos construir juntos, Brasil.

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