Gestão Esportiva na Prática: o triângulo que engole treinadores
No futebol brasileiro, não faltam bons treinadores. Falta sistema que não os destrua

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Se você ganha muito e aparece muito, reduza seu poder.
Se você aparece muito e tem muito poder, reduza sua recompensa.
Se você tem muito poder e é muito bem remunerado, reduza sua exposição.
Acumular poder, dinheiro e visibilidade não é força. É SENTENÇA. Na gestão, quem concentra tudo perde o mais importante: o equilíbrio. O futebol brasileiro, há algumas décadas, decidiu seguir o caminho oposto. A chegada das redes sociais escalou esse modelo exponencialmente
No início dos anos 90, com a ascensão de programas como o Super Técnico, de Milton Neves, começamos a assistir a uma mudança silenciosa, mas profunda. O treinador deixou de ser apenas o responsável pelo time e passou a ser também personagem central da narrativa.
A análise deu lugar ao espetáculo. O processo cedeu espaço à opinião. E o treinador virou protagonista interno e externo do ecossistema. De lá para cá, esse movimento só se intensificou.
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Modelo insustentável
Hoje, o treinador aparece em excesso. Está em todas as plataformas, em todas as discussões, em todos os julgamentos. Sua imagem é consumida em tempo real, reconstruída a cada jogo.
Ao mesmo tempo, espera-se que ele mande muito. Não apenas no campo, mas no ambiente, no elenco, nas decisões estratégicas que muitas vezes extrapolam sua função original.
E, naturalmente, ele ganha muito. O mercado inflacionou, pressionado por urgência, expectativa e falta de critério estrutural.
Está formado o triângulo.

Alta exposição, alto poder e alta remuneração.
Um modelo que, em qualquer ambiente de gestão, se mostra insustentável.
Mas no futebol brasileiro, ele não só é aceito como incentivado. E há um agravante pouco discutido. Os clubes abriram mão de um dos ativos mais sensíveis que uma instituição pode ter: a sua voz.
E, ao fazer isso, transferiram ao treinador não apenas a responsabilidade técnica, mas também a narrativa, o posicionamento e, muitas vezes, a defesa institucional.
O treinador virou porta-voz, escudo e, em alguns casos, para-raio. E quando o sistema cobra a conta, seguimos tratando como falha individual.
Demitimos, substituímos, recomeçamos. Sem alterar a lógica. Sem mudar o padrão.
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Padrão conveniente
Talvez o sinal mais claro dessa distorção esteja em algo que parece pequeno, quase irrelevante. Falamos da seleção brasileira do treinador Carlo Ancelotti, e não do treinador da seleção brasileira. Pode parecer apenas um jogo de palavras, mas não é.
É a institucionalização de um modelo onde o indivíduo se sobrepõe à estrutura. Onde o cargo passa a depender mais da figura do que do sistema que o sustenta.
A consequência é ruim e compromete o futuro dos clubes.
Porque, quando o treinador concentra tudo, ele também absorve tudo. Pressão, expectativa, desgaste e, inevitavelmente, a responsabilidade pelo fracasso de um modelo que não foi ele quem criou. O resultado é conhecido. Ciclos curtos, desgaste acelerado e uma sensação constante de recomeço.
Não por falta de capacidade. Mas por excesso de concentração. A pergunta não é por que os treinadores não duram. A pergunta é por que insistimos em colocá-los em um lugar onde ninguém deveria estar.
E talvez exista uma pergunta ainda mais incômoda: Se o modelo é tão claramente disfuncional, por que ele continua?
Porque, em ambientes como o futebol, quando a responsabilidade está concentrada em uma única figura, ela também fica mais fácil de ser substituída.
E isso, para alguns, é conveniente. Até quando?
Gestão Esportiva na Prática: veja mais publicações
Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:
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