Gestão Esportiva na Prática: o futebol brasileiro desaprendeu a esperar
Vivemos correndo atrás do próximo jogo, da próxima crise e da próxima solução mágica

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Desaprendemos a esperar. Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre o Brasil que dominou o futebol mundial durante décadas e o Brasil que, há 24 anos, tenta reencontrar uma Copa do Mundo sem conseguir sustentar um caminho minimamente estável até ela.
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Vivemos como se não houvesse amanhã. O problema é que há. E ele chega rápido.
Num piscar de olhos, estamos novamente a um mês de mais uma Copa do Mundo. E a pergunta inevitável aparece outra vez: o que fizemos durante esse ciclo? O que construímos? Amadurecemos? Em que realmente avançamos?
A sensação é de eterno recomeço.
Nada muda
Trocam-se treinadores, dirigentes, modelos de jogo, narrativas e culpados. Mas o ambiente permanece o mesmo. Ansioso, imediatista, emocionalmente acelerado e incapaz de sustentar processos longos sem transformá-los em crise.
Discutimos Neymar na Copa exatamente como discutimos Romário em 98, Neto em 90, Alex em 2002 e tantos outros talentos que geraram debates nacionais muito mais emocionais do que estruturais. Mudam os personagens. O roteiro permanece assustadoramente parecido.
Vivemos um eterno déjà vu.
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A cada eliminação, surge uma nova solução definitiva. O problema é que o futebol de alto rendimento não funciona na velocidade das redes sociais, dos programas esportivos ou da pressão cotidiana que criamos ao redor dele. Nenhuma seleção dominante do mundo foi construída apenas no calor da urgência.
A Espanha esperou. A Alemanha esperou. A Argentina esperou.
E talvez esse seja justamente o ponto que mais incomoda no futebol brasileiro atual: perdemos a capacidade de atravessar o desconforto da construção. E pensando melhor e olhando para trás, será que um dia tivemos essa capacidade?
O futebol mundial evoluiu
Talvez nossa história de talentos geracionais e conquistas extraordinárias também tenha criado uma ilusão perigosa: a de que venceríamos para sempre apenas pelo dom natural, pela camisa ou pela genialidade individual. O futebol mundial evoluiu. Estruturou processos, investiu em formação, ciência, governança e continuidade. Enquanto isso, seguimos muitas vezes tentando resolver problemas complexos apenas na emoção e na troca constante de personagens.
Queremos jogadores prontos aos 18 anos, treinadores campeões em três meses, dirigentes transformadores em uma temporada e seleções perfeitas a cada convocação.
Mas nada amadurece na pressa. Nem o futebol.
Talvez os resultados recentes da Seleção Brasileira sejam menos a causa dos nossos problemas e mais a consequência de um ambiente que não sabe esperar, refletir, corrigir e sustentar ideias. Continuamos produzindo talento como poucos países no planeta.
Mas a dúvida que me surge é outra. Será que saberemos construir tempo?

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