Gestão Esportiva na Prática: mudar para permanecer
O futuro do futebol brasileiro não depende de escolher entre tradição e transformação, mas de compreender que uma não sobrevive sem a outra

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Há alguns dias escrevi uma reflexão que insiste em me acompanhar:
"Na dura batalha de mudar todos os dias para continuar sendo a mesma pessoa, não se surpreenda com as críticas de quem você já não reconhece mais. Alguns mudam para permanecer fiéis a si mesmos. Outros mudam justamente porque ficaram parados."
Quanto mais reflito sobre ela, mais percebo que talvez também explique um dos maiores desafios do futebol brasileiro neste momento. Vivemos uma disputa inócua.
De um lado, aqueles que defendem a tradição dos clubes. Do outro, os que defendem a modernização da gestão. Como se preservar a história e promover mudanças fossem objetivos incompatíveis.
Não são. Aliás, a história mostra exatamente o contrário.
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Evolução com identidade
Os clubes que atravessaram décadas, sobreviveram a crises econômicas, transformações sociais, revoluções tecnológicas e mudanças profundas no comportamento dos torcedores não permaneceram vivos porque resistiram ao novo. Permaneceram vivos porque souberam evoluir sem abrir mão da própria identidade.
A história de um clube não está nos seus processos ultrapassados. A história está nos seus valores. Está na sua relação com a comunidade, na memória construída por gerações, nos símbolos que atravessam o tempo e no sentimento de pertencimento que transforma uma instituição esportiva em patrimônio cultural.
Processos podem mudar. Modelos de gestão e governança também devem mudar. Estruturas precisam mudar.
Os valores, não.
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Disputa sem vencedores
Por isso me preocupa quando vejo dirigentes abnegados e profissionais da gestão esportiva sendo colocados em lados opostos de uma mesma mesa. Essa disputa não produz vencedores.
Os dirigentes carregam a memória institucional, a cultura e o sentimento que mantiveram os clubes vivos durante décadas.
Os executivos trazem método, governança, conhecimento técnico e capacidade de execução compatíveis com a complexidade do futebol contemporâneo.
Quando um lado tenta eliminar o outro, o clube perde. O futebol moderno exige integração, não substituição.
Mudanças importantes
Depois de muitos anos, o futebol brasileiro começa a discutir temas fundamentais para sua sobrevivência. Governança, integridade, licenciamento, profissionalização, formação de gestores e, mais recentemente, Fair Play Financeiro passaram a ocupar um espaço que durante muito tempo foi ignorado.
A própria CBF vem conduzindo mudanças estruturais importantes. Naturalmente, algumas serão aperfeiçoadas ao longo do caminho. Toda transformação carrega imperfeições.
Mas existe algo mais perigoso do que errar tentando evoluir: recusar-se a evoluir. Os desafios do futebol de 2026 não serão resolvidos com as soluções de 1996. Da mesma forma que os valores que sustentaram nossos clubes em 1996 continuam indispensáveis em 2026.
Talvez o verdadeiro desafio esteja justamente aí. Encontrar a coragem para mudar tudo aquilo que precisa ser mudado. E a sabedoria para preservar tudo aquilo que jamais deveria mudar. Porque alguns mudam para permanecer fiéis à própria essência. Outros acabam mudando justamente porque ficaram parados.
Os clubes não se tornam imortais porque resistem ao tempo. Tornam-se imortais porque aprendem a caminhar com ele.
Gestão Esportiva na Prática: veja mais publicações
Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:
➡️ O futebol brasileiro desaprendeu a esperar
➡️ Entre o que pode ser e o que tende a ser
➡️ O triângulo que engole treinadores no futebol brasileiro
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