Além do campo: Argentina tem 'ferida aberta' por Malvinas, e duelo com a Inglaterra escala rivalidade

Equipes duelam na semifinal da Copa do Mundo de 2026

PorJoão BrandãoRio de Janeiro (RJ)
15/07/2026 07:00
Faixa com imagem das Ilhas Malvinas é exibida em banderazo de torcedores da Argentina
Faixa com imagem das Ilhas Malvinas é exibida em banderazo de torcedores da Argentina (Foto: Roberto Schmidt/AFP)

Embora a rivalidade entre Argentina e Inglaterra tenham começado no início do século XX, a Guerra das Malvinas escalonou a questão para além dos limites do campo de futebol. Os sul-americanos ainda possuem uma ferida aberta por conta do conflito em 1982, que culminou com a morte de centenas de soldados e jovens.

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As Ilhas Malvinas são reivindicadas pela Argentina desde que o Vice-Reino do Rio da Prata se tornou independente da Espanha, em 1810. Na década de 1820, os sul-americanos enviaram autoridades para tomar posse da região, mas foram expulsos pelos ingleses em 1833. O Reino Unido reclama a posse da região desde 1765.

No período do Governo Militar, a Argentina lançou a "Operação Rosário" para recuperar a posse das Ilhas Malvinas com as forças militares. No entanto, os latinos não conseguiram suportar a guerra com a Inglaterra, e possuem uma ferida aberta até os dias atuais.

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➡️ Técnico da Argentina cogita mudanças e ameniza rivalidade com a Inglaterra: 'Só um jogo'

Mas antes mesmo do estopim da Guerra das Malvinas, Argentina e Inglaterra rivalizavam dentro do futebol. Inicialmente, os sul-americanos buscaram criar um estilo de jogo próprio em oposição ao dos britânicos, que foram os responsáveis por popularizar o esporte mundialmente. Professor da UFRJ e Pesquisador do Observatório Social do Futebol da Uerj, Nico Cabreras conta outro detalhe dessa relação.

— Você tem no próprio nascimento do futebol moderno no início do século XX, uma rivalidade de estilos entre Argentina e Inglaterra, que, na época também, era com o Uruguai. Na Copa de 1966, a rivalidade ganha outro nível, porque no Mundial de 1966 tem um jogo entre Argentina e Inglaterra em que o capitão argentino, Rattin, é expulso e muitos argentinos consideraram a arbitragem tendenciosa e passaram a falar em roubo. Na década de 1980, quando chega primeiro a guerra e depois a Copa, já existia uma rivalidade forte com a Inglaterra. Depois de 1982 e 1986, a rivalidade vai para outro patamar, que é um pouco do que existe hoje.

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Nos estádios da Argentina, é perceptível a quantidade vasta de faixas e bandeiras em alusão às Ilhas Malvinas, atualmente controlada pela Inglaterra. Cabreras explica sobre como a guerra afetou o povo e transformou a pauta em um símbolo de luta nacional.

— A ferida das Ilhas Malvinas é a única causa verdadeiramente nacional que mantém todos os argentinos unidos, sejam de direita, esquerda, ricos ou pobres. Todos abraçam a causa Malvinas. No futebol, principalmente — começou.

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— Em 1982, a guerra foi muito traumática, muitos jovens morreram. Significou o fim de uma ditatura assassina, que desapareceu e torturou com milhares de argentinos. E depois vem o jogo. A imprensa antes do jogo alimentava muito a rivalidade, falando que era o momento de vingança, de revanche, que os jogadores tinham que jogar em nomes dos soldados, (em nome) da ilha. Na prévia, o jogo estava com uma carga emocional muito alta. E aconteceu o que todos sabem. O gol de mão de Maradona, com essa ideia de que "ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de prisão". Burlar a lei contra os maiores colonialistas e saqueadores do mundo. E depois o gol inesquecível de Maradona driblando metade do time da Inglaterra. É importante falar que não foi uma partida qualquer e que obviamente, embora ter vencido o jogo de futebol não compensou ou vingou os mortos de uma guerra, o que aconteceu foi uma espécie de reparação simbólica. Com um Maradona numa fase quase mitológica.

Embora o discurso do técnico Lionel Scaloni seja de que o duelo entre Argentina e Inglaterra seja apenas mais um jogo, o argentino não vê dessa forma por conta dos conflitos das Malvinas. O professor explica a importância da memória do conflito para além das questões do futebol, mas também de unificação nacional.

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— Se você pensar cronologicamente, não são tantos anos de 1982 até 2026. Tem muita gente ainda viva que viveu Malvinas. Tem muita gente viva que tem familiares que morreram em Malvinas ou que foram soldados. É uma ferida que ainda está aberta. A Argentina não tem muitos símbolos 100% nacionais, que unificam o povo como um todo. A Argentina também é um país polarizado, assim como o Brasil, com muitas brechas, desigualdades e diferenças. Malvinas é a única causa que todo o povo argentino abraça. Todos os governos que passaram, reclamaram da soberania das Ilhas Malvinas. E como está muito ligado ao futebol, está muito ligado a memória afetiva da Argentina, muito ligado a Maradona. E Maradona é um cara que nunca morreu na Argentina, continua vivo o tempo todo. E a gente precisa disso. A gente precisa de Malvinas como símbolo de unificação nacional e luta por soberania.

Detalhe em ônibus de torcedores da Argentina reivindica as Ilhas Malvinas
Detalhe em ônibus de torcedores da Argentina reivindica as Ilhas Malvinas (Foto: Carl Recine/AFP)

O peso de Maradona e a expectativa por Messi

No confronto entre Argentina e Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, Diego Maradona só faltou fazer chover e garantiu a vitória da Albiceleste quatro anos após o fim da Guerra das Malvinas. Em 2026, Messi tem a possibilidade de cair ainda mais nas graças dos hermanos em seu primeiro jogo contra a equipe britânica em sua carreira.

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Nico Cabreras acredita que Lionel Messi já ultrapassou Diego Maradona dentro das quatro linhas, mas não espera um discurso e uma posição tão marcante quanto ao do campeão do mundo em 1986. Ainda assim, o argentino põe os dois maiores ídolos nacionais no mesmo patamar e espera ver o atual camisa 10 da Argentina balançando as redes contra a Inglaterra.

— Na Argentina existe um debate secundário sobre quem foi melhor futebolisticamente falando entre Maradona e Messi. A maioria hoje reconhece que o Messi é maior, mas ninguém duvida que o Maradona é maior do que o Messi fora do campo. Maradona ainda é um símbolo muito forte de uma Argentina que muita gente pensa com nostalgia, com saudades, daquele pobre que vem da periferia, com consciência social, que sempre foi rebelde, muito inteligente na hora de declarar, comunicar, que entendia o jogo das palavras. E Messi é um cara que não fala. É muito difícil você comparar um gênio da palavra, como Maradona, com um cara que não fala, que não se posiciona, que fica sempre em cima do muro. O tamanho de Messi dentro do campo é só comparável com o tamanho do Maradona fora do campo. E muito argentino entende isso.

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E completou: — Não vou esperar do Messi uma declaração, uma grande manchete contra a Inglaterra: 'Vamos jogar para honrar nossos mortos'. Não seria o Messi. O Maradona sem duvidas falaria isso antes e depois do jogo. Mas todos esperam do Messi fazer um, dois, três gols. E Messi já não tem que demonstrar nada pro argentino.

Argentina x Inglaterra: onde assistir

Nesta quarta-feira (15), Argentina e Inglaterra se enfrentam pela semifinal da Copa do Mundo, às 16h (de Brasília), em um jogo cercado por rivalidade e simbolismo, principalmente por conta da Guerra das Malvinas. Em um novo episódio, as duas nações lutarão por uma vaga na decisão do Mundial, que será disputada no domingo (19).

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