Gestão Esportiva na Prática: estamos formando para quem?
Enquanto o Brasil continua exportando jovens, clubes estão com cada vez mais estrangeiros

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O futebol brasileiro se organiza fora de campo, mas pode estar reduzindo, dentro dele, o espaço do seu maior ativo
O futebol brasileiro vive um momento curioso.
Enquanto finalmente avançamos em pautas estruturais como a criação de uma liga única, a profissionalização da arbitragem, a melhoria dos gramados e a construção de um bloco comercial mais forte, uma outra transformação acontece em silêncio.
E talvez seja ainda mais profunda.
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Excesso de estrangeiros
Hoje, não é raro encontrar clubes das Séries A e B com 10, 12 ou até 14 jogadores estrangeiros em seus elencos.
Se considerarmos uma média de 30 atletas por plantel, estamos falando de algo entre 30% e quase 50% de ocupação estrangeira em alguns casos. Isso já não é exceção. É tendência.
E toda tendência carrega uma escolha, mesmo quando não parece. Não se trata de rejeitar o mercado internacional. O futebol é global e sempre será. Mas a pergunta que precisa ser feita é outra.
Estamos complementando o nosso modelo ou substituindo a nossa essência?
Porque, ao mesmo tempo em que ampliamos o espaço para atletas de fora, seguimos exportando nossos jogadores cada vez mais jovens. Dados da FIFA mostram que o Brasil segue na liderança dos países que mais transferem jogadores no mundo, muitos deles antes de atingir maturidade esportiva.
Ou seja, o ciclo segue se invertendo. Formamos aqui, desenvolvemos parcialmente… e liberamos cedo. Depois, reocupamos o espaço com atletas formados fora.
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Mudança de identidade
Isso não é apenas uma dinâmica de mercado. É uma mudança de identidade. E mais do que isso, uma mudança de lógica econômica. Porque o futebol brasileiro sempre se sustentou em um modelo claro: formar, valorizar e vender. Se reduzimos o tempo de exposição do jogador da base no time principal, reduzimos também sua valorização.
E, consequentemente, diminuímos o retorno financeiro que sustenta o sistema. É aqui que o debate precisa amadurecer.
A profissionalização da arbitragem é necessária.
A melhoria dos gramados é inegociável.
A organização comercial é urgente.
Mas nenhuma dessas medidas resolve um ponto central:
Quem é o protagonista do nosso futebol?
Se a base deixa de ser prioridade, o problema não é o estrangeiro. É o modelo.
Porque clubes que utilizam o mercado internacional com critério, estratégia e complementaridade tendem a crescer. Mas clubes que recorrem a ele como atalho, muitas vezes apenas trocam custo por risco. O Brasil não pode se transformar em um mercado consumidor de talentos.
Nunca foi essa a nossa vocação. A verdadeira modernização não está apenas em organizar o futebol. Está em entender o que não pode ser perdido no processo. E isso exige mais do que diagnóstico. Exige decisão.
Alguns caminhos são possíveis.
Novas estratégias
O primeiro é discutir, de forma madura, uma redução do limite progressivo de estrangeiros relacionados por partida, não como barreira ao mercado, mas como mecanismo de equilíbrio e proteção do ativo nacional.
O segundo é a criação de incentivos objetivos para utilização de atletas formados na base, seja por meio de critérios financeiros, regulatórios ou de distribuição de receitas ligadas à futura liga. Quem utiliza e desenvolve, ganha mais.
O terceiro é talvez o mais importante: medir o que hoje não estamos medindo com profundidade.
Quantos minutos são dados aos jogadores formados no clube?
Qual o impacto disso no valor de venda?
Qual a relação entre estrangeiros contratados e retorno esportivo?
Sem esse tipo de controle, o sistema opera no escuro. E gestão no escuro, no futebol, quase sempre cobra a conta depois. Se não houver equilíbrio, corremos o risco de construir um futebol mais eficiente, porém menos valioso. Mais organizado… e menos relevante.
E esse é um tipo de erro que não aparece na tabela.
Mas aparecerá, inevitavelmente, no futuro.
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Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:
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