Lúcio de Castro – Zico: quando o cinema virou missa
Documentário 'Zico, O Samurai de Quintino' está em cartaz nos cinemas

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"Meu pai contou para mim,
Eu vou contar para o meu filho.
E quando ele morrer?
Ele conta para o filho dele.
É assim: ninguém esquece."
Foi assim. Simples assim. Com uma beleza comoventemente simples, que Kalé Maxakali explicou como os Maxakali sobreviveram. Dizimados pela cobiça dos colonizadores desde o século XVIII, quase foram exterminados.
Sobraram uns poucos ali pelos grotões das Minas Gerais.
Encontraram na tradição oral e na decisão de sobreviver a própria perpetuação.
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União de gerações
Um sentimento parecido de transmissão tem gerado algumas das mais bonitas cenas nos últimos tempos: ir ao cinema ver "Zico, o Samurai de Quintino" é cena explícita de transmissão oral.
Com beleza contundente, as filas estão cheias de pais, mães, filhos e filhas.
Não sei se o diretor João Wainer e o produtor Pedro Curi e tantos outros pensaram exatamente nisso ao conceber o filme. Se não pensaram, acertaram sem querer o gol mais bonito do ato de fé em que cada sessão se transformou. E o filme gigante que fizeram corresponde em cada frame a essa beleza que atravessa a tela.
Tem sido assim.

A beleza incomparável que é o ato do filho e filha que sobem a rampa do Maracanã pelas mãos dos pais pela primeira vez vem se repetindo nos cinemas.
O que tornou um filme em momento comovente muito além dos 90 minutos da projeção.
A chegada das famílias, dos amigos que se juntam como se fossem na missa de domingo...
São cenas inacreditáveis se repetindo todo dia, a cada sessão.
Um filme juntando amigos que não se viam há décadas, vinte, trinta anos.
Combinando de se reencontrar na porta do cinema para testemunharem juntos.
A beleza do pai que pretende que o filho veja muito mais do que um filme. No fundo, ele quer mostrar aos seus ele mesmo quando jovem. O espelho.
Parece samba de João Nogueira. E é.
É mais do que isso. Muito mais.
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Um símbolo maior
No país com imensa dificuldade de construir o imaginário de mitos, no fim da sala escura existe um Zico. Exceção das exceções. Único.
O mito que vai chegando intocável e cada vez mais forte na terceira geração de uma torcida, de famílias. Como pode um menino que nem o próprio pai viu Zico jogar ter ele como símbolo maior?
É tanta coisa nesse turbilhão de sentimentos em 90 minutos...
No país com uma história de rupturas institucionais, ausência de grandes projetos nacionais de longo prazo que consagrem figuras unificadoras, do povo tantas vezes alijado e tendo que construir a fórceps seus pertencimentos, Zico transcende qualquer ideia de humano. No entanto, como diria o filósofo, está ali...Humano, demasiadamente humano.
Acima de qualquer coisa, demasiadamente humano.
Em suas dores, derrotas e glórias. Como eu, você e todo mundo.
Mas não sou eu, nem você, nem todo mundo.
É o espírito e alma de alguém que sobreviveu e sobreviverá ao tempo.
O "Espírito de Zico".
O rei de sua gente, como as arquibancadas sempre cultuaram.
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