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Lúcio de Castro: Infantino precisa estudar mais história

Provavelmente não avisaram para Gianni Infantino como seria negociar com os chineses os direitos de transmissão da Copa

Gianni Infantino, presidente da FIFA, discursa na Conferência Global do Milken Institute em Beverly Hills, Califórnia. (Foto: Patrick T. Fallon/AFP)
imagem cameraGianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Patrick T. Fallon/AFP)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 15/05/2026
07:00

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Tanzânia e Zâmbia nem eram Tanzânia e Zâmbia ainda. Foi lá pelos anos 40. Os dois países africanos rodavam o mundo com um projeto debaixo do braço. Parecia um absurdo. Conectar a África Central com a costa leste do continente por trilhos de ferro. Tinha tudo no meio. A paisagem mais inóspita possível, rios, quedas d'água. Quantas pontes seriam necessárias? Quantos homens trabalhando? Quantos bilhões gastos? Quanto tempo?

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O pior: quanto tempo depois disso tudo viria o retorno?

Por alguns anos a China só contemplou. E, em silêncio, com toda calma do mundo, analisou.

Então a China pegou.

Corria o ano de 1967 quando Mao Tsé-Tung juntou os líderes da Tanzânia e de Gâmbia em Pequim e assinaram o acordo para a construção da ferrovia Tazara.

O Banco Mundial, que tinha negado, não entendeu nada.

O Ocidente, que tinha negado, riu.

Provavelmente os chineses riram também.

Foram anos abrindo caminho e botando trilho.

Até que em 1976, quase uma década depois de trabalho só botando dinheiro, 320 pontes e 22 túneis depois, um trem cortou o coração da África.

Uma obra de engenharia monumental. Um colosso.

O Ocidente não se fez de rogado. E seguiu achando graça.

A seguiu com sua certeza: o trenzinho chinês nunca iria se pagar.

De novo, e mais uma vez, a China deve ter achado graça.

O que o risonho Ocidente não viu é o quanto tudo aquilo tinha representado.

O quanto valeu a imensa paciência de quem aposta no longo prazo, no tempo como continuidade, e, quando em negociação, como ferramenta de desgaste.

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Foi assim, sereno, que, em 1972, Zhou Enlai respondeu para a imprensa ocidental que ainda era cedo demais para avaliar os acontecimentos históricos de maio de 1968.

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A lenda transformou a frase sobre maio de 68 em resposta sobre a Revolução Francesa. Que ainda seria cedo para entender os desdobramentos do 14 de julho de 1789.

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A lenda é ótima, mas não foi sobre 1789, e sim apenas sobre quatro anos antes.

Provavelmente não avisaram para Gianni Infantino como seria negociar com os chineses os direitos de transmissão da próxima Copa do Mundo.

Botando a faca no pescoço chinês, começou exigindo US$ 300 milhões.

Dessa vez a risada foi chinesa. Sequer responderam.

Infantino está desesperado

Tendo do outro lado um mercado de mais de um bilhão de pessoas, o mandatário da Fifa foi atrás. Já tinha baixado pela metade. Agora quer US$ 120 milhões. Menos da metade, como quem já implora. Dá para imaginar a ira dos patrocinadores bombardeando Infantino por causa da perda de um bilhão em visibilidade.

A China segue rindo. Entre um riso e outro, o executivo da CCTV mandou um recado.

A Copa da Fifa não tá valendo isso tudo. Jogos de madrugada na China, muito Marrocos x Haiti, 48 seleções…E que se ficarem sem, não muda nada. E tem razão. Só muda para a Fifa.

E deu o lance: vamos a US$ 60 milhões. Quem sabe até US$ 80…

Falta um mês para a Copa.

Impassível diante do desespero do mascate da Fifa, a China segue em sua crença à mesa de negociação de que o fluxo da água acaba por perfurar a pedra. E já tem o pior diagnóstico possível quando se tem o imenso país pela frente: o outro lado é vulnerável.

Infantino está desesperado. Podia ter estudado um pouco mais de história. Os chineses seguem sem a menor pressa.

Gianni Infantino, presidente da Fifa
Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante evento da Copa do Mundo de 2026 (Divulgação/Fifa)
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