Lúcio de Castro: Infantino precisa estudar mais história
Provavelmente não avisaram para Gianni Infantino como seria negociar com os chineses os direitos de transmissão da Copa

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Tanzânia e Zâmbia nem eram Tanzânia e Zâmbia ainda. Foi lá pelos anos 40. Os dois países africanos rodavam o mundo com um projeto debaixo do braço. Parecia um absurdo. Conectar a África Central com a costa leste do continente por trilhos de ferro. Tinha tudo no meio. A paisagem mais inóspita possível, rios, quedas d'água. Quantas pontes seriam necessárias? Quantos homens trabalhando? Quantos bilhões gastos? Quanto tempo?
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O pior: quanto tempo depois disso tudo viria o retorno?
Por alguns anos a China só contemplou. E, em silêncio, com toda calma do mundo, analisou.
Então a China pegou.
Corria o ano de 1967 quando Mao Tsé-Tung juntou os líderes da Tanzânia e de Gâmbia em Pequim e assinaram o acordo para a construção da ferrovia Tazara.
O Banco Mundial, que tinha negado, não entendeu nada.
O Ocidente, que tinha negado, riu.
Provavelmente os chineses riram também.
Foram anos abrindo caminho e botando trilho.
Até que em 1976, quase uma década depois de trabalho só botando dinheiro, 320 pontes e 22 túneis depois, um trem cortou o coração da África.
Uma obra de engenharia monumental. Um colosso.
O Ocidente não se fez de rogado. E seguiu achando graça.
A seguiu com sua certeza: o trenzinho chinês nunca iria se pagar.
De novo, e mais uma vez, a China deve ter achado graça.
O que o risonho Ocidente não viu é o quanto tudo aquilo tinha representado.
O quanto valeu a imensa paciência de quem aposta no longo prazo, no tempo como continuidade, e, quando em negociação, como ferramenta de desgaste.
Foi assim, sereno, que, em 1972, Zhou Enlai respondeu para a imprensa ocidental que ainda era cedo demais para avaliar os acontecimentos históricos de maio de 1968.
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A lenda transformou a frase sobre maio de 68 em resposta sobre a Revolução Francesa. Que ainda seria cedo para entender os desdobramentos do 14 de julho de 1789.
A lenda é ótima, mas não foi sobre 1789, e sim apenas sobre quatro anos antes.
Provavelmente não avisaram para Gianni Infantino como seria negociar com os chineses os direitos de transmissão da próxima Copa do Mundo.
Botando a faca no pescoço chinês, começou exigindo US$ 300 milhões.
Dessa vez a risada foi chinesa. Sequer responderam.
Infantino está desesperado
Tendo do outro lado um mercado de mais de um bilhão de pessoas, o mandatário da Fifa foi atrás. Já tinha baixado pela metade. Agora quer US$ 120 milhões. Menos da metade, como quem já implora. Dá para imaginar a ira dos patrocinadores bombardeando Infantino por causa da perda de um bilhão em visibilidade.
A China segue rindo. Entre um riso e outro, o executivo da CCTV mandou um recado.
A Copa da Fifa não tá valendo isso tudo. Jogos de madrugada na China, muito Marrocos x Haiti, 48 seleções…E que se ficarem sem, não muda nada. E tem razão. Só muda para a Fifa.
E deu o lance: vamos a US$ 60 milhões. Quem sabe até US$ 80…
Falta um mês para a Copa.
Impassível diante do desespero do mascate da Fifa, a China segue em sua crença à mesa de negociação de que o fluxo da água acaba por perfurar a pedra. E já tem o pior diagnóstico possível quando se tem o imenso país pela frente: o outro lado é vulnerável.
Infantino está desesperado. Podia ter estudado um pouco mais de história. Os chineses seguem sem a menor pressa.

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