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Gestão Esportiva na Prática: quem atravessa a corda é o atleta

É fundamental darmos menos protagonismo às pranchetas e mais centralidade a quem realmente vive o risco dentro de campo

PorFelipe Ximenes
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
01/07/2026 07:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Diop levanta os braços em comemoração ao gol marcado na Copa do Mundo 2026 contra a Holanda
Diop comemora o gol marcado na Copa do Mundo contra a Holanda (Foto: AFP)

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Karl Wallenda, lendário equilibrista dos Flying Wallendas, dizia que estar na corda bamba era viver; o resto era apenas esperar. Talvez poucas imagens expliquem tão bem o primeiro dia dos mata-mata desta Copa do Mundo. Porque, quando começa o jogo eliminatório, não há mais conforto estatístico, não há mais margem emocional, não há mais espaço para discursos longos sobre processo, favoritismo ou superioridade histórica. Há uma bola, um adversário, um relógio, um mundo olhando e uma corda esticada entre a permanência e a queda.

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O Brasil sentiu isso contra o Japão. Não enfrentou um personagem secundário, nem uma seleção disposta apenas a resistir de maneira passiva. Enfrentou um time organizado, corajoso, competitivo e consciente do seu plano. O gol no último lance não apaga as dificuldades do jogo, mas também não deve ser tratado como simples acaso ou como prova definitiva de genialidade tática. Ele revela algo mais profundo: no mata-mata, vencer também é suportar o desconforto de quase perder.

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Gustavo Gómez comemora classificação do Paraguai sobre a a Alemanha na Copa do Mundo 2026
Gustavo Gómez comemora classificação do Paraguai sobre a a Alemanha na Copa do Mundo 2026 (Foto: Odd ANDERSEN / AFP)

A importância de manter-se lúcido

Essa talvez seja uma das maiores exigências mentais de uma Copa do Mundo. Não basta ter talento, camisa, história ou currículo. É preciso permanecer lúcido quando o jogo foge da narrativa planejada. É preciso continuar acreditando quando o adversário parece maior do que se imaginava. É preciso aceitar que o futebol não se curva completamente à nossa vontade, por mais que insistamos em construir explicações definitivas depois que a bola entra.

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A eliminação da Alemanha para o Paraguai nos pênaltis reforça essa lição. Poucas seleções carregam uma relação tão forte com racionalidade, eficiência e domínio emocional quanto a Alemanha. Poucas seleções simbolizam tanto a ideia de que organização, método e tradição costumam encontrar uma saída nos momentos decisivos. Ainda assim, uma Copa do Mundo não respeita biografia quando a bola está na marca do pênalti. Ali, a história ajuda, mas não bate. A camisa pesa, mas não escolhe o canto. O passado intimida, mas não garante o futuro.

O Paraguai não eliminou apenas uma potência. Eliminou também a nossa preguiça de olhar para o jogo com humildade. Quando uma seleção considerada inferior resiste, compete, leva a decisão ao limite e vence, costumamos procurar uma falha no favorito antes de reconhecer o mérito de quem sobreviveu. É uma forma confortável de manter antigas hierarquias intactas. Talvez seja mais difícil admitir que o futebol mundial mudou, que as distâncias diminuíram, que a preparação se espalhou, que a informação circula, que atletas de diferentes países competem nos mesmos centros de excelência e que não existem mais bobos esperando autorização para incomodar os grandes.

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Marrocos, mais uma vez, colocou essa verdade diante de todos. Depois da campanha histórica na última Copa, talvez já não devesse surpreender tanto, mas o futebol ainda tem dificuldade em atualizar seus próprios mapas. A classificação heroica sobre a Holanda não é um acidente isolado. É a continuidade de um movimento. Marrocos joga com identidade e uma força mental que já não pode ser tratada como exceção exótica. Quem insiste em chamar tudo isso de zebra talvez esteja apenas confessando que parou de estudar o mundo.

Há também um ponto que me parece fundamental: precisamos reorganizar o lugar do treinador na leitura do futebol. Quando uma substituição dá certo, o treinador vira gênio. Quando dá errado, vira culpado. Claro que treinadores importam. Importam muito. Eles escolhem, preparam, interpretam, protegem e, muitas vezes, influenciam o ambiente em que os atletas vão competir. Mas o jogo, no fim, pertence aos jogadores.

É o atleta quem domina mal ou domina bem. É ele quem sente a perna pesar antes do pênalti. É ele quem decide acelerar ou pausar quando a pressão do estádio parece empurrar o pensamento para fora do corpo. É ele quem enxerga o passe que não estava no quadro tático, quem ataca o espaço no instante certo, quem sustenta emocionalmente o erro anterior para ainda estar vivo no lance seguinte. O treinador cria circunstâncias. Quem atravessa a corda é o atleta.

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Elenco de Marrocos comemora classificação na Copa do Mundo de 2026 contra a Holanda
Marrocos eliminou a Holanda da Copa do Mundo (Foto: Carl de Souza / AFP)

Futebol vai além das pranchetas

Talvez por isso seja tão perigoso explicar uma vitória apenas pela prancheta e uma derrota apenas pela escolha de quem está à beira do campo. Essa leitura nos dá uma sensação falsa de domínio. Parece que tudo poderia ter sido controlado se uma substituição tivesse ocorrido cinco minutos antes, se outro atleta tivesse entrado, se o desenho tático fosse diferente. Às vezes, sim. Muitas vezes, no entanto, não. O futebol é atravessado por intenção, preparação, estratégia, repertório, emoção, fadiga, erro, talento e aleatoriedade. Quem elimina essa última variável da análise está sendo superficial.

A aleatoriedade não diminui o futebol. Ao contrário, ela o engrandece. É justamente porque o jogo escapa que ele mobiliza o mundo. Se tudo fosse plenamente previsível, a Copa seria apenas a confirmação burocrática de uma hierarquia técnica. Mas não é. É por isso que um gol no último lance pode transformar milhões de pessoas em testemunhas de uma mesma emoção. É por isso que o futebol segue sendo maior do que as nossas planilhas, narrativas e certezas.

O primeiro dia do mata-mata nos lembrou que liderar uma seleção em Copa do Mundo não é controlar todos os acontecimentos. É preparar pessoas para seguirem competindo quando o controle desaparece. E competir, neste nível, exige mais do que coragem barulhenta. Exige serenidade, memória curta para o erro, compromisso com o próximo lance e capacidade de caminhar quando todos, inclusive você, sabem que não há rede de proteção.

Essa foi a imagem que ficou neste início de fase eliminatória. O Brasil no limite, a Alemanha no chão, o Paraguai em êxtase, Marrocos recusando o papel de coadjuvante e a Holanda descobrindo, outra vez, que talento sem sobrevivência emocional pode não bastar. No alto da corda, ninguém caminha carregado apenas pela história que tem. Caminha pelo equilíbrio que consegue sustentar agora.

Porque no mata-mata da Copa, como na vida de Wallenda, viver é estar na corda bamba. O resto é esperar.

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