Gestão Esportiva na Prática: a Copa dos Ecossistemas
Em um futebol cercado por redes sociais, opiniões instantâneas e pressão permanente, liderar já não é comandar pessoas. É alinhar influências

A Copa do Mundo começou para o Brasil muito antes do apito inicial contra Marrocos. Começou nas listas de convocação. Nos debates sobre merecimento. Nas expectativas criadas em torno da chegada de Carlo Ancelotti. Nas discussões sobre sistema de jogo, formação ideal e possibilidades de conquista.
Mas existe uma diferença enorme entre disputar uma Copa na imaginação e disputá-la na realidade. A verdadeira Copa começa depois da estreia.
É quando o planejamento deixa de ser teoria e passa a conviver com fatos. Foi exatamente isso que aconteceu diante de uma seleção marroquina que merece respeito. Afinal, estamos falando de uma equipe que alcançou a semifinal da última Copa do Mundo e que, há bastante tempo, deixou de ser uma surpresa.
Naturalmente, o debate após o empate concentrou-se na atuação da equipe. Sempre acontece assim. Faz parte de uma cultura esportiva que frequentemente associa qualidade ao resultado e fracasso à ausência dele.
Copa é o maior laboratório de liderança do planeta
Mas talvez a questão mais interessante esteja em outro lugar e você, meu leitor, sabe que é sobre isso que gosto de escrever. O que a estreia revelou sobre as lideranças da Seleção?
Na semana passada escrevi que a Copa do Mundo é o maior laboratório de liderança do planeta. Não porque premia os mais fortes, mas porque expõe aqueles que conseguem reagir melhor às circunstâncias.
A estreia produziu exatamente esse ambiente. Pela primeira vez, a preparação terminou. Pela primeira vez, a pressão deixou de ser uma possibilidade futura e passou a ser uma realidade concreta. Pela primeira vez, jogadores, comissão técnica e dirigentes passaram a conviver com julgamentos baseados em acontecimentos reais e não mais em projeções.
Talvez por isso tenha chamado atenção a postura de Carlo Ancelotti após a partida. Mais sério, mais concentrado e mais cuidadoso do que habitualmente observamos em suas entrevistas. Não porque estivesse diante de uma crise. Seria um exagero afirmar isso. Mas porque a competição entrou em uma nova fase.
A partir de agora, cada decisão carrega consequências. E toda grande liderança compreende a diferença entre preparação e execução.
No futebol moderno, essas consequências já não se limitam ao vestiário. Uma decisão tomada em campo repercute instantaneamente em um ecossistema formado por torcedores, jornalistas, patrocinadores, dirigentes, influenciadores e milhões de opiniões conectadas pelas redes sociais. Talvez por isso a liderança tenha se tornado mais complexa. Já não basta conduzir um grupo. É preciso influenciar um ambiente.
Ao longo dos últimos meses, muito se falou sobre o talento da Seleção Brasileira. Talvez tenha chegado a hora de observar algo igualmente importante: sua estrutura de liderança.
Equipes campeãs raramente dependem de uma única voz. Possuem lideranças complementares. Lideranças técnicas. Lideranças emocionais. Lideranças comportamentais. Lideranças silenciosas.
Ao observar o grupo brasileiro, é possível identificar alguns desses perfis. Danilo representa estabilidade e experiência. Bruno Guimarães exerce influência através da intensidade competitiva. Alisson transmite segurança. Marquinhos conecta diferentes gerações dentro do elenco. Outros exercerão papéis que talvez nem sequer sejam percebidos pelo público.
Toda Copa produz momentos em que a hierarquia formal se torna insuficiente. É nesses momentos que surgem os líderes reais. Não necessariamente os que falam mais. Nem os que usam a braçadeira. Mas aqueles que ajudam o grupo a atravessar a incerteza.
A boa notícia para o Brasil é que essa pergunta ainda não foi respondida. E isso significa que a história continua aberta.
A primeira rodada raramente define uma Copa. Mas frequentemente revela quais seleções possuem maturidade para suportar o caminho até o final. O empate contra Marrocos talvez tenha dito pouco sobre o destino da Seleção Brasileira. Mas pode ter dito muito sobre os desafios que ela precisará enfrentar.
E é justamente aí que a liderança começa a se tornar mais importante do que o futebol.
Porque em uma Copa do Mundo, assim como nas organizações modernas, não são os planos que chegam mais longe. São os ecossistemas que conseguem permanecer conectados quando os planos deixam de funcionar.
Durante décadas acreditamos que liderar era comandar pessoas.
A Copa do Mundo de 2026 mostra algo diferente. Ela reflete o maior desafio da liderança no mundo moderno: influenciar ecossistemas. Nenhum treinador controla sozinho uma seleção. Nenhum dirigente controla sozinho uma organização. Nenhum líder controla sozinho o ambiente que o cerca. O que existe é a capacidade de alinhar influências.
Jogadores. Comissão técnica. Dirigentes. Torcedores. Imprensa. Patrocinadores. Redes sociais. Expectativas. Pressões. Interesses.
A verdadeira liderança deixou de ser o exercício da autoridade e passou a ser o exercício da influência. Porque em um mundo onde ninguém controla todas as variáveis, prosperam aqueles que conseguem manter o sistema conectado em torno de um propósito comum.
Talvez seja cedo para saber até onde a Seleção Brasileira chegará nesta Copa. Mas penso que a estreia contra Marrocos já deixou uma lição importante.
O futebol continua sendo jogado por jogadores. Mas os grandes resultados são construídos por ecossistemas. E as seleções que permanecem mais tempo na Copa costumam ser justamente aquelas que conseguem transformar influência em confiança, pressão em alinhamento e diversidade em unidade.
No fim das contas, é isso que a Copa do Mundo revela sobre o futebol.
E sobre o mundo.
PS.: Escrevo esta coluna no mesmo momento que a seleção de Cabo Verde fez sua estreia em uma Copa do Mundo, empatando com a seleção espanhola, atual campeã europeia e uma das favoritas ao título. O pulso ainda pulsa. VIVA O FUTEBOL

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