Gestão Esportiva na Prática: o maior laboratório de liderança do mundo
Na maior competição esportiva do planeta, a capacidade de reagir às circunstâncias valerá mais do que qualquer plano

Quando a bola rolar para mais uma Copa do Mundo, bilhões de pessoas estarão observando os jogadores. Eu estarei observando os líderes. Ao longo das próximas semanas, pretendo utilizar este espaço para enxergar a competição por uma perspectiva diferente daquela que normalmente domina os debates esportivos. Falaremos sobre futebol, evidentemente. Mas quero falar também sobre liderança, gestão, tomada de decisão, comunicação, adaptação e comportamento humano. Afinal, talvez não exista no mundo um laboratório mais completo para estudar liderança do que uma Copa do Mundo.
As maiores organizações do planeta dispõem de anos para executar seus planejamentos estratégicos. Empresas possuem ciclos. Governos possuem mandatos. Clubes possuem temporadas inteiras. Em uma Copa do Mundo, não. Você tem poucos dias para construir um ambiente de confiança, poucas horas para tomar decisões complexas e, muitas vezes, apenas alguns segundos para conviver com as consequências delas.
É justamente por isso que a Copa destrói uma das maiores ilusões da liderança moderna: a ilusão do controle. Nenhum treinador controla uma lesão. Nenhum dirigente controla uma crise. Nenhum jogador controla o acaso. Nenhuma seleção controla uma Copa do Mundo.
O máximo que um líder consegue fazer é controlar as circunstâncias
Criar ambientes favoráveis. Reduzir ruídos. Estabelecer relações de confiança. Desenvolver estruturas capazes de suportar momentos de pressão. Em outras palavras, aumentar a probabilidade de que boas decisões aconteçam quando os planos inevitavelmente deixarem de funcionar. E eles sempre deixam.
A história das Copas é construída sobre o imprevisível. Uma expulsão inesperada. Um pênalti desperdiçado. Uma contusão decisiva. Um erro individual. Um gol improvável. A competição mais importante do planeta é também aquela que mais pune quem acredita possuir todas as respostas.
Talvez seja por isso que a chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção Brasileira desperte tanta curiosidade. Não apenas porque estamos diante do primeiro treinador estrangeiro a comandar o Brasil em uma Copa do Mundo. Nem apenas porque se trata de um dos profissionais mais vencedores da história do futebol. Apesar de toda sua trajetória, esta também será a primeira Copa do Mundo de Ancelotti como treinador.
O aspecto que mais me interessa é outro.
Paradoxalmente, sua principal credencial não parece estar relacionada ao controle, mas à gestão das circunstâncias. Ao longo de décadas, trabalhando com alguns dos maiores jogadores da história, Ancelotti construiu uma reputação rara. Mais do que impor modelos rígidos, demonstrou enorme capacidade para administrar personalidades, conectar diferentes gerações, reduzir conflitos e criar ambientes onde o talento coletivo consegue florescer.
Convenhamos, essa talvez seja também a principal demanda da liderança no século XXI.
Vivemos em uma era marcada pela velocidade da informação, pela fragmentação da atenção e pela convivência diária entre diferentes gerações dentro das mesmas organizações. Liderar tornou-se menos um exercício de comando e mais um exercício de influência. Menos sobre controlar pessoas e mais sobre construir contextos.
O Brasil chega a esta Copa trazendo consigo uma história interessante. Ao longo do ciclo, a Seleção passou pelas mãos de Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior até desembocar na chegada de Ancelotti. Nos bastidores, profissionais como Rodrigo Caetano tiveram a missão de oferecer estabilidade a um ambiente tradicionalmente pressionado pela urgência dos resultados. Ao mesmo tempo, esta será a primeira Copa sob a gestão do presidente Samir Xaud, que assume a responsabilidade de conduzir a principal instituição do futebol brasileiro em um dos momentos mais desafiadores de sua história recente.
Mais do que uma sucessão de nomes, existe uma questão relevante por trás dessa trajetória. Organizações maduras não são aquelas que evitam mudanças. São aquelas que conseguem atravessá-las sem perder sua identidade. Talvez a grande pergunta desta Copa não seja qual seleção possui o melhor sistema de jogo. Talvez a pergunta seja outra:
Qual seleção estará mais preparada para reagir quando o sistema deixar de funcionar?
Porque ele deixará. Em algum momento, para todas elas.
A capacidade de resposta sempre foi mais importante do que a capacidade de previsão. E suspeito que, em um torneio tão curto e tão cruel quanto uma Copa do Mundo, essa diferença se torna ainda mais evidente.
Nos próximos capítulos desta jornada observaremos treinadores, jogadores, dirigentes e seleções através dessa lente. Falaremos sobre pressão, comunicação, liderança, tomada de decisão e gestão de grupos. Falaremos sobre futebol, mas não apenas sobre futebol.
Porque a Copa do Mundo talvez seja o último lugar onde ainda acreditamos que alguém controla tudo. E também o melhor lugar para aprendermos que os grandes líderes nunca controlaram. Eles apenas construíram as circunstâncias para que o melhor pudesse acontecer.

*Esta é a primeira coluna de uma série que escreverei durante a Copa chamada: Copa do Mundo 2026 - Liderança sob pressão.
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