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Grupo extremista ameaça Copa do Mundo, e especialistas explicam relação com Irã

Handala traz simbologia palestina, mas historiador afirma: '´É coisa do Irã. E de alto nível'

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
13/06/2026 07:00
Ilustração feita por IA sobre ameaças cibernéticas à Copa do Mundo (Imagem gerada por IA)
Grupo extremista Handala, ligado ao Irã, lançou ameaça sobre a Copa do Mundo (Imagem criada por IA)
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Enquanto a Copa do Mundo de 2026 acumula problemas relacionados à política de imigração dos Estados Unidos e países de maioria muçulmana, uma declaração de um grupo extremista divulgada nesta sexta-feira chamou atenção das autoridades envolvidas na segurança da competição — que também terá partidas no México e Canadá. O Site Intelligence Group, organização que monitora a atividade desses coletivos, publicou uma ameaça do Handala, grupo extremista também conhecido como Handala Hack Team e focado em atividade cibernética, alegando invasão do sistema de drones do FBI, e fazendo um alerta para o Mundial.

A mensagem atribuída ao Handala pelo Site Intelligente Group foi a seguinte: "É melhor reforçarem a segurança na Copa do Mundo. Não gostamos nada de algumas dessas equipes. Não se esqueçam: drones estão por toda parte. Nunca se sabe quando um pode parar em cima do ônibus do seu time".

O Handala diz ter monitorado por meses imagens de drones utilizadas em operações de segurança ou contraterrorismo. A publicação afirma ainda que as principais agências americanas emitiram um alerta de ameaça cibernética à infraestrutura crítica, seguindo interrupções bem-sucedidas em instalações americanas de petróleo, gás e água nas últimas semanas.

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O monitoramento por câmeras e, mais recentemente, drones, não é novidade em grandes competições pelo mundo, mas tem características ainda mais intensas nos Estados Unidos por conta das tensões diplomáticas que o país enfrenta em relação a diversas outras nações, entre elas o Irã, com a qual está em guerra no momento — um cenário inédito em uma Copa do Mundo.

Durante a competição, o espaço aéreo do país pode sofrer restrições se as autoridades julgarem necessárias. Não serão permitidos drones nas proximidades dos estádios, por exemplo. O próprio Site Intelligence Group destaca que é difícil verificar de forma independente a extensão do acesso que o grupo extremista obteve, diante de inconsistências na declaração divulgada.

Preocupação com capacidade cibernética iraniana

Os Estados Unidos mostram extrema preocupação com a capacidade cibernética dos iranianos. O Departamento de Estado americano oferece até US$ 10 milhões por informações sobre integrantes do Handala, que costuma focar suas ações em ataques a sistemas de infraestrutura e de autoridades de Israel e EUA. Investigadores do governo americano já ligaram ataques cibernéticos ao apoio da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, um braço econômico e de elite militar do regime. Há informações de que a instituição iraniana atua e financia grupos extremistas de hackers por meio de intermediários.

Handala, que batiza o grupo extremista, é originalmente o nome de uma planta perene nativa da região da Palestina e do Oriente Médio, de sabor amargo e raízes fortes, capaz de suportar as condições do deserto. É o nome também um personagem criado em 1969 pelo político e cartunista palestino Naji al-Ali. Handala, "a criança que se recusa a crescer enquanto a Palestina não for livre", é representado nas ilustrações como uma criança descalça e com roupas remendadas. O personagem sempre aparece de costas para os espectadores e com as mãos para trás, entrelaçadas. Ele tem 10 anos, idade do seu criador quando sua família foi expulsa de sua terra. Naji al-Ali dizia que o menino só começaria a crescer quando pudesse retornar.

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Especialistas veem ligação com o Irã

O professor e historiador Andrew Patrick Traumann, autor de dois livros sobre o Irã e especialista em Oriente Médio, explicou ao Lance! a forte ligação do país do Golfo Pérsico com a área de tecnologia.

— No caso do Handala, eu creio que seja um grupo iraniano que só está usando a simbologia palestina. Não sei se, na atual situação de Gaza, haveria condição. E a Cisjordânia é muito monitorada por Israel. Não vejo como isso vir da Palestina. Isso é coisa do Irã. E de alto nível. Tanto o FBI quanto o Mossad (serviço de inteligência israelense) acham que são militares iranianos, não são nerds, moleques no quarto. Não tem nada a ver com Hamas; tem uma apropriação dessa simbologia.

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Vista MetLife Stadium antes da Copa do Mundo 2026 em East Rutherfort.
Espaço aéreo no entorno de estádios da Copa será restrito. Grupo Handala fez ameaças após acessar sistema de drones do FBI (Foto: Dustin Satloff/Getty Images/AFP)

O Lance! também consultou um experiente jornalista, especialista em política internacional e que morou por mais de uma década em Teerã, mas que prefere não ter seu nome citado por questões pessoais. Contou que não é raro o uso do termo "nação de engenheiros" associado ao país, justamente por conta da importância dada à tecnologia no país, que com frequência figura entre as nações que mais formam profissionais da área.

— Não é à toa que o Irã é de fato chamado de nação de engenheiros. Há uma obsessão por tecnologia, modernidade, todos os usos da tecnologia, civil e militar. Isso diz muito. Primeiro, que o regime é apresentado muitas vezes como retrógrado, conservador, autoritário; e tudo isso é verdade, mas nem por isso deixa de apostar em tecnologia. E a qualidade do ensino universitário em tecnologia é de altíssimo nível. Conseguiram fazer um programa nuclear em que dominam todo o ciclo de enriquecimento de urânio; se quisessem fazer a bomba, fariam. É um país que fabrica carro, computador, equipamentos de alta tecnologia, nanotecnologia; tem de entender esse contexto. É um país que abraça a tecnologia. É uma ditadura brutal, mas é um país muito moderno.

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Traumann, por sua vez, explica que a ciberguerra, por parte do Irã, se desenvolveu após a invasão dos Estados Unidos ao Iraque em março de 2003. O programa nuclear foi então reativado e, segundo o professor, os ataques cibernéticos são uma consequência do conflito.

— A gente tem um grande histórico de desenvolvimento iraniano na base nuclear e tecnológica, especialmente depois dos anos 2000, quando o programa nuclear é reativado após a invasão americana ao Iraque. A questão dos ciberataques é um desenvolvimento de tudo isso que vem acontecendo. Os reatores iranianos sofreram inúmeros ataques de Israel. Houve um iraniano que foi participar de um evento na Europa e recebeu de brinde um "espião" israelense, um pen drive com um vírus, que acabou inutilizando vários reatores. Era um brinde do evento. E, desde então, têm surgido vários grupos iranianos. O FBI não tem certeza, mas alguns nomes que são usados seriam, na verdade, de pessoas realmente do Ministério de Inteligência e Segurança iraniano. Usam nomes, por exemplo, de agentes mortos — contou.

O professor também esclareceu a longa relação entre Irã e Palestina.

— Não é uma coisa nova. Isso é mais simples de explicar. A política externa iraniana está atrelada à causa palestina desde 79. Isso faz com que o Irã busque alguns aliados. O Irã sempre foi a favor da causa palestina, e isso fez com que o Irã, por exemplo, criasse o Hezbollah, em 1982, durante a invasão israelense do Líbano.É mais ou menos a ideia de que nós (iranianos), que nem árabes somos, defendemos mais os palestinos do que vocês, países árabes. O Irã pega essa bandeira para si. Só não podemos generalizar. Tem um apoio forte na causa palestina do Líbano e do Catar, que passou o país que apoia financeiramente o Hamas. Não por acaso muitos líderes do Hamas estavam em Doha.

Com o cenário inédito de um país-sede em guerra com um dos participantes, a relação entre EUA e Irã na Copa do Mundo vem sendo marcada por atritos. O principal deles: a seleção iraniana foi proibida de passar a noite em solo estadunidense. Com isso, teve de cancelar seus amistosos preparatórios e mudar sua base de treinamentos de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México. Porta-vozes do governo iraniano têm feito diversas críticas ao tratamento dado à sua delegação pelos americanos.

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