Grupo extremista ameaça Copa do Mundo, e especialistas explicam relação com Irã
Handala traz simbologia palestina, mas historiador afirma: '´É coisa do Irã. E de alto nível'

Enquanto a Copa do Mundo de 2026 acumula problemas relacionados à política de imigração dos Estados Unidos e países de maioria muçulmana, uma declaração de um grupo extremista divulgada nesta sexta-feira chamou atenção das autoridades envolvidas na segurança da competição — que também terá partidas no México e Canadá. O Site Intelligence Group, organização que monitora a atividade desses coletivos, publicou uma ameaça do Handala, grupo extremista também conhecido como Handala Hack Team e focado em atividade cibernética, alegando invasão do sistema de drones do FBI, e fazendo um alerta para o Mundial.
A mensagem atribuída ao Handala pelo Site Intelligente Group foi a seguinte: "É melhor reforçarem a segurança na Copa do Mundo. Não gostamos nada de algumas dessas equipes. Não se esqueçam: drones estão por toda parte. Nunca se sabe quando um pode parar em cima do ônibus do seu time".
O Handala diz ter monitorado por meses imagens de drones utilizadas em operações de segurança ou contraterrorismo. A publicação afirma ainda que as principais agências americanas emitiram um alerta de ameaça cibernética à infraestrutura crítica, seguindo interrupções bem-sucedidas em instalações americanas de petróleo, gás e água nas últimas semanas.
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O monitoramento por câmeras e, mais recentemente, drones, não é novidade em grandes competições pelo mundo, mas tem características ainda mais intensas nos Estados Unidos por conta das tensões diplomáticas que o país enfrenta em relação a diversas outras nações, entre elas o Irã, com a qual está em guerra no momento — um cenário inédito em uma Copa do Mundo.
Durante a competição, o espaço aéreo do país pode sofrer restrições se as autoridades julgarem necessárias. Não serão permitidos drones nas proximidades dos estádios, por exemplo. O próprio Site Intelligence Group destaca que é difícil verificar de forma independente a extensão do acesso que o grupo extremista obteve, diante de inconsistências na declaração divulgada.
Preocupação com capacidade cibernética iraniana
Os Estados Unidos mostram extrema preocupação com a capacidade cibernética dos iranianos. O Departamento de Estado americano oferece até US$ 10 milhões por informações sobre integrantes do Handala, que costuma focar suas ações em ataques a sistemas de infraestrutura e de autoridades de Israel e EUA. Investigadores do governo americano já ligaram ataques cibernéticos ao apoio da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, um braço econômico e de elite militar do regime. Há informações de que a instituição iraniana atua e financia grupos extremistas de hackers por meio de intermediários.
Handala, que batiza o grupo extremista, é originalmente o nome de uma planta perene nativa da região da Palestina e do Oriente Médio, de sabor amargo e raízes fortes, capaz de suportar as condições do deserto. É o nome também um personagem criado em 1969 pelo político e cartunista palestino Naji al-Ali. Handala, "a criança que se recusa a crescer enquanto a Palestina não for livre", é representado nas ilustrações como uma criança descalça e com roupas remendadas. O personagem sempre aparece de costas para os espectadores e com as mãos para trás, entrelaçadas. Ele tem 10 anos, idade do seu criador quando sua família foi expulsa de sua terra. Naji al-Ali dizia que o menino só começaria a crescer quando pudesse retornar.
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Especialistas veem ligação com o Irã
O professor e historiador Andrew Patrick Traumann, autor de dois livros sobre o Irã e especialista em Oriente Médio, explicou ao Lance! a forte ligação do país do Golfo Pérsico com a área de tecnologia.
— No caso do Handala, eu creio que seja um grupo iraniano que só está usando a simbologia palestina. Não sei se, na atual situação de Gaza, haveria condição. E a Cisjordânia é muito monitorada por Israel. Não vejo como isso vir da Palestina. Isso é coisa do Irã. E de alto nível. Tanto o FBI quanto o Mossad (serviço de inteligência israelense) acham que são militares iranianos, não são nerds, moleques no quarto. Não tem nada a ver com Hamas; tem uma apropriação dessa simbologia.

O Lance! também consultou um experiente jornalista, especialista em política internacional e que morou por mais de uma década em Teerã, mas que prefere não ter seu nome citado por questões pessoais. Contou que não é raro o uso do termo "nação de engenheiros" associado ao país, justamente por conta da importância dada à tecnologia no país, que com frequência figura entre as nações que mais formam profissionais da área.
— Não é à toa que o Irã é de fato chamado de nação de engenheiros. Há uma obsessão por tecnologia, modernidade, todos os usos da tecnologia, civil e militar. Isso diz muito. Primeiro, que o regime é apresentado muitas vezes como retrógrado, conservador, autoritário; e tudo isso é verdade, mas nem por isso deixa de apostar em tecnologia. E a qualidade do ensino universitário em tecnologia é de altíssimo nível. Conseguiram fazer um programa nuclear em que dominam todo o ciclo de enriquecimento de urânio; se quisessem fazer a bomba, fariam. É um país que fabrica carro, computador, equipamentos de alta tecnologia, nanotecnologia; tem de entender esse contexto. É um país que abraça a tecnologia. É uma ditadura brutal, mas é um país muito moderno.
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Traumann, por sua vez, explica que a ciberguerra, por parte do Irã, se desenvolveu após a invasão dos Estados Unidos ao Iraque em março de 2003. O programa nuclear foi então reativado e, segundo o professor, os ataques cibernéticos são uma consequência do conflito.
— A gente tem um grande histórico de desenvolvimento iraniano na base nuclear e tecnológica, especialmente depois dos anos 2000, quando o programa nuclear é reativado após a invasão americana ao Iraque. A questão dos ciberataques é um desenvolvimento de tudo isso que vem acontecendo. Os reatores iranianos sofreram inúmeros ataques de Israel. Houve um iraniano que foi participar de um evento na Europa e recebeu de brinde um "espião" israelense, um pen drive com um vírus, que acabou inutilizando vários reatores. Era um brinde do evento. E, desde então, têm surgido vários grupos iranianos. O FBI não tem certeza, mas alguns nomes que são usados seriam, na verdade, de pessoas realmente do Ministério de Inteligência e Segurança iraniano. Usam nomes, por exemplo, de agentes mortos — contou.
O professor também esclareceu a longa relação entre Irã e Palestina.
— Não é uma coisa nova. Isso é mais simples de explicar. A política externa iraniana está atrelada à causa palestina desde 79. Isso faz com que o Irã busque alguns aliados. O Irã sempre foi a favor da causa palestina, e isso fez com que o Irã, por exemplo, criasse o Hezbollah, em 1982, durante a invasão israelense do Líbano.É mais ou menos a ideia de que nós (iranianos), que nem árabes somos, defendemos mais os palestinos do que vocês, países árabes. O Irã pega essa bandeira para si. Só não podemos generalizar. Tem um apoio forte na causa palestina do Líbano e do Catar, que passou o país que apoia financeiramente o Hamas. Não por acaso muitos líderes do Hamas estavam em Doha.
Com o cenário inédito de um país-sede em guerra com um dos participantes, a relação entre EUA e Irã na Copa do Mundo vem sendo marcada por atritos. O principal deles: a seleção iraniana foi proibida de passar a noite em solo estadunidense. Com isso, teve de cancelar seus amistosos preparatórios e mudar sua base de treinamentos de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México. Porta-vozes do governo iraniano têm feito diversas críticas ao tratamento dado à sua delegação pelos americanos.
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