Do medo ao prêmio da paz: como a relação entre Fifa e EUA se transformou após escândalo
Depois do 'Fifa Gate', entidade deixa de lado o 'chute no traseiro' e se curva ao padrão Trump

O 65.º Congresso da Fifa aconteceu nos dias 28 e 29 de maio de 2015. E marcou uma mudança significativa nos rumos da entidade. Joseph Blatter foi então reeleito por uma estrutura de perpetuação no poder que se replica desde federações regionais até a mais poderosa instituição do esporte no mundo. Mas o resultado daquele pleito foi ilusório. Blatter, na verdade, já não tinha o mesmo poder e viu a estrutura que o sustentava ruir. Tudo porque ele deu um tiro no próprio pé cinco anos antes, em 2010, quando, a despeito da candidatura dos Estados Unidos, ratificou a Copa do Mundo de 2018 na Rússia e a de 2022 no Catar, em votação cercada de suspeitas.
Blatter não durou uma semana na presidência depois da reeleição. Em 2 de junho de 2015, renunciou ao cargo, depois de ver outros dirigentes de sua confiança serem presos, no caso que ficou mundialmente conhecido como 'Fifa Gate'. E, desde então, a postura de "dar chute no traseiro" de países-sede que não cumpriam à risca todas as exigências do "padrão Fifa" se transformou em 2026 numa total submissão às imposições dos Estados Unidos.
Brindes com broche de ouro e diamantes
Essa história tem início em 2 de dezembro de 2010, quando Blatter, após reunião do antigo Comitê Executivo da Fifa, um órgão que garantia regalias, fartas diárias e status aos seus membros, confirmou a escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Para se ter uma noção do luxo e privilégio para os membros deste órgão da Fifa, cada um recebia de brinde um broche de ouro cravejado de diamantes.
Mas a derrota americana no pleito para ser novamente sede de uma Copa foi a faísca que iniciaria um incêndio de proporções arrasadoras cinco anos depois. Em sigilo, a investigação conduzida pelo FBI e pelo Departamento de Estado dos EUA para apurar corrupção na Fifa começou a andar, facilitada pelo fato de que diversas das transações usadas para embasar as prisões ocorreram no sistema financeiro americano. No meio do caminho, foi o Brasil a receber o "chute no traseiro" do então todo-poderoso secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, que acabou banido do futebol.

Ponta do iceberg na Copa no Brasil
A ponta do iceberg já apareceu sobre o oceano de corrupção na Fifa, no entorno do Maracanã. A imprensa local se aglomerou na porta da 18ª Delegacia de Polícia para a chegada de Raymond Wheelan, diretor da Match, parceira da entidade na venda de ingressos e pacotes de hospitalidades, algemado, acusado de participação em um esquema de revenda ilegal a preços muito acima dos praticados nos canais oficiais — o que é proibido por lei no Brasil, mas legal nos EUA. Por essa razão, na Copa de 2026 não há um teto limite para a oferta de ingressos, que estão sendo vendidos na plataforma oficial da Fifa por mais de R$ 700 mil.
Whelan acabou solto, excluído do processo contra os demais cambistas sob custódia em decisão de segunda instância da Justiça. O caso esfriou até o Congresso da Fifa, que seria realizado na mesma cidade que abriga a sede da entidade, Zurique, na Suíça — terra natal de Blatter, que concorria a mais uma reeleição com resultado mais do que previsível. Todos os concorrentes desistiram. Dois deles antes mesmo da votação, e um após se conformar com os números do primeiro turno nas urnas.
Na madrugada seguinte, por volta das 5h no horário local, um pandemônio tomou conta da frente de um dos hotéis mais luxuosos do país, o Baur au Lac. Um cafezinho no lobby custava oito euros, ou R$ 48 na cotação atual. E de lá, diversos dirigentes, entre eles o brasileiro José Maria Marin, saíram em meio a Rolls-Royces e Maseratis rumo à prisão.
A partir daí, a relação entre Fifa e EUA se transformou. Nenhum atrito, nenhuma troca de farpas. A troca de comando mudou o nome, mas manteve o sistema. Ao assumir, o italiano Gianni Infantino, então braço direito do presidente da Uefa, Michel Platini — que também chegou a ser banido do esporte ao receber dois milhões de francos suíços de Blatter, mas teve a pena atenuada — tomou medidas populares para mostrar ao mundo que a entidade viveria uma nova fase de transparência, inclusão e princípios. Entre elas, a nomeação da senegalesa Fatma Samoura, ex-ONU, a primeira mulher a assumir a secretaria-geral da Fifa. Trocou o desgastado Comitê Executivo por uma versão com maior número de vagas para Ásia, África e Américas, e que passou a ser chamado de Conselho da Fifa. Somente uma nova roupagem.
Relação íntima e ações políticas
A candidatura norte-americana para receber a Copa de 2026, ao lado de México e Canadá, foi aprovada em Moscou, em 2018, sem maiores percalços. Depois do que ocorreu no hotel Baur au Lac, a Fifa entendeu que contrariar os Estados Unidos tem um preço alto. O medo falou mais alto.
Não é raro ver Infantino tentar dissociar a política do esporte, e, durante a administração de Joe Biden, a relação foi, de certa forma, protocolar. Mas tudo se escancarou com a eleição de Donald Trump.
De lá para cá, foram diversos gestos interpretados como ações políticas. Entre eles, o uso de um boné vermelho com referência aos mandatos do atual presidente — gesto que chegou a iniciar uma apuração do Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre neutralidade da Fifa — e o prêmio da Paz concedido a Trump durante a cerimônia do sorteio dos grupos da Copa do Mundo, em dezembro de 2025. O episódio do boné aconteceu em uma visita de Infantino ao Conselho da Paz criado por Trump com outros chefes de Estado, o que mostra o prestígio do dirigente.
O mimo da Fifa a Trump foi uma espécie de prêmio de consolação, ou afago político, já que o presidente americano acabou não recebendo o Nobel da Paz, apesar de ter declarado diversas vezes que deveria ser o homenageado. Maria Corina Machado, líder da oposição venezuelana, ganhou a medalha do Nobel e a entregou a Trump, que interveio no país sul-americano para prender o ditador Nicolás Maduro e assumir o controle de uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Infantino também esteve presente em lugar de honra na posse do presidente, ao lado de alguns dos maiores aliados do político americano.

Padrão Fifa dá lugar ao padrão Trump
Agora, enquanto a bola rola no campo para a maior competição do futebol do planeta, que se iniciou nesta quinta-feira (11), as polêmicas atreladas às políticas internas de Trump em relação a imigrantes começam a se acumular e a ensejar críticas de organizações internacionais. Até a ONU já se pronunciou, pedindo para o país repensar suas práticas, mas Trump se mostra irredutível, e a Fifa, subserviente.
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Nem uma palavra de crítica, muito menos um chute no traseiro, ou mesmo um peteleco. Se o problema é com Trump, a postura da entidade até o momento é de se eximir de responsabilidade. Seja no caso do melhor árbitro africano barrado, o somali Omar Abdulkadir Artan, ou de uma seleção ser impedida de fazer seus jogos preparatórios ou treinar e se hospedar no país onde terá de disputar a fase de grupos, caso do Irã. Em outras palavras, a entidade sequer está protegendo a isonomia esportiva da competição.
As palavras de Infantino em coletiva na quarta-feira expõem a postura da entidade em relação aos problemas. Relaxem. É o que pede o presidente da Fifa. Enquanto isso, a Copa padrão Fifa é reescrita sob a ótica do padrão Trump. A entidade lucra cada vez mais sem ser incomodada; o mandatário americano usa o esporte como propaganda e segue o jogo. Mudam os nomes, jamais o sistema.
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