OPINIÃO: Com respaldo pago por subserviência, Infantino quer uma Fifa inquestionável

Entidade troca coletivas por comunicados e escancara postura soberba do suíço que não vê mais necessidade de prestar contas

PorVicente SedaRio de Janeiro (RJ)
27/07/2026 10:29
Atualizado há 2 minutos
Trump e Infantino se cumprimetam ao lado do troféu da Copa do Mundo, que será erguido por Espanha ou Argentina
Trump e Infantino se cumprimetam ao lado do troféu da Copa do Mundo, que será erguido por Espanha ou Argentina (Foto: Andrew Harnik/AFP)

Gianni Infantino não gosta de críticas. Não gosta de responder aos críticos. Não acha necessário dar explicações. Tem, agora, ao seu lado, o líder da nação que derrubou seus antecessores e o alçou ao cargo máximo do futebol no mundo. Acha normal quando um presidente liga para pedir a revogação de uma decisão de campo do árbitro enquanto o próprio estatuto da entidade que comanda pune com desfiliação qualquer interferência governamental em uma das confederações que carregam as cores de nações durante a Copa do Mundo, mas sob escrutínio se blindam como empresas privadas.

➡️Em carta, Infantino rebate críticas à Fifa: 'Ódio e boatos falsos'

Enquanto o Nepal foi excluído de competições internacionais por interferência governamental no dia 25 de junho, a ingerência de Trump sobre a Fifa no cartão vermelho de Balogun resultou em uma decisão monocrática e com agilidade ímpar para atender ao desejo de quem poderia, de fato, pressioná-lo. Meditem, orem, relaxem, mas nos deixem fazer o que quisermos em paz. Vocês da imprensa estão aí sentados; nós da Fifa estamos na linha de frente organizando tudo. Essa é a mensagem de Infantino.

continua após a publicidade

➡️Donald Trump agradece anulação do cartão vermelho de Balogun

Por carta. Entrevista coletiva? Prestar contas? Responder sobre problemas? Não é mais necessário. A Fifa dos tempos de Blatter e Valcke era um mar de corrupção, mas todo santo dia de Copa do Mundo havia um briefing no qual dirigentes dos mais variados setores da entidade se sentavam à frente da imprensa mundial para tirar dúvidas e responder a questões sem restrições. Nesta edição, nenhum briefing. Sequer uma coletiva de encerramento, como manda o protocolo. Não é medo, é soberba. É a sensação de respaldo pago com subserviência.

Balogun comemora gol com dedo no ouvido, braço aberto e expressão séria com a boca cerrada
Balogun foi 'beneficiado' ao ter seu cartão vermelho retirado durante a Copa do Mundo (Photo by JAMIE SQUIRE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)<br>

O suíço, ex-braço-direito do francês que mandava na Uefa e foi suspenso por corrupção, não só se curvou a Donald Trump, mas absorveu dele algumas características marcantes. Em vez de responder, critica quem pergunta. No lugar de explicar, desviar o foco. Ao invés de entrevistas, comunicados. Já não há mais interesse dos EUA em investigar, já não há mais quem tenha poder suficiente para cobrar. A máquina de imprimir dinheiro não pode parar. Transparência é uma questão de ótica. Publicam-se balanços e orçamentos. Até o salário do presidente. Não está bom?

continua após a publicidade

A quem interessa saber que a Fifa fechou um acordo de US$ 150 milhões com uma empresa sediada em Gibraltar com semanas de existência, antes mesmo de ter um produto operacional no mercado? Que besteira. Só porque se trata de um mercado preditivo de apostas? Bobagem. Aí vem um tal de Copenhagen Group, do tal Conselho da Europa, uma instituiçãozinha aí qualquer, dizer que houve sete alertas de possíveis ameaças à integridade da Copa do Mundo? Meditem, orem, relaxem. Entendam.

Soberanos não gostam de imprensa. A imprensa cobra, afinal, é o papel dela na democracia. A imprensa esportiva, contudo, se divide entre a ala do jornalismo de fato e a do entretenimento. Infantino gostaria e faz de tudo para acabar com a primeira. Como qualquer ditador minimamente competente. E, competente, ele é. Tornou a Copa mais lucrativa do que nunca. De que importa se estão barrando torcedores, árbitros e até jogadores? Por que ele estaria preocupado se você, trabalhador comum que amou futebol a vida inteira, não terá dinheiro para comprar uma entrada? O futebol é dinâmico, o preço também. Medite, ore, relaxe.

continua após a publicidade

➡️Balanço da Copa: as surpresas, os vexames e quem cumpriu as expectativas

Mas, que absurdo! A Fifa é democrática. Ela e todas as suas confederações. Essa história de dirigentes ficarem décadas no cargo é coincidência e competência. Nada a ver com um sistema que dá o mesmo peso ao voto das principais entidades esportivas do mundo e de membros nos quais o esporte ainda engatinha. Federações que não têm recursos, e, portanto, se alegram com qualquer migalha atirada durante o ciclo.

Todo mundo já sabe que não adianta a Uefa espernear: a reeleição está garantida. Não há grandes federações suficientes para suplantar as anãs. Nem na Fifa, nem nas suas afiliadas. Deu problema, Fifa Gate? Só mudar os nomes, colocar alguém do sistema forçado goela abaixo dos amantes do futebol. A nova Fifa é muito parecida com a antiga, só que ninguém precisa saber. Um comunicado com os números de sucesso da Copa do Mundo deveria ser suficiente. Por que desconfiar? A culpa, afinal, é dos críticos, da imprensa. Então, meditem, orem e relaxem.

continua após a publicidade

➡️Raio-X da Copa do Mundo: veja as principais estatísticas do torneio

👥 Indique amigos e ganhe até R$30 em saldo para apostar - confira as regras
18+ | Ministério da Fazenda adverte: Aposta não é investimento | Conteúdo comercial | Aplicam-se termos e condições.

Sugerida para você!

Mais LANCE!