OPINIÃO: Com respaldo pago por subserviência, Infantino quer uma Fifa inquestionável
Entidade troca coletivas por comunicados e escancara postura soberba do suíço que não vê mais necessidade de prestar contas

Gianni Infantino não gosta de críticas. Não gosta de responder aos críticos. Não acha necessário dar explicações. Tem, agora, ao seu lado, o líder da nação que derrubou seus antecessores e o alçou ao cargo máximo do futebol no mundo. Acha normal quando um presidente liga para pedir a revogação de uma decisão de campo do árbitro enquanto o próprio estatuto da entidade que comanda pune com desfiliação qualquer interferência governamental em uma das confederações que carregam as cores de nações durante a Copa do Mundo, mas sob escrutínio se blindam como empresas privadas.
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Enquanto o Nepal foi excluído de competições internacionais por interferência governamental no dia 25 de junho, a ingerência de Trump sobre a Fifa no cartão vermelho de Balogun resultou em uma decisão monocrática e com agilidade ímpar para atender ao desejo de quem poderia, de fato, pressioná-lo. Meditem, orem, relaxem, mas nos deixem fazer o que quisermos em paz. Vocês da imprensa estão aí sentados; nós da Fifa estamos na linha de frente organizando tudo. Essa é a mensagem de Infantino.
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Por carta. Entrevista coletiva? Prestar contas? Responder sobre problemas? Não é mais necessário. A Fifa dos tempos de Blatter e Valcke era um mar de corrupção, mas todo santo dia de Copa do Mundo havia um briefing no qual dirigentes dos mais variados setores da entidade se sentavam à frente da imprensa mundial para tirar dúvidas e responder a questões sem restrições. Nesta edição, nenhum briefing. Sequer uma coletiva de encerramento, como manda o protocolo. Não é medo, é soberba. É a sensação de respaldo pago com subserviência.

O suíço, ex-braço-direito do francês que mandava na Uefa e foi suspenso por corrupção, não só se curvou a Donald Trump, mas absorveu dele algumas características marcantes. Em vez de responder, critica quem pergunta. No lugar de explicar, desviar o foco. Ao invés de entrevistas, comunicados. Já não há mais interesse dos EUA em investigar, já não há mais quem tenha poder suficiente para cobrar. A máquina de imprimir dinheiro não pode parar. Transparência é uma questão de ótica. Publicam-se balanços e orçamentos. Até o salário do presidente. Não está bom?
A quem interessa saber que a Fifa fechou um acordo de US$ 150 milhões com uma empresa sediada em Gibraltar com semanas de existência, antes mesmo de ter um produto operacional no mercado? Que besteira. Só porque se trata de um mercado preditivo de apostas? Bobagem. Aí vem um tal de Copenhagen Group, do tal Conselho da Europa, uma instituiçãozinha aí qualquer, dizer que houve sete alertas de possíveis ameaças à integridade da Copa do Mundo? Meditem, orem, relaxem. Entendam.
Soberanos não gostam de imprensa. A imprensa cobra, afinal, é o papel dela na democracia. A imprensa esportiva, contudo, se divide entre a ala do jornalismo de fato e a do entretenimento. Infantino gostaria e faz de tudo para acabar com a primeira. Como qualquer ditador minimamente competente. E, competente, ele é. Tornou a Copa mais lucrativa do que nunca. De que importa se estão barrando torcedores, árbitros e até jogadores? Por que ele estaria preocupado se você, trabalhador comum que amou futebol a vida inteira, não terá dinheiro para comprar uma entrada? O futebol é dinâmico, o preço também. Medite, ore, relaxe.
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Mas, que absurdo! A Fifa é democrática. Ela e todas as suas confederações. Essa história de dirigentes ficarem décadas no cargo é coincidência e competência. Nada a ver com um sistema que dá o mesmo peso ao voto das principais entidades esportivas do mundo e de membros nos quais o esporte ainda engatinha. Federações que não têm recursos, e, portanto, se alegram com qualquer migalha atirada durante o ciclo.
Todo mundo já sabe que não adianta a Uefa espernear: a reeleição está garantida. Não há grandes federações suficientes para suplantar as anãs. Nem na Fifa, nem nas suas afiliadas. Deu problema, Fifa Gate? Só mudar os nomes, colocar alguém do sistema forçado goela abaixo dos amantes do futebol. A nova Fifa é muito parecida com a antiga, só que ninguém precisa saber. Um comunicado com os números de sucesso da Copa do Mundo deveria ser suficiente. Por que desconfiar? A culpa, afinal, é dos críticos, da imprensa. Então, meditem, orem e relaxem.
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