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Fantasma do Brasil, 7 a 1 atormenta Alemanha sem perspectivas de evolução

Após goleada histórica, seleção alemã coleciona quedas precoces na Copa do Mundo

PorPedro WerneckRio de Janeiro (RJ)
30/06/2026 18:05
Atualizado há 2 minutos
Jogadores da Alemanha se lamentam após derrota nos pênaltis para o Paraguai na Copa do Mundo de 2026
Jogadores da Alemanha se lamentam após derrota nos pênaltis para o Paraguai na Copa do Mundo de 2026 (Foto: Odd Andersen / AFP)

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O 7 a 1 aplicado pela Alemanha no Brasil explicitou uma aparente diferença estrutural significativa do futebol alemão para o brasileiro. A percepção era de que estávamos muito atrás, de que era questão de tempo para os germânicos também alcançarem o pentacampeonato mundial. Doze anos depois, nossos algozes nunca pareceram tão distantes de ganhar uma Copa do Mundo.

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Depois de eliminações consecutivas na fase de grupos, em 2018 e 2022, desta vez a equipe alemã caiu no primeiro mata-mata para o Paraguai. Enquanto isso, mesmo tão criticada, a Seleção Brasileira teve campanhas consideravelmente melhores em todas as edições.

Brasil e Alemanha desde o 7 a 1:

  • 2018: Brasil cai nas quartas de final; Alemanha cai na fase de grupos
  • 2022: Brasil cai nas quartas de final; Alemanha cai na fase de grupos
  • 2026: Brasil se classifica para as oitavas de final; Alemanha cai nos 16 avos de final

Alemanha em cada Copa do Mundo desde 2014:

  • 2018: 3 pontos em três jogos (33,3% de aproveitamento)
  • 2022: 4 pontos em três jogos (44,4% de aproveitamento)
  • 2026: 7 pontos em quatro jogos (58,3% de aproveitamento)
  • Total: 46,6% de aproveitamento

Todos os jogos da Alemanha em Copas desde 2014:

  • Alemanha 0 x 1 México - 17/06/2018
  • Alemanha 2 x 1 Suécia - 23/06/2018
  • Alemanha 0 x 2 Coreia do Sul - 27/06/2018
  • Alemanha 1 x 2 Japão - 23/11/2022
  • Alemanha 1 x 1 Espanha - 27/11/2022
  • Alemanha 4 x 2 Costa Rica - 01/12/2022
  • Alemanha 7 x 1 Curaçao - 14/06/2026
  • Alemanha 2 x 1 Costa do Marfim - 20/06/2026
  • Alemanha 1 x 2 Equador - 25/06/2026
  • Alemanha 1 (3) x (4) 1 Paraguai - 29/06/2026

Brasileiro naturalizado alemão, o ex-atacante Cacau jogou a Copa do Mundo de 2010 com a seleção alemã, ocasião na qual compartilhou vestiário com o técnico Joachim Low e vários dos jogadores campeões quatro anos depois. Em entrevista ao Lance!, o ex-atleta relembrou a evolução gradual da Alemanha e explicou que a queda da atual geração tem relação com um desequilíbrio na formação.

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— O trabalho até 2014 foi de renovação e reformulação na formação, combinando a força que os alemães já tinham com a parte técnica, implementado pelo treinador Joachim Löw. Chegou longe em 2006, na Eurocopa de 2008, em 2010, na Eurocopa de 2012, uma ascensão constante até o Mundial de 2014. Era uma geração de jogadores de qualidade, mas com mentalidade muito forte, a grande diferença para os que vieram depois. O problema na formação dos jogadores da Alemanha é esse: não conseguem juntar essas duas partes, a técnica que tanto melhorou nos últimos anos com a mentalidade que fez da Alemanha a força que é mundialmente — analisou.

Jogadores da Alemanha comemoram um dos sete gols no Minerão contra o Brasil na Copa do Mundo de 2014
Jogadores da Alemanha comemoram um dos sete gols no Minerão, contra o Brasil, na semifinal da Copa do Mundo de 2014 (Foto: Adrian Dennis / AFP)

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A temida conclusão: Alemanha não é a mesma

Com uma população três vezes maior que a da Alemanha, o Brasil continua produzindo ao menos um craque por geração, mesmo com problemas estruturais. É o caso de Neymar, que não entrou em campo no 7 a 1 por lesão, e agora de Vini Jr, um dos melhores jogadores desta Copa do Mundo. Enquanto isso, os alemães se mostram carentes de atletas desequilibrantes.

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A queda da seleção alemã no Mundial de 2018 permitia a justificativa de que a base do time campeão não tinha mais a mesma gana de quatro anos antes, ou mesmo que os jogadores sofreram declínio físico. Agora, em 2026, um time inteiramente novo repetiu o fracasso. E não há fuga para a constatação inevitável: a Alemanha não assusta mais. A frieza deu lugar à apatia.

— Sim, certamente é o que parece — afirmou o atacante Kai Havertz, quando questionado se a Alemanha havia virado um "time de segundo escalão".

O capitão Joshua Kimmich virou símbolo dos tempos sombrios do futebol alemão: o ídolo do Bayern de Munique fez parte dos elencos de 2018, 2022 e 2026. O jogador polivalente surgiu como promessa, o ar fresco da geração vitoriosa, e se tornou o maior líder da equipe. Após mais uma eliminação, o volante também constatou a queda de qualidade da equipe nacional.

— Nós acreditamos em nós mesmos, mas, no final das contas, não foi suficiente. Talvez também falte um pouco de qualidade, porque temos de admitir que, quando você olha para trás e vê os quatro jogos, não foi suficiente, não foi sempre realmente bom. O primeiro jogo foi muito bom. No segundo, tivemos um pouco de sorte. Depois, nós perdemos dois jogos. Isso não é suficiente para a Alemanha — declarou em entrevista à "CazéTV".

O técnico Julian Nagelsmann também compartilha da mesma percepção.

— Ser eliminado na primeira fase (de mata-mata) não é suficiente para o futebol alemão. Esta é a terceira eliminação consecutiva, então não fazemos mais parte da elite dos times. Estou decepcionado — lamentou.

Joshua Kimmich esconde o rosto com a camisa em decepção após eliminação da Alemanha na Copa do Mundo de 2026
Joshua Kimmich reage à decepção com mais uma eliminação precoce pela Alemanha, agora na Copa do Mundo de 2026 (Foto: Jewel Samad / AFP)

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Incredulidade e reflexões na imprensa alemã

Pesadelo. Vergonha. Humilhação. Essas três palavras foram usadas pelos principais jornais alemães para descrever a derrota nos pênaltis para o Paraguai. Para o "Süddeutsche Zeitung", inclusive, a eliminação foi ainda mais vergonhosa do que as consecutivas quedas na fase de grupos. Quase todos os periódicos admitiram sem hesitação que o adeus precoce foi merecido.

Entre tantas reflexões na Alemanha, uma se repete: um país preso entre o passado e o presente. A geração de 2014, que hoje tem representantes em diferentes veículos alemães como comentaristas, deixa marcas e faz o povo clamar por outro time intenso, vertical, simbolizado pelo histórico 7 a 1. Mas o elenco atual aponta para outras características: menos intensidade, mais cadência.

As considerações que o tetracampeonato alemão deixou talvez não tenham sido tão precisas, porque o futebol é dinâmico. Um time vitorioso e encantador comprova que o projeto conduzido até ali foi bem-sucedido, mas não garante sucesso nos anos seguintes.

O time de 2014 era uma evolução do tiki-taka espanhol, com apreço à posse de bola, porém mais verticalidade e intensidade. Schweinsteiger e Khedira ofertavam poder de marcação. Kroos regia o time. Özil e Müller acrescentavam objetividade aos ataques. Schürrle fazia perfeito trabalho sem bola. E Klose transformava o domínio em gols.

O futebol ganhou velocidade, mas a seleção alemã curiosamente não soube acompanhar. As peças mais técnicas que surgiram desde então, como Florian Wirtz, Jamal Musiala e Kai Havertz, carecem de companheiros mais rápidos e objetivos. O resultado: uma Alemanha morosa, que passou 75% do tempo com a bola contra o Paraguai, mas só conseguiu marcar em um cruzamento.

Wirtz tenta levar a Alemanha ao ataque, marcado por Braian Ojeda, na Copa do Mundo de 2026
Wirtz tenta levar a Alemanha ao ataque, marcado por Braian Ojeda, do Paraguai; meia foi a maior contratação da história do Liverpool (Foto: Mauro Pimentel / AFP)

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Os jogadores que a Alemanha não conseguiu formar

De um gol ao outro, os ciclos que sucederam o título apresentaram lacunas na formação de jogadores. O surgimento do revolucionário Manuel Neuer não parece ter sido uma tendência. Aos 40 anos e bem longe do auge, o goleiro foi chamado de volta pelo técnico Julian Nagelsmann pela falta de concorrentes. Também já longe do seu melhor nível, Leroy Sané foi a solução para tentar acelerar o jogo pelos lados. No comando de ataque, Deniz Undav até tornou-se grata surpresa na fase de grupos, mas não mascarou a falta de um matador confiável no elenco.

Já em 2014, o Bayern de Munique tinha sucesso com dois pontas estrangeiros: o holandês Arjen Robben e o francês Franck Ribéry. Atualmente, os extremos do gigante alemão são o francês Michael Olise e o colombiano Luis Díaz. Isso mostra que o futebol alemão pouco produz atletas de elite que mesclam técnica, velocidade e imposição física. Antes, talvez, tais características não fossem imprescindíveis, ainda mais para um time com talentos como Kroos e Özil. Hoje, são, como mostrou a falta de opções de desequilíbrio diante da bem postada defesa do Paraguai.

A favorita França tem de sobra o que falta à Alemanha: Dembelé, Mbappé, Doué, Olise, Barcola... A Espanha é uma quando tem Lamine Yamal e outra, inferior e tediosa, sem o jovem astro. O Brasil depende completamente do talento de Vini Jr.

A conclusão é que a formação no futebol alemão não mudou tanto de 2014 para cá. Mas talvez seja esse o problema: o otimismo a longo prazo foi precipitado. A constância não garante o sucesso, mas sim a adaptação. O futebol muda, e quem não se antecipa fica para trás. Será que a Alemanha também é capaz de produzir um Yamal ou Vini Jr? E até lá, ainda será essa a resposta?

Vini Jr finaliza na trave após grande jogada em Brasil x Japão pela Copa do Mundo
Vini Jr finaliza na trave após deixar deixar defensores japoneses para trás em jogo dos 16 avos da Copa do Mundo (Foto: Molly Darlington / AFP)

Ressalvas justas: lesões pioraram a situação da Alemanha na Copa

Quase todos os países sofreram com lesões nesta Copa do Mundo, é verdade. Mas os infortúnios da Alemanha até este Mundial também precisam ser mencionados. A vaga de ponta ocupada por Sané poderia ser dos lesionados Serge Gnabry e Lennart Karl, uma das promessas mais animadoras do futebol alemão. O ótimo zagueiro Nico Schlotterbeck, por sua vez, se machucou já no primeiro jogo do Mundial. E a necessidade de retorno de Neuer passa pelas consecutivas lesões de Ter Stegen, antes considerado o seu sucessor natural, cuja carreira desabou aos 34 anos.

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Futuro da Alemanha até a próxima Copa do Mundo

A imprensa alemã levanta muitas dúvidas sobre a continuidade do técnico Julian Nagelsmann, de apenas 38 anos. A contratação de um técnico jovem almejava trazer frescor e novas perspectivas para a seleção. Mas o resultado foi mais do mesmo. Para Cacau, o trabalho ruim do ex-Bayern de Munique é sintomático da situação do futebol no país.

— Um dos grandes desafios da Alemanha na formação são os treinadores. Muitos querem implementar a própria mentalidade, o próprio pensamento, em vez de trabalhar para elevar o talento dos jogadores ao máximo, explorando a qualidade individual. Inclusive, no meu ponto de vista, foi o que aconteceu com a seleção. Não que fosse muito forte ou uma das favoritas, claro que não, mas podia chegar bem mais longe. O treinador queria controlar cada passo e escalou mal. Demorou a apostar no Undav, insistiu no Sané, que não trouxe resultado ofensivo. Então, várias decisões minaram o time, e ele não conseguiu extrair o melhor — acrescentou o ídolo do Stuttgart, do qual é porta-voz hoje.

Julian Nagelsmann, técnico da Alemanha, passa orientações ao meio-campista Goretzka durante jogo contra o Paraguai
Julian Nagelsmann, técnico da Alemanha, passa orientações ao meio-campista Goretzka durante jogo contra o Paraguai (Foto: Jewel Samad / AFP)

O desejo dos torcedores e jornalistas tem nome: Jürgen Klopp. Multicampeão por Borussia Dortmund e Liverpool, o revolucionário treinador virou diretor do Grupo Red Bull. No cargo, acompanha de perto a formação de jogadores no futebol alemão. O currículo dispensa comentários. Para os jornais germânicos, aliás, Klopp já foi uma sombra para Nagelsmann durante os três anos de trabalho.

O alemão de 59 anos não necessariamente trará soluções imediatas para o seu país, mas seria um nome de confiança para permitir mudanças necessárias. Uma seleção gigante que não sabe o que é disputar as oitavas de final da Copa do Mundo há 12 anos só tem uma coisa a perder: tempo. O 7 a 1 será sempre o fantasma brasileiro, mas também vai se tornando o alemão: lembranças remotas de um país que assustava qualquer adversário.

— No momento, eu não vejo uma geração chegando para mudar a situação toda. Mas acredito que, com um bom trabalho, o Jürgen Klopp ajudaria até no conceito de formação do país. Ele traria esperanças. No momento, o que impera aqui na Alemanha é o pessimismo e a decepção — concluiu Cacau.

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