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'Filhos adotivos': as histórias dos brasileiros que realizaram o sonho da Copa do Mundo por outras nações

Ex-atletas naturalizados por potências europeias conversaram com o Lance!

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Pedro Werneck
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 27/03/2026
08:00

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O Brasil é o maior exportador de jogadores do mundo. Com tantos brasileiros de destaque espalhados pelo globo, nem todos realizam o sonho de defender a Seleção. Assim, seja por razões meramente esportivas ou por pertencimento cultural, atletas nascidos no país do futebol veem na naturalização uma grande oportunidade, ainda mais diante da possibilidade de jogar uma Copa do Mundo. É o caso de Maurício, do Palmeiras, que deve estrear por Paraguai nesta sexta-feira (27).

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No Mundial deste ano, como em todas as edições desde 1990, brasileiros defenderão outras seleções. Nomes prováveis são Matheus Nunes (Portugal), Lucas Mendes (Catar), Edmílson Júnior (Catar), Maurício (Paraguai) e Carlos Coronel (Paraguai).

Por trás das mudanças de vínculo federativo, existem grandes histórias. Alguns jogadores optam por defender um país para honrar um pai, mãe ou avô. Outros recuperam uma ascendência estrangeira apenas para ter a chance de jogar o futebol de seleções. Mas muitos desenvolvem relação com novas nações por meio das carreiras esportivas. Exemplos são Marcos Senna e Cacau, que conversaram de forma exclusiva com o Lance!.

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"Filhos adotivos" que jogaram a Copa do Mundo

Nascidos no Brasil, Marcos Senna e Cacau construíram carreiras longevas na Europa e realizaram o sonho de jogar o Mundial por outras nações: Espanha e Alemanha, respectivamente. Coincidentemente, fizeram parte de gerações históricas dos dois países, que venceram a Copa do Mundo somente quatro anos após suas participações.

No caso do brasileiro-espanhol, primo do também ex-meia Marcos Assunção, a naturalização já teve o incentivo esportivo. Em 2002, aos 26 anos, o volante trocou o São Caetano pelo Villarreal. Quatro anos depois, pouco lembrado no país de origem, foi reconhecido na Espanha.

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— Nunca sonhei que jogaria por uma seleção de outro país. Mas tudo aconteceu muito rápido: cheguei em 2002, em 2005 fiz ótima campanha até a semifinal da Champions League e chamei atenção do treinador, até porque nunca tinha atuado pelo Brasil. Ele estranhou isso, pelo destaque que eu tinha. Então veio o convite no início de 2006, pouco antes da Copa do Mundo. Eu tinha 29 anos, a Seleção Brasileira estava praticamente formada, e atuava em um time até então pouco conhecido no cenário mundial, então pensei que era uma ótima oportunidade de jogar a Copa do Mundo com uma seleção de expressão. Foi uma decisão rápida e fácil. Só precisei confirmar com os meus familiares e todos me apoiaram. Foi a melhor decisão que tomei, me adaptei e fui acolhido. Faria tudo de novo — contou.

A experiência de Senna após a decisão foi a melhor possível. Diferentemente do que se poderia imaginar, não enfrentou desconfiança dos companheiros ou da torcida espanhola, pelo contrário.

— A recepção foi muito boa. Antes de estrear com a seleção, eu já tinha boa reputação na Espanha, nunca fui polêmico, sempre fui bem aceito. O pessoal da seleção, que eu enfrentava nos outros clubes, já me conhecia. E o treinador (Luis Aragonés) era uma figura muito importante, um grande líder e gestor, que tinha o time na palma da mão. Desde o início, deixou claro que eu seria um jogador importante. Foi ótimo. Obviamente quando coloquei a camisa da seleção espanhola pela primeira vez, escutei o hino, foi estranho. Mas já a partir do segundo jogo, com a adaptação e o dia a dia com os outros jogadores, me senti como um filho adotivo, me senti em casa. E assim foi de 2006 a 2010 — relatou.

A história de Cacau é diferente. Primeiro, veio o título de cidadão alemão. Posteriormente, o reconhecimento esportivo. O atacante chegou muito novo à Alemanha, aos 19 anos, e jogou a quinta divisão pelo Türk SV München. Um ano depois, estava na equipe B do Nürnberg. Mais alguns meses e já estava no time principal, jogando a Bundesliga. De lá foi para o Stuttgart, onde viraria ídolo. Em 2008, haviam se passado oito anos no país europeu e chegou o momento de buscar a cidadania. Mas mal sabia ele o impacto que essa decisão teria na sua carreira.

— Nós tomamos essa decisão como família, sem envolvimento da federação ou do clube. Fiz todo o processo sozinho, corri atrás de documentação. Depois que recebi os papéis para ter o passaporte alemão isso se tornou público e, dois meses depois, recebi o convite para a seleção alemã. Meu nome já era muito conhecido na liga, mas para mim foi uma surpresa gigante esse convite. Na época, conversei com a minha mãe, com a minha família, todos se alegraram. Não foi uma decisão difícil — explicou.

A forma como se deu o processo de naturalização de Cacau foi fundamental para evitar a desconfiança. O atacante acredita que, se tivesse tomado essa decisão já pensando em defender a seleção, a recepção poderia ter sido diferente.

— Foi mais fácil do que eu esperava. Muitos jogadores da seleção já me conheciam, como companheiros ou rivais. Joguei com o Philipp Lahm, por exemplo, no Stuttgart. E como a minha história foi contada, sempre bati nessa tecla de que foi uma decisão particular, não foi para jogar na seleção, isso facilitou bastante, não houve desconfiança dos jogadores e torcedores. A recepção foi muito calorosa, o que facilitou para mim — analisou.

Brasil de um lado, brasileiros do outro

Senna, Cacau e tantos outros atletas que buscaram a naturalização cresceram com o sonho de jogar a Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. E parte desse desejo se realizou, é verdade. Mas a participação foi marcada também pelo estranhamento de ver a equipe verde-amarela como rival, que seria ainda maior em um enfrentamento direto. Em 2006, o volante espanhol por pouco não viveu esse desafio.

— Eu estava jogando a Copa do Mundo, concentrado com os companheiros, então não pensava na Seleção Brasileira neste momento, não dava tempo. Mas se tivéssemos passado da França nas oitavas de final, jogaríamos contra o Brasil. Aí seria uma chuva de entrevistas: "um brasileiro jogando contra o Brasil". Essa situação não pude viver, não posso falar, mas adoraria ter vivido essa sensação dupla de jogar contra o meu país de origem. Como seria? Mas não aconteceu, e a seleção espanhola foi uma decisão fantástica — disse o ídolo do Villarreal.

Cacau sempre nutriu sentimento especial pela Seleção Brasileira e a Copa do Mundo: assistindo ao torneio, alimentou o sonho de se tornar jogador. Apesar da trajetória ter sido construída de forma diferente do esperado, o alemão tem muita gratidão por ter participado deste espetáculo.

— Cada passo ali era uma emoção diferente, da primeira convocação até a Copa. Quando saiu a convocação, foi uma alegria gigante poder representar o país que me acolheu, que sempre digo que me adotou. E sem dúvidas sou um filho de Copa do Mundo, sempre acompanhei, vi todos os jogos do Brasil em 1994. Tudo isso me marcou. Mexeu comigo não poder representar uma nação tão forte na Copa do Mundo, mas no fim você está ali como profissional, mesmo sabendo que o Brasil também estava na disputa, que esse encontro poderia acontecer. Sempre tentei conciliar a emoção com o profissionalismo. Mas o mais marcante foi fazer parte de um campeonato que sempre sonhei — confessou.

O atacante até teve oportunidade de enfrentar o Brasil em amistoso, três anos antes do fatídico 7 a 1. Para o bem ou para o mal, já não integrava a seleção alemã no Mundial de 2014 e trata com bom-humor uma possível participação no "pesadelo brasileiro".

— Eu, claro, daria o meu melhor (no 7 a 1), marcaria gols se tivesse oportunidade. Mas não sei qual seria o sentimento. Eu tive oportunidade de jogar contra o Brasil em 2011, em Stuttgart, cantei os dois hinos, com muitos amigos no estádio torcendo por mim e pelo Brasil. Essa emoção não seria diferente no Brasil. Mas provavelmente o meu passaporte seria retido, não poderia voltar para o Brasil, com o desfecho daquela semifinal (risos) — brincou.

Eternos admiradores da Seleção

As carreiras em equipes rivais, porém, não mudaram o sentimento pela Seleção Brasileira. Os dois ex-jogadores se consideram torcedores das suas duas nações.

— Eu torço muito pelo Brasil, adoraria que ganhasse essa Copa do Mundo, já se passaram muitos anos. Mas também torço muito pela Espanha. Sou privilegiado de ter duas grandes seleções para torcer. Sempre vem a pergunta: e se jogarem os dois? Empate, pênaltis e que vença o melhor — falou Senna.

— É sempre um paradoxo para mim. Já tenho mais tempo de Alemanha do que tive no Brasil. Isso diz bastante. Por outro lado, minhas raízes são brasileiras. Eu cresci vendo o futebol brasileiro, tendo o sonho de jogar pela Seleção. E hoje eu realmente torço para as duas seleções. Meus filhos são 100% torcedores da Alemanha, se identificam com os jogadores, e eu fico nesse meio-termo, sempre olhando para o Brasil. O último sucesso da Alemanha foi recente, em 2014, apesar de não ter passado da primeira fase nas últimas Copas. Então seria bom o Brasil voltar a vencer um título, nosso povo está precisando — revelou Cacau.

Pertencimento que só aumentou

Os laços de Senna e Cacau com suas novas nações se estreitaram com o tempo. O espanhol jogou no Villarreal de 2002 a 2013 e retornou ao país após a aposentadoria. Hoje, é diretor de relações institucionais do clube. Já o alemão, atuou pelo Stuttgart até 2014 e também retornou à Alemanha depois de se aposentar. Atualmente, é porta-voz da equipe. Com famílias vinculadas às "nações adotivas", ambos já ultrapassam 20 anos na Europa.

— Eu sempre digo que me sinto um filho adotivo, que primeiro estranha a casa nova, mas se adapta e se sente mais um. Eu tenho sangue brasileiro nas veias, mas a Espanha me adotou. Eu sou muito grato, foi uma das melhores decisões que tomei na vida. Meus filhos nasceram aqui, eu e minha esposa pudemos dar qualidade de vida para eles, que era meu principal objetivo. Já são 23 anos e acredito que não devo sair daqui — declarou Marcos Senna.

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Carreiras de Senna e Cacau por seleções

JogadorJogosGolsAssistênciasTítulos

Marcos Senna (2006-2010)

28

1

0

Eurocopa (2008)

Cacau (2009-2012)

23

6

3

Nenhum

Os brasileiros que jogaram Copa do Mundo por outros países

  1. 1934: Filó (Itália)
  2. 1962: Angelo Sormani (Itália)
  3. 1962: José Altafini/Mazola (Itália)
  4. 1990: Alexandre Guimarães (Costa Rica)
  5. 1994: Zaguinho (México)
  6. 1998: Zaguinho (México)
  7. 1998: Clayton (Tunísia)
  8. 1998: Wagner Lopes (Japão)
  9. 1998: Luís Oliveira (Bélgica)
  10. 2002: Clayton (Tunísia)
  11. 2002: Alex Santos (Japão)
  12. 2006: Alex Santos (Japão)
  13. 2006: Sinha (México)
  14. 2006: Francileudo Santos (Tunísia)
  15. 2006: Marcos Senna (Espanha)
  16. 2006: Deco (Portugal)
  17. 2010: Pepe (Portugal)
  18. 2010: Liédson (Portugal)
  19. 2010: Marcus Túlio Tanaka (Japão)
  20. 2010: Benny Feilhaber (Estados Unidos)
  21. 2010: Cacau (Alemanha)
  22. 2014: Pepe (Portugal)
  23. 2014: Diego Costa (Espanha)
  24. 2014: Thiago Motta (Itália)
  25. 2014: Eduardo da Silva (Croácia)
  26. 2014: Sammir (Croácia)
  27. 2018: Pepe (Portugal)
  28. 2018: Diego Costa (Espanha)
  29. 2018: Mário Fernandes (Rússia)
  30. 2018: Thiago Alcântara (Espanha)
  31. 2018: Rodrigo Moreno (Espanha)
  32. 2018: Bruno Alves (Portugal)
  33. 2018: Thiago Cionek (Polônia)
  34. 2018: Celso Borges (Costa Rica)
  35. 2018: Giovani dos Santos (México)
  36. 2018: Jonathan dos Santos (México)
  37. 2022: Pepe (Portugal)
  38. 2022: Matheus Nunes (Portugal)
  39. 2022: Otávio (Portugal)

Confira outros trechos das entrevistas com a dupla:
➡️ Marcos Senna apoia Vini Jr em luta contra o racismo e pede punições severas a infratores
➡️ Cacau defende Vini Jr e reflete sobre racismo na Alemanha: 'Conscientes da história'
➡️ Marcos Senna relembra ausência na Copa do Mundo de 2010: 'Ele se arrependeu'
➡️ Brasileiro naturalizado alemão compara seleções antes da Copa do Mundo: 'Mais forte'
➡️ Marcos Senna vê Espanha com mais favoritismo que o Brasil na Copa do Mundo

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