Análise tática do Guffo: a eliminação do Brasil e o futuro da Seleção
Ancelotti escolheu uma estratégia arriscada e pagou o preço por isso

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A eliminação do Brasil para a Noruega dói de um jeito diferente das quedas em outras Copas do Mundo Bélgica (2018) ou Croácia (2022), pois não foi uma derrota na trocação franca ou no detalhe de um jogo onde os dois times buscaram a vitória. Foi a eliminação da passividade. O que mais frustra é a sensação amarga de que a Seleção Brasileira se despediu da Copa do Mundo sem sequer tentar dominar o jogo. O Brasil escolheu uma estratégia arriscada e pagou o preço por isso.
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O mecanismo do fracasso passou por uma escolha radical de Carlo Ancelotti. É compreensível que, diante de um ciclo caótico e desfalques pesados (Paquetá, Raphinha, Neymar, e antes Estevão, Rodrygo, Militão), o plano fosse atrair a Noruega para explorar o campo aberto com Vini Jr. e Rayan. Jogar em transição não é pecado. O erro foi levar isso ao extremo do conservadorismo. O Brasil não ativou gatilhos de pressão, não agrediu o portador da bola e entregou o controle territorial de forma quase absoluta, apostando todas as fichas no erro alheio.
A Noruega teve muito mérito contra a Seleção
Do outro lado, a Noruega leu a armadilha e também se recusou a correr riscos. O jogo virou um xadrez arrastado. Os noruegueses sabiam que, se errassem passes curtos no meio, dariam o contra-ataque letal que o Brasil queria. A solução deles foi uma viagem aos anos 90: bola longa do goleiro Nyland direto para Sorloth ou Haaland brigarem no alto, empurrando a linha defensiva brasileira para trás. Um jogo de paciência, de briga por segunda bola, onde a Noruega cozinhou o Brasil em banho-maria sem se expor.
É nesse contexto de passividade que as substituições precisam ser lidas. A entrada de Neymar não foi a causa da derrota, como a emoção dos especialistas das redes sociais gosta de apontar. O problema foi a total falta de sentido tático da mexida. Colocar um jogador com a cadência e a visão de Neymar para atuar como um "9" num time que se recusa a ter a posse de bola e continua entrincheirado em bloco baixo é um desperdício. Se era para acionar o camisa 10, a postura do time inteiro precisava mudar para ocupar o campo de ataque. Como isso não aconteceu, ele virou uma peça nula no tabuleiro. Veja os números finais do jogo no quadro abaixo.

No fim das contas, defender durante 90 minutos contra um trator como Haaland beira o impossível. O gol norueguês nasce de um desajuste circunstancial, um buraco deixado após uma movimentação de Ederson na cobertura, mas é o sintoma de um time que flertou com o perigo o tempo todo. O Brasil teve suas chances jogando em transição, é verdade, mas abdicou do direito de tentar se impor. Faltou coragem para mudar o plano A quando ficou claro que a Noruega não daria o campo aberto de bandeja. Veja a distribuição de passos no quadro abaixo.

Como 2030 começa para a Seleção Brasileira?
Agora, a poeira baixa e o relógio zera apontando para 2030. E a grande notícia para a Seleção Brasileira é que Carlo Ancelotti, enfim, terá um ciclo completo. O trabalho até aqui foi um gerenciamento de crise, atropelado por lesões em série e montado em caráter emergencial durante a própria Copa. Ancelotti fez o que pôde para criar um time reativo e competitivo no susto, mas o Brasil exige e precisa de muito mais do que apenas sobrevivência tática.
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O futuro passa por transformar os lampejos de evolução que vimos na Copa em um modelo de jogo sustentável. O Brasil começou a achar passes por dentro, a usar Matheus Cunha como um falso 9 para gerar fluidez e a povoar o meio-campo com Bruno Guimarães e Paquetá. Não sei se esses serão os jogadores, mas esse pode ser o caminho. Com quatro anos de trabalho, Ancelotti tem a missão de construir um time que saiba ser agressivo sem a bola e dominante com ela. A geração de Estêvão, Endrick, Rodrygo, Cunha, João Pedro, Rayan e Vini Jr. precisa de um ecossistema onde o talento não viva apenas de contra-ataques.
A Copa nos ensinou que o conservadorismo extremo pune quem tem talento para fazer mais. O ciclo até 2030 será o teste definitivo para Ancelotti provar que consegue unir a solidez defensiva europeia com a imposição técnica que o DNA brasileiro exige. Bola ao centro, o cenário está limpo, o treinador tem o respaldo e a matéria-prima é farta. Se montar um time competitivo que queira mais que apenas apostar no erro do adversário, a expectativa é que, com tempo e processo, o Brasil volte a entrar em campo para ser o dono do jogo.
ARTES E DADOS: SportsBase
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Gustavo Fogaça escreve sua coluna no Lance! nas noites de segunda e quinta-feira. Leia outras publicações do colunista nos links abaixo:
➡️ Sem Paquetá, como o Brasil pode enfrentar a Noruega?
➡️ O nascimento de um Brasil diferente
➡️ Quatro destaques da Copa até aqui

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