Análise: Ancelotti desvia da pressão por Neymar, mas encara clamor pelo menino Endrick
Irritação de jogadores e técnico ficou nítida após estreia ruim do Brasil na Copa

Carlo Ancelotti convocou Neymar para se livrar de pressão na Seleção Brasileira. Mas talvez não seja tão simples. Isso porque, em cada foto de Neymar em atividades, mesmo sem bola, as questões em relação ao astro de fato giram em torno de quando e se poderá ajudar, ainda que já não seja mais o menino Ney. Porém, depois do primeiro jogo, com ou sem o astro, as críticas vieram. Não foram poucas. Suficientes para tornar a irritação do italiano e dos jogadores mais do que perceptível. E, com elas, um clamor popular por oportunidades ao menino Endrick.
De medalhões, como Alisson, a jogadores com menos bagagem com a camisa amarela, como Matheus Cunha, as respostas atravessadas a determinadas perguntas deixaram cristalino o descontentamento com as cobranças, e obviamente também com a atuação da equipe. O atacante, por exemplo, questionado sobre até onde acreditava que o Brasil chegaria em função do desempenho na estreia, disse não ser vidente. Alisson, ao analisar sua falha no gol de Marrocos, se apressou em responder que a equipe toda falhou.
O técnico não fugiu à regra e, se não chegou a ser grosseiro, foi seco ao responder na saída de campo sobre o empate. Foi incitado a fazer uma análise do jogo e se limitou a dizer que o time precisa melhorar. Quando a pergunta foi se havia algo específico a melhorar, somente disse um "não" e foi-se embora. E isso somente com um resultado aquém do esperado em uma estreia. Fica, então, a pergunta. Adiantou levar Neymar, se o motivo foi mesmo o revelado por Davide Ancelotti à BBC? — de que foi uma decisão tomada pouco antes da convocação porque qualquer resultado negativo seria atribuído à ausência do jogador.
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A resposta só virá pelos pés do próprio craque quando reunir condições de jogo. Mas, se o italiano acreditava que escaparia de uma avalanche de críticas ao levar uma equipe ainda sem identidade — foram 13 escalações diferentes em 13 jogos até agora —, a repercussão da estreia tratou de explicar como é o futebol no Brasil. A mesma impaciência dele e dos jogadores com o questionamento se vê nos torcedores com as explicações e a atuação de boa parte dos atletas.

A renovação de contrato com a CBF até 2030 trouxe tranquilidade, respaldo. Mas isso se limita ao ambiente interno. O comportamento popular brasileiro em relação ao futebol é singular. Vencer muitas vezes não basta; não custa lembrar que há poucos meses Filipe Luís, multicampeão em 2025, foi demitido do Flamengo após uma vitória por 8 a 0. E, nesse contexto, em vez de cobranças pela escalação de Neymar, crescem os questionamentos sobre a não utilização de garotos como Rayan e, especialmente, Endrick.
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Italiano evita queimar etapas com Endrick
Ancelotti não quer queimar etapas com os garotos, mas terá de enfrentar esse dilema em relação às suas convicções. Não sobra talento nesta versão da Seleção Brasileira. E este está concentrado, em boa parte, nos mais jovens. Não se trata do talento necessário para jogar com qualidade em alto nível, para ser competente. É sobre ter o dom de fazer a diferença.

É o que se espera de um Vini Jr., de um Raphinha, ou de um Luiz Henrique. É o que se pode esperar também de Endrick e Rayan. O potencial existe, se farão a diferença, não será enquanto estiverem sentados no banco. Ancelotti desarmou a armadilha da pressão do imaginário do menino Ney, que já deixou de ser menino e o mesmo jogador de outrora há algum tempo. Agora tem de desarmar a pressão por dar oportunidade a outros meninos, especialmente o que já comandou no Real Madrid.
Vê-se no dilema entre sua convicção de não queimar etapas, e de morrer abraçado com a falta de diferencial nessa Seleção Brasileira, além de Vini Jr., cuja dependência da equipe anda tão alta que todos os rivais já sabem por onde o Brasil tentará resolver.
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