Fim de uma era: o legado de Neymar na Seleção Brasileira
Camisa 10 deixa a Amarelinha após 16 anos de protagonismo e recordes

Antes de tudo, fica uma constatação difícil de contestar: Neymar deixa a Seleção Brasileira como um dos maiores jogadores de sua história e, ao mesmo tempo, como um dos personagens mais complexos que já vestiram a camisa amarela. A declaração dada após a vitória do Santos sobre a Universidad Central praticamente encerra qualquer dúvida sobre o futuro do camisa 10.
— Meu momento na Seleção já foi. Fiz história, fui muito feliz, dei meu sangue, minha vida. Sempre briguei e lutei pela Amarelinha, mas agora não quero mais — disse o jogador.
A frase coloca um ponto final em uma trajetória de 16 anos que misturou números históricos, atuações memoráveis, lesões devastadoras, frustrações em Copas do Mundo e um protagonismo que chegou cedo demais. O próprio técnico Carlo Ancelotti, em entrevista ao ge nesta quarta-feira (29) encerrou o ciclo do jogador na Seleção Brasileira.
Neymar fecha um período histórico na Seleção após 16 anos entre recordes, lesões e protagonismo
Camisa 10 encerra passagem como maior artilheiro do Brasil e personagem central de uma geração marcada por expectativas e obstáculos.
O início na Seleção
A história de Neymar com a Seleção Brasileira começou antes mesmo de vestir a camisa amarela. Em 2010, aos 18 anos e vivendo seus primeiros meses como fenômeno do Santos, o atacante chegou a ser pedido por boa parte da opinião pública na lista de Dunga para a Copa do Mundo da África do Sul. O treinador, porém, optou por deixá-lo fora da convocação.
Pouco depois daquele Mundial, iniciou-se uma das trajetórias mais marcantes da história da Seleção.
O destino reservou um simbolismo curioso. Neymar estreou justamente no MetLife Stadium, em Nova Jersey, em amistoso contra os Estados Unidos. Naquela noite, marcou de cabeça seu primeiro gol pela Seleção Brasileira e apresentou ao mundo aquele que seria o novo protagonista do futebol nacional.
Dezesseis anos depois, foi no mesmo estádio que tudo terminou.
Na derrota por 2 a 1 para a Noruega, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, Neymar entrou no segundo tempo e marcou, de pênalti, o único gol brasileiro. O gol número 80 com a camisa da Seleção, acompanhado de 58 assistências em 130 partidas, encerrou sua caminhada como maior artilheiro da história da equipe nacional.
Neymar e as Copas do Mundo
Mais do que os números, porém, sua trajetória exige contexto.
Quando Neymar assumiu o protagonismo da Seleção, o Brasil atravessava um processo de renovação acelerado. Em vez de dividir responsabilidades com uma geração vencedora, acabou carregando praticamente sozinho o peso de recolocar o país no topo do futebol mundial.
Na Copa de 2014, disputada em casa, tinha apenas 22 anos. Em outras gerações, atletas dessa idade eram cercados por líderes consagrados. Kaká e Adriano Imperador poderiam chegar ao Mundial com 32 anos, enquanto Ronaldinho Gaúcho teria 34. Nenhum deles fazia mais parte do projeto da Seleção para o torneio disputado no Brasil.
A responsabilidade caiu sobre Neymar.
O curioso é que Ronaldinho, apenas um ano antes, havia sido o principal nome do Atlético-MG na conquista inédita da Libertadores, mostrando que ainda possuía futebol para contribuir. Kaká também vivia seus últimos anos em alto nível na Europa. Ainda assim, a nova Seleção passou a girar exclusivamente em torno do camisa 10.
E ele respondeu.
Em 2013, comandou a conquista da Copa das Confederações, talvez o auge de sua relação com a Seleção. Foi eleito o melhor jogador do torneio, marcou em praticamente todos os jogos decisivos e fechou a campanha balançando as redes na vitória por 3 a 0 sobre a Espanha, então campeã do mundo e bicampeã da Eurocopa. Aquele time encantou o país e fez crescer a expectativa para a Copa seguinte.
No Mundial de 2014, Neymar era novamente o principal destaque brasileiro. Marcou quatro gols nas primeiras fases e conduzia a equipe até sofrer a joelhada de Zúñiga, nas quartas de final contra a Colômbia. A lesão na coluna encerrou sua participação justamente quando vivia o melhor momento da carreira com a camisa da Seleção.
Sua ausência mudou completamente o destino daquele Mundial. Dias depois, o Brasil sofreu a histórica derrota por 7 a 1 para a Alemanha.
As Copas seguintes também foram marcadas pelas limitações físicas.
Em 2018, chegou à Rússia após fraturar o quinto metatarso do pé direito meses antes do torneio. Recuperado às pressas, disputou a competição longe da condição física ideal.
No Catar, em 2022, uma nova lesão apareceu logo na estreia. A entorse no tornozelo direito o tirou da fase de grupos. Voltou nas oitavas de final, brilhou diante da Coreia do Sul com um gol e uma assistência e protagonizou um dos momentos mais marcantes da carreira ao marcar um golaço na prorrogação contra a Croácia. O empate sofrido nos minutos finais e a eliminação nos pênaltis transformaram outra grande atuação em mais uma frustração.
Em 2026, a história voltou a se repetir. Convocado por Carlo Ancelotti mesmo com uma lesão grau 2 na panturrilha direita, Neymar passou praticamente toda a fase de grupos em recuperação. Não entrou diante do Japão na primeira fase de mata-mata.. Contra a Noruega, marcou seu último gol pela Seleção antes da eliminação.
Nem tudo são Copas do Mundo
Nem toda sua trajetória, entretanto, foi construída apenas em Copas.
Neymar conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e escreveu um dos capítulos mais emblemáticos do futebol brasileiro quatro anos depois. No Rio de Janeiro, marcou um golaço de falta contra a Alemanha na decisão, converteu a cobrança decisiva nos pênaltis e comandou a inédita conquista da medalha de ouro olímpica, encerrando um dos maiores jejuns da história do futebol nacional.
Também viveu momentos turbulentos.
Na Copa América de 2015, no Chile, foi expulso após o apito final da partida contra a Colômbia e recebeu suspensão de quatro jogos, encerrando precocemente sua participação no torneio. Em outros momentos, conviveu com críticas por seu comportamento, polêmicas extracampo e pela enorme expectativa que sempre o acompanhou.
Ainda assim, sua produção individual dificilmente encontra paralelo no futebol brasileiro recente.
Além de terminar como maior artilheiro da Seleção, Neymar superou Pelé em gols oficiais, tornou-se um dos maiores assistentes da história da equipe e participou diretamente de 138 gols vestindo a camisa amarela. Foram 80 gols e 58 assistências em 130 jogos.
Seu legado, contudo, vai além das estatísticas.
Neymar foi o rosto da Seleção durante uma geração inteira. Carregou responsabilidades normalmente divididas entre jogadores mais experientes, suportou a pressão de substituir ídolos históricos e enfrentou quatro Copas do Mundo marcadas por lesões justamente nos momentos decisivos.
Ao anunciar que "seu momento na Seleção já passou", o camisa 10 encerra um ciclo que jamais será lembrado apenas pelos títulos — ou pela ausência deles. Será lembrado pelo talento raro, pelos recordes, pela capacidade de decidir partidas e pela sensação permanente de que o futebol brasileiro viu um dos maiores jogadores de sua história ficar, repetidas vezes, a poucos centímetros de viver seu maior sonho.

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