Lúcio de Castro: 'Eu peço um minuto de silêncio'

O futebol ainda teima em nos surpreender com a arte da vida real

PorLúcio de Castro
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
24/07/2026 07:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Pedro comemora gol pelo Flamengo contra a Chapecoense no Brasileirão
Pedro comemora gol pelo Flamengo contra a Chapecoense no Brasileirão (Foto: Rafael Diego/Agencia Enquadrar/Folhapress)

É preciso iniciar a coluna de hoje com um pedido de desculpas.

Aos leitores e leitoras.

Sim, meu nobre leitor, minha nobre leitora, peço desculpas por ainda não estar pronto para falar sobre a rodada do Campeonato Brasileiro.

Por não ter estado muito atento ao Atlético-MG x Bahia que marcou a volta da disputa. E tampouco aos tantos outros jogos que já vieram na semana que vai acabando.

A verdade é que ainda não estou pronto.

Pronto para os bolinhos de jogador cercando o árbitro.

Pronto para ver Wilton Pereira Sampaio e Rafael Klauss voltarem ao "Modo Brasileirão" de apitar.

Pronto para ver a volta das pantomimas em forma de simulação que na Copa foram tão bem coibidas. Pronto para um monte de coisa. Até mesmo para as resenhas falando de 400 jogos por rodada.

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Sei que daqui a pouco a coisa pega por embalo. Mas, me perdoem, por enquanto, ainda não.

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Luto

Sei que o futebol, como a vida, não dá tempo de lamber as feridas.

As chagas abertas no peito desse cidadão que vem de longe e já viu tanta coisa bonita em futebol e mesmo com a mítica camisa amarela.

Desse amarelo que vai derretendo a cada Copa. E virando algo tão desbotado, pálido. Desmaiado, para ficar na ótima definição de sinônimo que o velho Aurélio me sugere.

Respeitem meu luto.

Pedindo socorro a Noel, que, em sua genialidade, pode traduzir o sentimento atual pela Seleção Brasileira muito melhor do que eu.

"O meu samba está de luto/Eu peço o silêncio de um minuto/Homenagem à história/De um amor cheio de glória/Que me pesa na memória".

Meu silêncio de um minuto. Em homenagem à história. Desse amor cheio de glória.

Parece incrível como o verso de Noel consegue sintetizar tão bem o que vamos vivendo em relação a esse arremedo de seleção. Que se desmilingue a cada dia nos desmandos de sua cartolagem.

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O horror de constatar uma gente tão inepta no comando.

Saber que a vergonha posta em campo não têm a menor probabilidade de se transformar e ressurgir das cinzas. Que nada está sendo feito ou será feito para mudar esse quadro, salvo vídeos patéticos feitos por IA. Um constrangimento sem fim.

Por uma razão muito simples: os que lá estão, sentados em vencimentos muito maiores que os de executivos de grandes corporações, não têm a menor vaga ideia de como mudar essa realidade.

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O máximo que conseguem é pagar aos amigos dos reis valores milionários e pouco transparentes para inacreditáveis e surreais convocações transformadas em espetáculo. Espetáculo do que mesmo?

Perdoai Pelé, Mané, Mestre Ziza, Zico, Romário e tantos que construíram essa glória. Eles não sabem o que fazem. A bem da verdade, eles não tem a menor ideia do que fazem.

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Por enquanto, apenas respeitem meu luto. "Peço o silêncio de um minuto", como o poeta maior do samba. O luto por uma memória tão significativa que assombrou o mundo e agora é esse amarelo pálido.

Honrar o luto é um dos rituais mais significativos de um povo.

Ressignifica nossas emoções.

Reorganiza nossa memória.

Na ausência de qualquer perspectiva de ressurreição, honremos o luto por nossa seleção.

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Pedro comemora gol pelo Flamengo contra a Chapecoense no Brasileirão
Pedro comemora gol pelo Flamengo contra a Chapecoense no Brasileirão (Foto: Liamara Polli/AGIF/Folhapress)

Pedro

O futebol é tão espetacular que coisas assim acontecem.

Jurei uma coluna inteira acima que ainda não dava para falar de Campeonato Brasileiro.

Que era preciso respeitar o luto.

Sigo achando isso.

Mas é que de repente...

Pedro oferece um recital na noite de quarta contra a Chapecoense.

E a gente tem que falar disso.

Mas como as feridas seguem abertas, também logo me lembro que...

Sim, Ancelotti preferiu levar um ex-jogador que há três anos não jogava bola do que ter ao menos no banco uma alternativa para a chamada "hora do sanhaço", aquela hora em que o passaporte da seleção já está na mão para a viagem de volta e algo tem que ser feito.

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Do alto do maior salário de treinador de seleções do mundo, Ancelotti achou por bem mudar todo o formato da equipe, mudar a posição do melhor jogador do Brasil na Copa até então para... acomodar o ex-jogador em atividade.

E aí ele foi lá e riu da cara de todo mundo.

Pronto, falei.

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