Atlético-MG, Botafogo e Corinthians somam 43% das dívidas no Brasil: 'Sem solução a curto prazo'
Clubes lideram ranking de endividamento e consultor César Grafietti culpa gestão

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Atlético-MG, Botafogo e Corinthians, nesta ordem, respondem por quase metade da dívida líquida de todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro de 2025, ou, mais precisamente, 43% do total. Os números que constam no relatório anual Convocados, da Galápagos Capital, assustam. Foram compilados e analisados pelo economista e consultor financeiro César Grafietti, que explicou ao Lance! os fatores que levaram as instituições a esse patamar de endividamento. O principal deles: irresponsabilidade na gestão.
O time mineiro encabeça a lista com impressionantes R$ 2,632 bilhões em dívidas (eram R$ 2,324 bilhões em 2024), valor que em parte é explicado pelo custo de construção da Arena MRV. Mesmo caso do Corinthians, que tem embutidos nos seus R$ 2,466 bilhões devidos o custo da Neo Química Arena. Já no Botafogo, a situação é ainda mais grave. Com potencial de geração de receita limitado, o clube foi o maior vendedor de atletas no ano passado e, ainda assim, a sua dívida total saltou de R$ 1,649 bilhão para R$ 2,525 bilhões, sendo o segundo colocado nesse ranking.

Mas Grafietti ressalta que o problema está longe de ser somente o custo da construção de arenas. Gestão equivocada ao longo dos anos é o principal problema apontado pelo especialista.
— Atlético Mineiro e Corinthians têm o impacto dos estádios; as dívidas das arenas MRV e Neoquímica estão aqui dentro (do total devido). Mas, sozinhas, elas não explicam esses números. O que explica, e aí junto com o Botafogo, é um processo totalmente equivocado de gestão. O Atlético Mineiro, por exemplo, há anos opera no vermelho do ponto de vista operacional, ou seja, gasta mais do que consegue arrecadar, contrata mais do que é capaz de pagar. Então, isso vira uma alta dependência de aportes de capital para fechar a conta. Chega uma hora que, por mais rico que seja o dono, ele vai fazer conta e vai falar: "O investimento já não vale a pena" — explicou Grafietti.
Segundo ele, esse modelo se repete também no Corinthians, com R$ 700 milhões de dívida da Arena, mas outros gastos incompatíveis com a arrecadação.
— Por mais que tenha juros no período, pagou alguma coisa, mas só isso não justifica os quase R$ 2,5 bilhões de dívida. O que justifica isso? Contratações equivocadas, gastos exagerados, operar fora do equilíbrio, enfim, atrasar recorrentemente encargos e impostos para tentar buscar competitividade — acrescentou o economista.
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O relatório, estimando uma reserva de 20% das receitas anualmente para amortização de dívidas, projeta em 41,2 anos o prazo para que o Atlético-MG consiga se livrar do montante devido atualmente. Já o Botafogo tem essa estimativa em 24,6 anos, enquanto o Corinthians, terceiro colocado em total de dívida líquida, empata com o Cruzeiro, com 23,4 anos para desembaraçar as finanças no ritmo atual. Importante ressaltar que as dívidas sofrem correções anualmente e o valor atual dos juros no Brasil, com a taxa básica, a Selic, em 14,5%, representa um agravante para a solução dos casos.
O gráfico abaixo mostra a relação entre dívidas e receitas dos clubes. O Atlético-MG, portanto, tem hoje uma dívida que equivale a 3,93 vezes o total de sua receita anual. O Corinthians vem em seguida, com seus débitos 2,5 vezes maiores do que a sua receita por temporada, e o Botafogo em terceiro, devendo 1,84 vez o que arrecada em 12 meses.

— Não tem solução a curto prazo, então a solução que o Botafogo está dando, qualquer clube desse tem olhado com mais atenção, é fazer uma recuperação inicial e tentar arrumar desconto para tudo. Qual é o problema? Uma parte dessas dívidas é dívida fiscal, com o Estado. Essas dívidas não têm desconto, o máximo que você consegue é alongar um pouquinho mais. É uma dívida que continua corrigindo pela Selic, então corrige aí a 14,5% ao ano. O Corinthians, por exemplo, tem um bilhão de dívidas renegociadas. Só de custo financeiro dessa dívida, são lá uns R$ 145 milhões por ano, então não adianta estar alongada se só o custo financeiro dela consome 20% das receitas, 15% das receitas — explicou Grafietti.
Santos e Inter repetem problema em escala menor
O economista vê os clubes operando em uma condição que não corresponde às suas respectivas realidades. Ano após ano, com isso, a situação inevitavelmente se agrava. Ele aponta ainda outras equipes, em escala menor, mas com o mesmo tipo de problema, casos de Santos e Internacional.
— Esses três clubes (Atlético-MG, Botafogo e Corinthians) têm gestões muito ruins do ponto de vista financeiro, e eles foram além do que eram capazes de ser. O Botafogo, em dois anos, se a gente for pegar ali em 2023, o número ainda estava longe de ser um incômodo. Mas em 2024 e 2025 tem um "boom" de problemas, todos eles relacionados à gestão. Então, a gente verá coisas semelhantes, por exemplo, no Internacional. Não poderia ter R$ 1 bilhão de dívidas com o que arrecada (R$ 685 milhões em 2025), e tem. O Santos não podia ter quase R$ 1 bilhão de dívidas, e tem (o clube arrecadou R$ 592 milhões no ano passado). Então, assim, esses são clubes ainda em escala menor, mas em situações muito parecidas com o que a gente vê em Botafogo, Corinthians e Atlético-MG.

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