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A queda precoce do Brasil na Copa é o maior fracasso da carreira de Ancelotti?

Treinador já foi demitido de grandes clubes na Europa

PorTiago Teixeira MendesRio de Janeiro (RJ)
09/07/2026 10:00

Supervisionado porNathalia Gomes,
Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, no banco de reservas na Copa do Mundo
Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, no banco de reservas na Copa do Mundo (Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)

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O Brasil foi eliminado pela Noruega por 2 a 1, no último domingo (5), em Nova Jersey, nas oitavas de final da Copa do Mundo. A derrota encerra a participação mais frustrante da Seleção em um Mundial desde 1990 e coloca Carlo Ancelotti diante do maior revés de uma carreira construída sobre títulos, gestão de vestiário e uma reputação quase inatacável no futebol de clubes. A questão que fica é se essa eliminação representa o fracasso mais grave da história do italiano — ou apenas mais um capítulo de uma trajetória que já sobreviveu a quedas parecidas.

A derrota para a Noruega tem um peso diferente das outras baixas da carreira de Ancelotti. É a primeira vez, em mais de 30 anos como técnico, que ele naufragou tão cedo com uma equipe considerada de ponta.

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Nas cinco conquistas da Champions League — duas com o Milan, três com o Real Madrid —, Ancelotti sempre avançou às fases decisivas. Mesmo em passagens consideradas menos gloriosas, como PSG e Bayern de Munique, o italiano jamais foi eliminado de forma tão precoce. A Noruega, vale lembrar, nunca havia passado de uma fase eliminatória em Copas do Mundo antes deste torneio.

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Há, porém, um argumento que complica a leitura de "maior fracasso". Ancelotti chegou ao Brasil em maio de 2025, após meses de negociação com a CBF, e herdou uma Seleção em estado crítico. Tite havia deixado o cargo depois da eliminação para a Croácia na Copa de 2022. Fernando Diniz durou apenas seis jogos nas eliminatórias. Dorival Júnior conduziu o Brasil até uma vexatória queda nas quartas de final da Copa América de 2024 e foi demitido em março de 2025.

O italiano chegou ao país como o quarto técnico em menos de três anos. O Brasil havia terminado as eliminatórias sul-americanas em quinto lugar, dez pontos atrás da Argentina.

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O rei dos clubes: de onde vem a reputação

Para entender o tamanho do fracasso com o Brasil, é preciso primeiro entender o que Ancelotti construiu nos clubes — e por que sua chegada à Seleção foi tratada como um evento. O italiano é o único técnico da história a vencer o campeonato nacional nas cinco principais ligas europeias: Serie A com o Milan, Premier League com o Chelsea, Ligue 1 com o PSG, Bundesliga com o Bayern de Munique e La Liga com o Real Madrid. É também o recordista de títulos da Champions League, com cinco conquistas como treinador.

A pedra fundamental dessa reputação foi construída no Milan entre 2001 e 2009. Quando chegou ao San Siro, Ancelotti herdou um elenco estrelado, mas sem forma. Sua primeira grande decisão foi recuar Andrea Pirlo para uma posição de meia defensivo — contrariando o que o próprio jogador havia feito até então como meia ofensivo.

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O resultado foi a reinvenção de Pirlo como um dos grandes maestros da história do futebol. Com Kaká na ponta do losango e Gattuso e Seedorf na contenção, Ancelotti criou o famoso 'diamante' no meio-campo — uma formação 4-1-2-1-2 que se tornou referência mundial.

Kaká e Ancelotti nos tempos de Milan
Kaká e Ancelotti nos tempos de Milan: no clube italiano, o técnico consolidou seu prestígio (Foto: AFP)

O Milan ganhou a Champions League em 2003, o Scudetto em 2004 com 82 pontos – recorde italiano à época – e voltou a conquistar a Europa em 2007, vingando a derrota dramática de 2005 em Istambul.

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A marca mais profunda de Ancelotti no Milan, porém, não foi tática. Foi a forma como transformou carreiras. Pirlo virou um dos grandes meio-campistas da história sob seu comando. Kaká ganhou o prêmio de melhor jogador do mundo em 2007, depois de uma temporada arrebatadora na Champions League. Shevchenko foi um dos artilheiros mais dominantes da Europa durante os anos de Ancelotti no clube. A capacidade de extrair o máximo de talentos de alto nível — sem confrontá-los, sem engessá-los num sistema rígido — virou a assinatura do italiano.

No Real Madrid, o mesmo padrão se repetiu. Na primeira passagem, entre 2013 e 2015, Ancelotti herdou um vestiário fraturado pela gestão tensa de José Mourinho e, em um ano, conduziu o clube à décima Champions League da história merengue, conquistada após 12 anos de jejum.

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Cristiano Ronaldo, Benzema e Bale funcionaram como trio devastador dentro de um sistema que Ancelotti moldou ao redor das forças de cada um, não ao contrário. Na segunda passagem, de 2021 a 2025, fez algo ainda mais impressionante: chegou após Zidane, estabilizou um elenco em transição e venceu La Liga e a Champions League na primeira temporada. Depois repetiu a conquista europeia, com Bellingham como grande peça — um jovem de 19 anos que Ancelotti libertou para ocupar espaços entre linhas, sem amarrá-lo a uma função fixa.

As demissões que precederam o Brasil

Mas a carreira de Ancelotti também é pontuada por quedas que revelam os limites do seu estilo. Ele foi demitido quatro vezes por grandes clubes — Juventus, Chelsea, Real Madrid e Bayern de Munique —, e em todas elas havia um fio condutor: quando o ambiente institucional se torna hostil ou quando os jogadores deixam de corresponder, o modelo de "mão leve" do italiano tende a rachar.

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Na Juventus, entre 1999 e 2001, Ancelotti chegou após Marcello Lippi e nunca conquistou totalmente o vestiário. Perdeu o título italiano por um ponto para a Lazio na última rodada, após desperdiçar uma vantagem de cinco pontos com três jogos para jogar. Foi demitido no intervalo da última partida da temporada seguinte.

No Chelsea, conquistou a dobradinha Premier League e FA Cup no primeiro ano — primeiro título da história do clube — e foi dispensado na temporada seguinte sem títulos. No Real Madrid, venceu a décima Champions League em 2014 e foi mandado embora um ano depois, após uma derrota para o Atlético de Madrid que custou La Liga. A relação com o presidente Florentino Pérez nunca foi simples — o próprio Ancelotti admitiu que uma substituição de Gareth Bale em um jogo gerou um conflito que precipitou sua saída.

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O Bayern, entre 2016 e 2017, foi o capítulo mais revelador. Ancelotti chegou depois de Pep Guardiola – um técnico que havia criado sessões de treino de altíssima intensidade e controle milimétrico – e adotou sua metodologia habitual, baseada em qualidade sobre quantidade de trabalho físico. O choque foi imediato. Jogadores como Robben, Müller, Boateng e Neuer reclamaram às cúpulas do clube sobre a falta de intensidade nos treinos.

Ancelotti quando treinava o Bayern de Munique
Ancelotti quando treinava o Bayern de Munique: título na Bundesliga (Foto: John Macdougall/AFP)

Robben chegou a dizer publicamente que "o treino do time de juniores do meu filho é mais exigente". Segundo o jornal "Kicker", um grupo de titulares organizou sessões secretas de trabalho físico sem o conhecimento do treinador. Depois de uma derrota por 3 a 0 para o PSG na fase de grupos da Champions League, Ancelotti foi demitido. Havia vencido a Bundesliga com 15 pontos de vantagem na temporada anterior.

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— Foi uma discordância sobre nossa metodologia de trabalho. Construí meu método ao longo de muitos anos e não vou mudá-lo. Os jogadores disputam 60 jogos por ano e meu método é baseado em qualidade, não em quantidade — disse Ancelotti à época, em entrevista ao La Domenica Sportiva.

O padrão que emerge dessas demissões é relevante para entender o Brasil: Ancelotti entrega em ambientes onde os jogadores o respeitam e onde há liberdade para seu método. Quando o entorno — seja o presidente do clube, seja um grupo de jogadores influentes, seja o próprio elenco — empurra em direção oposta à sua filosofia, o resultado costuma ser conflito e queda. No Brasil, o elenco envelhecido e a pressão cultural de uma Copa do Mundo criaram um tipo de ambiente desfavorável.

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As apostas de Ancelotti: o que deu certo e o que fracassou

A convocação de Neymar foi a maior aposta — e o maior erro — da Copa. O atacante, de 34 anos, não jogava pela Seleção desde 2023 por causa de lesões. Ancelotti o chamou para conter a pressão pública que a eventual exclusão do jogador mais famoso do Brasil geraria. Mas Neymar fez apenas duas aparições como substituto durante todo o torneio, sem contribuição efetiva, e anunciou sua aposentadoria da Seleção logo após a eliminação.

A situação tem paralelo claro na carreira do italiano. No Chelsea, em sua segunda temporada, Ancelotti insistiu em não utilizar Fernando Torres — contratação mais cara da história do clube à época — e acabou demitido em parte por esse desgaste com a diretoria. No Napoli, apostou em um elenco envelhecido e foi incapaz de reverter a decadência física de jogadores que já tinham passado do pico. Em ambos os casos, como no Brasil, a fidelidade excessiva a nomes consagrados custou caro.

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Ancelotti foi campeão inglês pelo Chelsea
Ancelotti foi campeão inglês pelo Chelsea em seu primeiro ano no clube (Foto: ADRIAN DENNIS / AFP)

No polo oposto esteve Rayan. O atacante de 19 anos, do Bournemouth, foi um dos últimos a confirmar vaga na lista final e chegou à Copa sem lugar garantido. Mudou isso quando Raphinha sofreu uma lesão muscular contra o Haiti: Rayan entrou, foi elogiado por Ancelotti na coletiva e ganhou a titularidade para o duelo seguinte contra a Escócia. Contra o Japão, esteve em campo durante a virada de 2 a 1. Seu desempenho no Bournemouth antes da Copa havia sido notável – cinco gols e duas assistências em 15 jogos desde sua chegada ao clube inglês em janeiro de 2026, ajudando o time a conquistar uma vaga inédita em competições europeias. Rayan e Endrick se tornaram a primeira dupla com menos de 20 anos a atuar juntos pelo Brasil em Copas desde Pelé e Mazzola, em 1958.

Endrick ficou no meio-termo. O atacante de 19 anos chegou ao torneio como a grande aposta de Ancelotti para o futuro, emprestado ao Lyon nos meses anteriores para ganhar ritmo — onde marcou oito gols em 21 jogos. Na Copa, porém, não conseguiu render. Contra a Noruega, entrou no segundo tempo e desperdiçou uma chance cara a cara com o goleiro, em um dos lances que definiram a eliminação. A imagem do gol perdido virou símbolo da impotência ofensiva da Seleção. O caso lembra o de jovens talentos que Ancelotti já gerenciou em clubes: no Real Madrid, Bellingham chegou como titular e floresceu; Endrick, tanto no clube espanhol quanto na Seleção, ainda competia por espaço com nomes maiores e pagou o preço dessa indefinição de função.

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O que Ancelotti conseguiu e o que faltou

No Brasil, Ancelotti foi contratado com uma promessa: transformar uma Seleção disfuncional em candidata ao título. O saldo foi parcial. O time avançou da fase de grupos sem derrotas e venceu o Japão nas oitavas após estar perdendo por 1 a 0 — algo que o Brasil só havia conseguido uma vez em 12 jogos desde 2023.

Mas as falhas também aconteceram. A Seleção apresentou um futebol abaixo do esperado, com um meio-campo sem desempenho físico para acompanhar a intensidade dos adversários europeus. Ancelotti não conseguiu dar um padrão de jogo sólido ao time, que foi sendo remendado ao longo da competição. O elenco contava com dez jogadores acima dos 30 anos. Contra a Noruega, o Brasil teve apenas 32% de posse de bola, segundo estatísticas da Fifa, perdeu um pênalti com Bruno Guimarães no primeiro tempo e desperdiçou chances claras com Endrick antes de ceder dois gols para Haaland.

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Davide e Carlo Ancelotti passam orientações para Neymar e Danilo Santos durante Brasil x Noruega
Davide e Carlo Ancelotti passam orientações para Neymar e Danilo Santos durante Brasil x Noruega (Foto: Pedro UGARTE/AFP)

+ Lance! Tático: Ancelotti herdou o problema que a Noruega escancarou na Copa 2026

A derrota para a Noruega também tem uma dimensão histórica dolorosa: desde o título de 2002, o Brasil não vence uma seleção europeia no mata-mata de Copas do Mundo. São seis eliminações consecutivas diante de adversários do continente — incluindo o 7 a 1 sofrido em casa contra a Alemanha em 2014. Ancelotti não apenas não resolveu esse problema; deixou a impressão de não ter sequer encontrado um caminho para tentar acabar com a escrita.

Trauma ou degrau?

Apesar da eliminação, Ancelotti confirmou que permanecerá no cargo. Assinou uma extensão de contrato até 2030 antes da Copa e foi enfático após a derrota:

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— Uma derrota é o começo de uma nova aventura. Temos que seguir melhorando, encontrar novas ideias. Não é um fim, é o início de um novo ciclo — disse o técnico na coletiva pós-jogo.

A história da carreira de Ancelotti oferece precedentes para o otimismo. Depois de ser demitido do Bayern em 2017, em uma das saídas mais humilhantes de sua trajetória, voltou ao Real Madrid em 2021 e teve possivelmente sua melhor temporada como treinador: venceu La Liga e a Champions League e repetiu o feito na temporada seguinte. Depois do período sem brilho no Napoli e no Everton, dois clubes que não eram seu habitat natural, provou que ainda era o melhor do mundo no ambiente certo. É nessa resiliência que a CBF aposta ao mantê-lo no cargo.

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