Scaloni, o técnico que mudou a história de Messi na Argentina e construiu 'La Scaloneta'
Com humildade, paixão e churrascos, técnico quebrou jejum da seleção e busca bicampeonato

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Lionel Scaloni, de 48 anos, é o comandante de uma Argentina que persegue a história: no domingo (19), pode se tornar a primeira bicampeã consecutiva da Copa do Mundo desde o Brasil em 1962. Individualmente, ao vencer a Espanha, também se igualaria ao italiano Vittorio Pozzo como únicos treinadores com dois títulos mundiais. Figura de personalidade singular, o ex-jogador foi responsável por transformar a Albiceleste em um time unido, aguerrido e vencedor.
Na trajetória do técnico, tudo parece se encaixar perfeitamente: cada pedaço da sua história no futebol ajudou a construir a carreira vitoriosa à beira do gramado. Xará e ex-companheiro de Lionel Messi, o professor foi quem melhor soube gerir um elenco em prol do seu maior astro. A conexão do plantel argentino, tão evidente dentro de campo, passa pela liderança, às vezes silenciosa, daquele que deu nome à equipe: La Scaloneta.
Scaloni assumiu a Argentina como treinador principal no fim de 2018, após passagens como auxiliar e interino. Desconhecido de grande parte do mundo e sem experiências prévias na função, quebrou um longo jejum de títulos da seleção e já acumula oito anos de brilhantismo, com 80 vitórias em 103 jogos, dois títulos da Copa América e duas finais mundiais. De temporário a definitivo. De um jogador razoável a um técnico genial. De uma cidade minúscula para o mundo. A trajetória de Lionel começou longe dos holofotes.
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Carreira na base no mesmo clube de Messi
Lionel Scaloni nasceu na pequena cidade de Pujato, cuja população não chega a 50 mil habitantes, localizada a 40 km de Rosário, de onde vem o seu xará Messi. Por lá, começou a jogar futebol influenciado por seu pai, Ángel, que treinava o modesto clube Matienzo de Pujato e, com muito rigor, desenvolveu no filho a disciplina como valor inegociável.
Após chamar atenção, o argentino se transferiu para as categorias de base do Newell's Old Boys, pelas quais curiosamente também passou Messi. Sem tanto espaço entre os profissionais, porém, o jovem atleta migrou para o gigante Estudiantes de La Plata. No novo time, começou a mostrar suas principais valências: um lateral-direito e meio-campista esforçado, disciplinado taticamente, com muita potência física e surpreendente poder de finalização.
Em 1997, aos 19 anos, Scaloni deixou o futebol argentino para não voltar mais. Nos oito anos seguintes, viveu o seu auge com a camisa do espanhol Deportivo La Coruña. Em 2000, foi campeão espanhol ao lado dos brasileiros Djalminha, Mauro Silva, Donato e Flávio Conceição. Também venceu a Copa do Rei, uma vez, e a Supercopa da Espanha, duas vezes — no segundo triunfo, em 2002, enfrentou na decisão o Valencia dos argentinos Ayala e Aimar, atualmente seus auxiliares na seleção.
Fair play causou ódio de torcida inglesa
Em 2006, Scaloni passou seis meses emprestado ao West Ham, mas deixou o clube odiado pela torcida por uma atitude que, ao mesmo tempo, diz muito sobre o seu caráter. O time londrino vencia o Liverpool por 3 a 2 na final da F.A. Cup e encerraria um jejum de anos sem títulos. No entanto, já nos minutos finais, Scaloni colocou a bola para fora para atendimento de jogador rival. Na sequência, o adversário até devolveu a bola, mas pressionou o lateral, que afastou o perigo. Ao retomarem a posse, os Reds marcaram o gol de empate e, posteriormente, foram campeões nos pênaltis.
Confira o lance abaixo:
Final de la FA Cup 2005/06. West Ham le gana 3-2 a Liverpool en Cardiff. Minuto 88. Lionel Scaloni tira la pelota afuera después de que Djibril Cissé se frenase por una supuesta lesión. Fair play. Cissé sigue. Liverpool repone. Se la devuelven pero lo van a presionar. Scaloni,… https://t.co/eiBmI9KRsw pic.twitter.com/eksYY5wZBU
— Roberto Parrottino (@rparrottino) July 15, 2026
Apesar da imagem negativa entre os torcedores, a passagem pelo Reino Unido convenceu o lendário técnico José Pekerman a convocar o lateral para a Copa do Mundo de 2006, após participações esporádicas em amistosos ao longo do ciclo. Durante o torneio, Scaloni disputou um único, mas importante, jogo: as oitavas de final contra o México, vencidas na prorrogação, quando foi titular na vaga do lesionado Burdisso.
A única participação do hoje treinador argentino como jogador em Copas coincidiu com a primeira de seu atual craque. O convívio de pouco mais de um mês na Alemanha foi importante para criar um vínculo entre os xarás e abrir as portas para futuramente treinar Messi.

Mas a relação de Scaloni com a Albiceleste começou bem antes: em 1997, também sob comando de Pekerman, foi campeão mundial sub-20, com direito a gol marcante contra o Brasil nas quartas de final. Aquele time contava com nomes como Walter Samuel, Cambiasso, Riquelme e o já citado Pablo Aimar, que é um dos maiores ídolos de Messi no futebol.
Após a realização do sonho de disputar a Copa do Mundo em 2006, o lateral-direito passou pelo espanhol Racing Santander antes de chegar à italiana Lazio. Logo depois de assinar com o novo clube, porém, foi emprestado de volta à Espanha para defender o Mallorca. A passagem de pouco mais de um ano também mudou a história do argentino, mas não por motivos esportivos. Em Mallorca, conheceu a esposa, a espanhola Elisa Montero, mãe dos seus filhos Ian e Noah.
Posteriormente, Scaloni passou quatro anos na Lazio e outros dois na Atalanta, sendo bem mais reserva do que titular, antes de encerrar a carreira em 2015, aos 37 anos. Imediatamente, virou olheiro da Atalanta. Depois, juntou-se ao estafe de Jorge Sampaoli no Sevilla e, mais tarde, na seleção argentina que disputou a Copa do Mundo de 2018, o início despercebido da já conhecida trajetória à frente da Albiceleste. Sampaoli teve uma gestão desastrosa do elenco na Rússia e Scaloni assumiu como uma solução de custo baixo para a AFA.
Técnico transformou a seleção em vencedora
O que era para ser uma experiência provisória virou um exemplo de sucesso. Scaloni mudou a trajetória de Messi na seleção ao construir um time que girava em torno dele. E quebrou um jejum de títulos da Argentina que durou 28 anos — desde a conquista da Copa América de 1993 até a nova conquista do torneio, em pleno Maracanã, na final contra o Brasil, em 2021.
No meio do caminho, ele também realizou curso de treinador na Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), no qual teve como um dos professores o atual técnico da seleção espanhola, Luis de la Fuente, mais um capítulo da longa conexão entre o argentino e o futebol espanhol, que torna a final desta Copa do Mundo ainda mais especial.
Scaloni sempre manifestou carinho pela Espanha. Como técnico, cultiva valores aprendidos por lá enquanto jogador e auxiliar — não à toa, a Argentina é a única seleção que troca mais passes que a Fúria neste Mundial. Fora de campo, a proximidade é até polêmica: a decisão de morar em Mallorca com a família recebe críticas constantes da imprensa e de torcedores. Sem contar os compromissos esportivos, Scaloni costuma passar de 15 a 20 dias por ano no país natal.
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Humildade de Scaloni conquistou jogadores
A relação de respeito de 20 anos com Messi, a parceria de longa data com Aimar e a amizade com De la Fuente são exemplos das inúmeras conexões colecionadas por Lionel Scaloni ao longo da carreira esportiva. E não é por acaso: o treinador é uma rara unanimidade no meio.
O jornalista Walter Vargas, historiador do Estudiantes de la Plata, contou ao Lance! que o hoje técnico já surpreendia a todos por seu comportamento quando era um jovem jogador:
— Scaloni deixou uma grande lembrança como pessoa em La Plata. É um homem muito humilde, lembrado por sua simplicidade e por seu tom muito afetuoso. Chegava aos treinamentos, no complexo de City Bell, e cumprimentava desde as pessoas que estavam na portaria até as cozinheiras. Eu nunca escutei falarem mal de Scaloni no mundo do futebol. E este é um mérito extraordinário.
O vínculo entre Scaloni e aqueles que o conheceram a fundo é perceptível. Desde o início da Copa do Mundo, o técnico da Argentina já protagonizou três momentos de emoção ao reencontrar ex-companheiros que atualmente cobrem o torneio na mídia: Martín Palermo (ex-Estudiantes), Germán Denis (ex-Atalanta) e Djalminha (ex-La Coruña).
Confira o reencontro de Scaloni e Palermo:
"Martín Palermo":
— ¿Por qué es tendencia? (@porquetendencia) June 15, 2026
Por su encuentro con Lionel Scaloni en la conferencia previa al debut de la Selección Argentina en la #CopaMundialFIFA 2026 pic.twitter.com/NSMluPorxP
O professor da Albiceleste também viralizou com outras cenas de humildade em coletivas de imprensa. Por exemplo, ao abrir exceção e fazer revelação sobre a utilização de Messi na terceira rodada ao lendário jornalista argentino Enrique Macaya Márquez, de 91 anos, que faz sua 18ª cobertura consecutiva de Copa do Mundo.
— Antes de te responder, Enrique, é um prazer que me faça a pergunta e é um prazer te ver aqui. Obrigado por vir! Já estamos falando de 18 Copas? Incrível! É um prazer poder responder à sua pergunta porque convivemos por muito tempo. Quando eu jogava na Argentina, te via o tempo todo. E cada vez que você falava, era uma inspiração. E ainda é. Eu vou responder à pergunta só porque é você, senão eu me esquivaria. Só respondo porque você merece! — falou o técnico na ocasião.
Confira o abraço de Scaloni e Márquez:
Aos 91 anos, Enrique Macaya Márquez está em sua 18ª cobertura de Copa do Mundo.
— Gustavo Hofman (@gustavohofman) June 27, 2026
O jornalista argentino começou em 1958, na Copa vencida pelo Brasil de um jovem Pelé, e agora está nos Estados Unidos acompanhando a Argentina de Lionel Messi, atual campeã mundial.
Nesta… pic.twitter.com/RuvKlyU09V
A humildade e afetuosidade também se manifestam no trabalho como comandante da sua Scaloneta. Aliás, talvez sejam características mais marcantes do que qualquer direcionamento tático. Desde o início, o treinador nunca quis ser maior que Messi. Pelo contrário, ajudou a encarnar o espírito de uma equipe que joga por seu craque, sem egoísmo.
Na partida contra a Jordânia, o técnico poupou os seus titulares e só escalou o astro do Inter Miami na segunda etapa. Questionado na coletiva de imprensa sobre a conversa com o jogador à beira do campo, o treinador reagiu de forma debochada:
— Não (dei instruções para Messi), eu disse: "Sai tal jogador, entra você", só isso. O que eu vou dizer a ele? É sério que você me pergunta isso? Sério que você me pergunta isso, de verdade? O que eu vou dizer a ele? "Ah, não, movimenta-se por aqui, recua e, quando a bola vier por aqui, faz isso…" É uma loucura.

E é claro que o respeito não se restringe a Messi. Outra cena do treinador que viralizou foi quando ouviu atenciosamente as sugestões táticas do volante Leandro Paredes. Fora dos gramados, também incentiva os momentos de descontração e relaxamento, como nos churrascos organizados pelo elenco ao longo da Copa do Mundo.
— Não sou técnico porque gosto do 4-3-3. Eu gosto de voltar a viver isso: fazer parte de um grupo, estar com um amigo tomando mate, comendo um churrasco, jogando truco. E se a única coisa que você pensa é no jogo, no jogo, no jogo, no final você acaba esgotado, se não aproveitar. Eu acho que isso é fundamental para nós. (…) E aqui, eu acredito que eles entenderam isso. Quando diminuímos o treino para comer churrasco, é por isso. São coisas que valorizamos muito. E acho que, para outras pessoas, não é tão importante — afirmou o técnico em coletiva.
Em 2022, Lionel Scaloni deu espaço a jogadores jovens, como Enzo Fernández e Julián Álvarez, e fez ajustes ao longo do Mundial para alcançar o sonhado título. Em 2026, o treinador garante que os atuais campeões mantenham a mesma fome pelo bicampeonato. Sem alarde ou sede de protagonismo, o comandante pouco comemora os gols e deixa os seus atletas brilharem. Em campo, é o time de Messi. Mas a seleção também ficará eternizada como "La Scaloneta".

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