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Scaloni, o técnico que mudou a história de Messi na Argentina e construiu 'La Scaloneta'

Com humildade, paixão e churrascos, técnico quebrou jejum da seleção e busca bicampeonato

PorPedro WerneckRio de Janeiro (RJ)
18/07/2026 07:30
Lionel Scaloni entoa efusivamente o hino argentino antes de jogo da Copa do Mundo
Lionel Scaloni canta efusivamente o hino argentino antes de jogo da Copa do Mundo (Foto: Odd Andersen / AFP)

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Lionel Scaloni, de 48 anos, é o comandante de uma Argentina que persegue a história: no domingo (19), pode se tornar a primeira bicampeã consecutiva da Copa do Mundo desde o Brasil em 1962. Individualmente, ao vencer a Espanha, também se igualaria ao italiano Vittorio Pozzo como únicos treinadores com dois títulos mundiais. Figura de personalidade singular, o ex-jogador foi responsável por transformar a Albiceleste em um time unido, aguerrido e vencedor.

Na trajetória do técnico, tudo parece se encaixar perfeitamente: cada pedaço da sua história no futebol ajudou a construir a carreira vitoriosa à beira do gramado. Xará e ex-companheiro de Lionel Messi, o professor foi quem melhor soube gerir um elenco em prol do seu maior astro. A conexão do plantel argentino, tão evidente dentro de campo, passa pela liderança, às vezes silenciosa, daquele que deu nome à equipe: La Scaloneta.

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Scaloni assumiu a Argentina como treinador principal no fim de 2018, após passagens como auxiliar e interino. Desconhecido de grande parte do mundo e sem experiências prévias na função, quebrou um longo jejum de títulos da seleção e já acumula oito anos de brilhantismo, com 80 vitórias em 103 jogos, dois títulos da Copa América e duas finais mundiais. De temporário a definitivo. De um jogador razoável a um técnico genial. De uma cidade minúscula para o mundo. A trajetória de Lionel começou longe dos holofotes.

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Carreira na base no mesmo clube de Messi

Lionel Scaloni nasceu na pequena cidade de Pujato, cuja população não chega a 50 mil habitantes, localizada a 40 km de Rosário, de onde vem o seu xará Messi. Por lá, começou a jogar futebol influenciado por seu pai, Ángel, que treinava o modesto clube Matienzo de Pujato e, com muito rigor, desenvolveu no filho a disciplina como valor inegociável.

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Após chamar atenção, o argentino se transferiu para as categorias de base do Newell's Old Boys, pelas quais curiosamente também passou Messi. Sem tanto espaço entre os profissionais, porém, o jovem atleta migrou para o gigante Estudiantes de La Plata. No novo time, começou a mostrar suas principais valências: um lateral-direito e meio-campista esforçado, disciplinado taticamente, com muita potência física e surpreendente poder de finalização.

Em 1997, aos 19 anos, Scaloni deixou o futebol argentino para não voltar mais. Nos oito anos seguintes, viveu o seu auge com a camisa do espanhol Deportivo La Coruña. Em 2000, foi campeão espanhol ao lado dos brasileiros Djalminha, Mauro Silva, Donato e Flávio Conceição. Também venceu a Copa do Rei, uma vez, e a Supercopa da Espanha, duas vezes — no segundo triunfo, em 2002, enfrentou na decisão o Valencia dos argentinos Ayala e Aimar, atualmente seus auxiliares na seleção.

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Fair play causou ódio de torcida inglesa

Em 2006, Scaloni passou seis meses emprestado ao West Ham, mas deixou o clube odiado pela torcida por uma atitude que, ao mesmo tempo, diz muito sobre o seu caráter. O time londrino vencia o Liverpool por 3 a 2 na final da F.A. Cup e encerraria um jejum de anos sem títulos. No entanto, já nos minutos finais, Scaloni colocou a bola para fora para atendimento de jogador rival. Na sequência, o adversário até devolveu a bola, mas pressionou o lateral, que afastou o perigo. Ao retomarem a posse, os Reds marcaram o gol de empate e, posteriormente, foram campeões nos pênaltis.

Confira o lance abaixo:

Apesar da imagem negativa entre os torcedores, a passagem pelo Reino Unido convenceu o lendário técnico José Pekerman a convocar o lateral para a Copa do Mundo de 2006, após participações esporádicas em amistosos ao longo do ciclo. Durante o torneio, Scaloni disputou um único, mas importante, jogo: as oitavas de final contra o México, vencidas na prorrogação, quando foi titular na vaga do lesionado Burdisso.

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A única participação do hoje treinador argentino como jogador em Copas coincidiu com a primeira de seu atual craque. O convívio de pouco mais de um mês na Alemanha foi importante para criar um vínculo entre os xarás e abrir as portas para futuramente treinar Messi.

Abraço de Messi e Scaloni na Copa do Mundo de 2006 (Foto: Reprodução)
Messi e Scaloni se abraçam em jogo da Copa do Mundo de 2006 (Foto: Reprodução)

Mas a relação de Scaloni com a Albiceleste começou bem antes: em 1997, também sob comando de Pekerman, foi campeão mundial sub-20, com direito a gol marcante contra o Brasil nas quartas de final. Aquele time contava com nomes como Walter Samuel, Cambiasso, Riquelme e o já citado Pablo Aimar, que é um dos maiores ídolos de Messi no futebol.

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Após a realização do sonho de disputar a Copa do Mundo em 2006, o lateral-direito passou pelo espanhol Racing Santander antes de chegar à italiana Lazio. Logo depois de assinar com o novo clube, porém, foi emprestado de volta à Espanha para defender o Mallorca. A passagem de pouco mais de um ano também mudou a história do argentino, mas não por motivos esportivos. Em Mallorca, conheceu a esposa, a espanhola Elisa Montero, mãe dos seus filhos Ian e Noah.

Posteriormente, Scaloni passou quatro anos na Lazio e outros dois na Atalanta, sendo bem mais reserva do que titular, antes de encerrar a carreira em 2015, aos 37 anos. Imediatamente, virou olheiro da Atalanta. Depois, juntou-se ao estafe de Jorge Sampaoli no Sevilla e, mais tarde, na seleção argentina que disputou a Copa do Mundo de 2018, o início despercebido da já conhecida trajetória à frente da Albiceleste. Sampaoli teve uma gestão desastrosa do elenco na Rússia e Scaloni assumiu como uma solução de custo baixo para a AFA.

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Técnico transformou a seleção em vencedora

O que era para ser uma experiência provisória virou um exemplo de sucesso. Scaloni mudou a trajetória de Messi na seleção ao construir um time que girava em torno dele. E quebrou um jejum de títulos da Argentina que durou 28 anos — desde a conquista da Copa América de 1993 até a nova conquista do torneio, em pleno Maracanã, na final contra o Brasil, em 2021.

No meio do caminho, ele também realizou curso de treinador na Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), no qual teve como um dos professores o atual técnico da seleção espanhola, Luis de la Fuente, mais um capítulo da longa conexão entre o argentino e o futebol espanhol, que torna a final desta Copa do Mundo ainda mais especial.

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Scaloni sempre manifestou carinho pela Espanha. Como técnico, cultiva valores aprendidos por lá enquanto jogador e auxiliar — não à toa, a Argentina é a única seleção que troca mais passes que a Fúria neste Mundial. Fora de campo, a proximidade é até polêmica: a decisão de morar em Mallorca com a família recebe críticas constantes da imprensa e de torcedores. Sem contar os compromissos esportivos, Scaloni costuma passar de 15 a 20 dias por ano no país natal.

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Humildade de Scaloni conquistou jogadores

A relação de respeito de 20 anos com Messi, a parceria de longa data com Aimar e a amizade com De la Fuente são exemplos das inúmeras conexões colecionadas por Lionel Scaloni ao longo da carreira esportiva. E não é por acaso: o treinador é uma rara unanimidade no meio.

O jornalista Walter Vargas, historiador do Estudiantes de la Plata, contou ao Lance! que o hoje técnico já surpreendia a todos por seu comportamento quando era um jovem jogador:

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— Scaloni deixou uma grande lembrança como pessoa em La Plata. É um homem muito humilde, lembrado por sua simplicidade e por seu tom muito afetuoso. Chegava aos treinamentos, no complexo de City Bell, e cumprimentava desde as pessoas que estavam na portaria até as cozinheiras. Eu nunca escutei falarem mal de Scaloni no mundo do futebol. E este é um mérito extraordinário.

O vínculo entre Scaloni e aqueles que o conheceram a fundo é perceptível. Desde o início da Copa do Mundo, o técnico da Argentina já protagonizou três momentos de emoção ao reencontrar ex-companheiros que atualmente cobrem o torneio na mídia: Martín Palermo (ex-Estudiantes), Germán Denis (ex-Atalanta) e Djalminha (ex-La Coruña).

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Confira o reencontro de Scaloni e Palermo:

O professor da Albiceleste também viralizou com outras cenas de humildade em coletivas de imprensa. Por exemplo, ao abrir exceção e fazer revelação sobre a utilização de Messi na terceira rodada ao lendário jornalista argentino Enrique Macaya Márquez, de 91 anos, que faz sua 18ª cobertura consecutiva de Copa do Mundo.

— Antes de te responder, Enrique, é um prazer que me faça a pergunta e é um prazer te ver aqui. Obrigado por vir! Já estamos falando de 18 Copas? Incrível! É um prazer poder responder à sua pergunta porque convivemos por muito tempo. Quando eu jogava na Argentina, te via o tempo todo. E cada vez que você falava, era uma inspiração. E ainda é. Eu vou responder à pergunta só porque é você, senão eu me esquivaria. Só respondo porque você merece! — falou o técnico na ocasião.

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Confira o abraço de Scaloni e Márquez:

A humildade e afetuosidade também se manifestam no trabalho como comandante da sua Scaloneta. Aliás, talvez sejam características mais marcantes do que qualquer direcionamento tático. Desde o início, o treinador nunca quis ser maior que Messi. Pelo contrário, ajudou a encarnar o espírito de uma equipe que joga por seu craque, sem egoísmo.

Na partida contra a Jordânia, o técnico poupou os seus titulares e só escalou o astro do Inter Miami na segunda etapa. Questionado na coletiva de imprensa sobre a conversa com o jogador à beira do campo, o treinador reagiu de forma debochada:

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— Não (dei instruções para Messi), eu disse: "Sai tal jogador, entra você", só isso. O que eu vou dizer a ele? É sério que você me pergunta isso? Sério que você me pergunta isso, de verdade? O que eu vou dizer a ele? "Ah, não, movimenta-se por aqui, recua e, quando a bola vier por aqui, faz isso…" É uma loucura.

Scaloni passa instruções a Messi durante duelo entre Argentina e Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo
Scaloni passa instruções a Messi durante duelo entre Argentina e Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo (Foto: Odd Andersen / AFP)

E é claro que o respeito não se restringe a Messi. Outra cena do treinador que viralizou foi quando ouviu atenciosamente as sugestões táticas do volante Leandro Paredes. Fora dos gramados, também incentiva os momentos de descontração e relaxamento, como nos churrascos organizados pelo elenco ao longo da Copa do Mundo.

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— Não sou técnico porque gosto do 4-3-3. Eu gosto de voltar a viver isso: fazer parte de um grupo, estar com um amigo tomando mate, comendo um churrasco, jogando truco. E se a única coisa que você pensa é no jogo, no jogo, no jogo, no final você acaba esgotado, se não aproveitar. Eu acho que isso é fundamental para nós. (…) E aqui, eu acredito que eles entenderam isso. Quando diminuímos o treino para comer churrasco, é por isso. São coisas que valorizamos muito. E acho que, para outras pessoas, não é tão importante — afirmou o técnico em coletiva.

Em 2022, Lionel Scaloni deu espaço a jogadores jovens, como Enzo Fernández e Julián Álvarez, e fez ajustes ao longo do Mundial para alcançar o sonhado título. Em 2026, o treinador garante que os atuais campeões mantenham a mesma fome pelo bicampeonato. Sem alarde ou sede de protagonismo, o comandante pouco comemora os gols e deixa os seus atletas brilharem. Em campo, é o time de Messi. Mas a seleção também ficará eternizada como "La Scaloneta".

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