Como as seleções se preparam para enfrentar a Copa do Mundo mais quente da história
Estádios climatizados, coletes térmicos e avanço na preparação são armas para lidar com calor extremo

A Copa do Mundo de 2026 será a mais quente da história. De acordo com cientistas, cerca de uma a cada quatro partidas deve acontecer em condições climáticas extremas. A edição mais semelhante foi a de 1994, que também ocorreu durante o verão norte-americano. De lá para cá, as mudanças climáticas agravaram a situação. Os jogos também se tornaram ainda mais intensos. Por outro lado, as seleções estão mais preparadas para lidar com o calor.
O fisiologista Cláudio Pavanelli, com passagens por clubes como Corinthians, Santos, Palmeiras, Atlético-MG e Flamengo, mora há mais de dez anos na Flórida, um dos estados mais quentes dos Estados Unidos. Pela sua experiência, o país sempre se preocupou muito com questões climáticas durante eventos esportivos e não será diferente no Mundial. No entanto, entende que o calor será, sim, um desafio, especialmente pelas condições em que os jogadores chegam.
— A maior preocupação é que a maioria dos atletas vem do fim de temporada. Imagina você, no fim da temporada, ter que encarar jogos tão importantes e com temperaturas elevadas. Isso causa um estresse psíquico, lógico, mas também físico: desidratação, aumento da temperatura interna do corpo, queda de performance, sensação de fadiga muscular, maior número de erros nos finais dos jogos, elevado risco de lesões musculares e aumento do tempo necessário para recuperação entre as partidas — afirmou ao Lance!.

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Condições mais extremas do que em 1994
Por mais que o Mundial de 1994 tenha ficado marcado por assustadoras temperaturas acima dos 40ºC, hoje os cientistas medem o impacto do clima considerando muito além do valor marcado pelo termômetro. De forma simplificada, uma temperatura de 30ºC em dia seco e com brisa é muito diferente da mesma temperatura em dia de alta umidade e pouco vento.
Um estudo da Rede Mundial de Atribuição (WWA, na sigla em inglês) analisou todos os futuros jogos a partir do índice de Temperatura do Bulbo e Globo Úmido (WBGT), também usado pela Fifa, que mede a capacidade do corpo de se resfriar, levando em conta: temperatura do ar, umidade relativa, radiação solar direta e velocidade do vento.
Quando o índice WBGT é registrado acima de 26ºC, há risco de estresse térmico e impacto no desempenho dos atletas, cenário previsto para 1/4 das partidas da Copa do Mundo. Já se o índice WBGT superar 28°C, existe risco de problemas de saúde mais sérios para jogadores e torcedores — a previsão é de que isso aconteça em 5% dos confrontos. Nesses casos, o adiamento dos jogos é recomendado pela FIFPRO, entidade que representa os jogadores profissionais globalmente.
Diêgo Augusto, que faz PhD na área e coordena o departamento de ciência esportiva da base do Vasco, explicou ao Lance! as consequências do chamado "estresse térmico":
— Pesquisas recentes mostram que jogos em alta temperatura modulam o comportamento dos atletas, reduzindo as ações em alta intensidade. Isso ocorre pelo aumento do estresse cardiovascular, devido à competição pelo fluxo sanguíneo entre a dissipação do calor pela pele e o suprimento de oxigênio aos músculos ativos. Assim, os jogadores passam a selecionar melhor os momentos de ações intensas. Além disso, o calor pode comprometer funções cognitivas importantes para o jogo de futebol, como a atenção e a tomada de decisão.
A final do Mundial de 1994, entre Brasil e Itália, realizada em Pasadena, na Califórnia, registrou temperatura acima dos 35ºC. Já a decisão deste ano, que será em Nova Jersey, não deverá passar dos 30ºC. Ainda assim, devido aos demais fatores, o estudo entende que o risco de que a marca de 26°C na escala WBGT seja ultrapassada é duas vezes maior do que era 32 anos atrás.
Além disso, as temperaturas extremamente elevadas na Copa de 1994 foram mais localizadas, especialmente em Dallas e Pasadena. Agora, a previsão é de que o impacto do calor seja generalizado, consequência dos efeitos do aquecimento global neste século. Por outro lado, a Fifa e as seleções estarão mais preparadas para lidar com os riscos.

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O que mudou?
A primeira medida preventiva da Fifa para lidar com o calor previsto para o Mundial foi a estipulação da pausa obrigatória de três minutos para hidratação durante a metade de cada um dos tempos.
O desenvolvimento da infraestrutura também ajuda a controlar riscos. Três das cidades americanas mais quentes desta Copa do Mundo contam com estádios climatizados: Atlanta, Dallas e Houston. Justamente por isso, terão partidas realizadas às 12h (horário local). Outras cidades igualmente quentes, mas sem arenas climatizadas, como Monterrey (México) e Miami (EUA), só terão jogos a partir do fim da tarde ou início da noite.
Em 1994, a realização de confrontos no início da tarde para agradar ao público europeu revoltou astros como Diego Maradona, que apontavam "condições desumanas" para os atletas. Na edição deste ano, as arenas climatizadas protegerão os jogadores. No entanto, o impacto em áreas externas dos estádios e festivais ao ar livre preocupa. O levantamento da WWA prevê 33% de chances de que o índice WBGT ultrapasse 28ºC às 12h em Atlanta, Dallas e Houston nos dias das partidas.
Em campo, as comissões técnicas estão muito mais preparadas para lidar com o calor e qualquer outro fator que impacte o desempenho físico e técnico dos jogadores. De acordo com Cláudio Pavanelli, a preparação física começou a ser efetivamente valorizada em 1994. Atualmente, a utilização da ciência no esporte é muito mais ampla.
— Hoje, a gente consegue individualizar a carga de treinamento, de recuperação, alimentação, hidratação e qualidade do sono dos atletas. A ciência consegue mensurar com precisão e velocidade fatores que, naquela época, a gente estava começando a aprender — relatou.

Diêgo Augusto também entende que, apesar de o calor ainda ser um desafio, a ciência esportiva avançou significativamente de forma a reduzir os seus impactos na saúde e desempenho dos atletas.
— Nos dias das partidas, são utilizadas estratégias de resfriamento corporal, que buscam reduzir a temperatura corporal por meio de recursos como bebidas geladas ou com gelo triturado, coletes refrigerados, toalhas frias e bolsas de gelo, utilizadas inclusive durante os intervalos e paradas técnicas. A hidratação também evoluiu significativamente: tecnologias permitem monitorar individualmente a taxa de sudorese e a composição do suor dos atletas, possibilitando estratégias de reposição hídrica e eletrolítica precisas e personalizadas. Além disso, ferramentas de monitoramento em tempo real ajudam as equipes a acompanhar a carga de esforço e as respostas ao calor, permitindo decisões mais assertivas sobre substituições, recuperação e estratégias de jogo — exemplificou.
O avanço da ciência esportiva possibilitou o melhor aproveitamento físico dos atletas e, consequentemente, um jogo mais intenso. Em contrapartida, a exigência é ainda maior no calor. Segundo Pavanelli, a literatura entende que a distância total percorrida pelos jogadores por partida aumentou apenas cerca de 5% da década de 1990 para cá. A grande diferença é que o número de sprints em alta velocidade cresceu em mais de 50%. Mas, como já explicado, são justamente as ações de alta intensidade que os atletas mais reduzem ao atuar em altas temperaturas. Dessa forma, o impacto do calor é físico e técnico, mas também tático, como explica Diêgo:
— Muitas equipes dependem da intensidade para cumprir ações táticas. Por exemplo, é muito comum ver equipes que buscam pressionar desde os seus atacantes: a chamada pressão alta. Muitas vezes, em jogos em ambientes muito quentes, os treinadores precisam adaptar a forma como a equipe vai jogar, pois os jogadores podem não suportar ações táticas que demandam tamanha intensidade física.
Em contrapartida, desde 2020, a Fifa aumentou o número de substituições por partida para cinco, além de uma adicional em caso de prorrogação. Apoiadas pelo conhecimento científico e acompanhamento detalhado dos atletas, as comissões técnicas podem utilizá-las para garantir a manutenção da intensidade das suas equipes ao longo das partidas.

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Brasil passará pela quentíssima Miami
O Brasil também precisará lidar com o calor durante o Mundial. Na fase de grupos, o maior desafio provavelmente será o terceiro jogo, contra a Escócia, em Miami. Ao longo da última semana, a cidade tem registrado temperaturas próximas a 30ºC.
Organização formada por cientistas e jornalistas, a Climate Central calculou os riscos de altas temperaturas (acima de 28ºC) de todos os jogos da Copa do Mundo, inclusive do mata-mata. Confira abaixo os possíveis "caminhos climáticos" da Seleção Brasileira:
Fase de grupos
- x Marrocos (13/06) - Nova Jersey, 18h (local) - 20% de chances de altas temperaturas
- x Haiti (19/06) - Filadélfia, 20h30 (local) - 43% de chances de altas temperaturas
- x Escócia (24/06) - Miami, 18h (local) - 95% de chances de altas temperaturas
Mata-mata (passando em 1º)
- 16 avos de final (29/06) - Houston, 12h (local)* - 97% de chances de altas temperaturas
- Oitavas de final (05/07) - Nova Jersey, 16h (local) - 36% de chances de altas temperaturas
- Quartas de final (11/07) - Miami, 17h (local) - 98% de chances de altas temperaturas
- Semifinal (15/07) - Atlanta, 15h (local)* - 92% de chances de altas temperaturas
- Final (19/07) - Nova Jersey, 15h (local) - 47% de chances de altas temperaturas
Mata-mata (passando em 2º)
- 16 avos de final (29/06) - Monterrey, 19h (local) - 78% de chances de altas temperaturas
- Oitavas de final (04/07) - Houston, 12h (local)* - 97% de chances de altas temperaturas
- Quartas de final (09/07) - Boston, 16h (local) - 37% de chances de altas temperaturas
- Semifinal (14/07) - Dallas, 14h (local)* - 99% de chances de altas temperaturas
- Final (19/07) - Nova Jersey, 15h (local) - 47% de chances de altas temperaturas
*Estádios climatizados
Apesar dos desafios, o Brasil tem a vantagem de um elenco mais acostumado com temperaturas elevadas. Após o amistoso preparatório contra o Egito, o capitão Marquinhos falou sobre o tema:
— É muito importante a hidratação. A gente tenta usar os nossos recursos para estar o mais preparado possível. Nós somos brasileiros, estamos de certa forma acostumados com esse calor, jogamos sempre. A gente tem que trabalhar com as cartas que a gente tem na manga, e eu acho que todos vão sentir o calor, não só a gente. Está tudo igualado para todo mundo. A gente vai tentar trabalhar, estar bem fisicamente, focar bastante na recuperação para que a gente possa estar bem. Mas, com certeza, o calor será fator determinante para os resultados.

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Seleções "geladas" reforçam cuidados
Diferentemente do Brasil, muitas seleções europeias estão pouco acostumadas a jogar sob calor intenso. É o caso da Noruega, onde as temperaturas não costumam superar a casa dos 20ºC durante o verão. Antes de viajar para os Estados Unidos, os jogadores noruegueses chegaram a fazer sessões de sauna para ambientação. Outro exemplo é a Inglaterra, que já no ano passado utilizava tendas climatizadas em seus treinos para simular o calor da Copa do Mundo.
Imagens do time norueguês sofrendo com o calor viralizaram na internet. Mas o desafio é proposital: a equipe se prepara para o Mundial em Greensboro, na Carolina do Norte, cidade na qual enfrenta temperaturas próximas a 30ºC. Desde o início da preparação, os atletas realizam testes diários de urina com o objetivo de medir a hidratação. O cuidado é tanto que a comissão técnica dos "Leões" está treinada para dividir responsabilidades durante as pausas de três minutos dos jogos: cada funcionário será encarregado de cuidar de um atleta.

O jogador norueguês Morten Thorsby faz parte do grupo de atletas que enviou um apelo à Fifa pedindo protocolos severos para amenizar os efeitos do calor. Para o jogador, as altas temperaturas atrapalharão o desempenho das equipes e o nível da Copa do Mundo.
— Claramente, as temperaturas elevadas não são apenas um sério risco para a saúde dos atletas e torcedores, mas também afetam a qualidade do jogo em si. As ondas de calor afetam as corridas, a intensidade e a recuperação após os jogos: mudam para pior a forma como o futebol é praticado. Foi por isso que assinei a carta dos jogadores à Fifa. Nós precisamos levar os riscos a sério e garantir que o jogo que amamos seja protegido para quem está em campo e para os fãs que assistirão à Copa ao redor do mundo — opinou.
De fato, os noruegueses precisam de cuidado redobrado na adaptação ao clima do verão norte-americano. Contudo, Diêgo Augusto ressalta que isso não significa que jogadores de países acostumados ao calor terão facilidade em lidar com as altas temperaturas.
— As evidências científicas indicam que jogadores menos habituados a ambientes quentes podem apresentar maiores dificuldades para lidar com o estresse térmico, porque a aclimatação ao calor promove diversas adaptações fisiológicas. No entanto, é importante destacar que estar aclimatado não significa estar imune. O calor continua impondo sobrecarga fisiológica importante, mesmo para atletas acostumados. Em competições disputadas em ambientes muito quentes, todos os atletas podem sofrer algum grau de comprometimento físico e cognitivo, independentemente de sua origem ou experiências prévias — concluiu o fisiologista.
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Calor não é o único obstáculo climático
Outra grande diferença da Copa do Mundo de 2026 para a última edição nos Estados Unidos é que, dessa vez, México e Canadá também sediam o torneio. Assim, algumas seleções passarão por dois ou mais países ao longo do evento. Segundo Pavanelli, a readaptação climática será mais um desafio.
— Uma outra preocupação é a Copa acontecer em três países: o Canadá é mais frio e, no México, a gente tem a questão da altitude. Nenhum jogo vai ser realizado em altitudes preocupantes, acima de 2.600 m, mas a Cidade do México tem uma altitude moderada e ainda existe um problema de poluição. A presença de óxido de carbono prejudica o transporte de oxigênio e aumenta a fadiga, o cansaço dos atletas. Então, essa diferença entre os três países, além das altas temperaturas, requer atenção dos profissionais da área da saúde — acrescentou.
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