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Lúcio de Castro: Dia dos Bon Bagay

O dever do jornalismo diante do jogo contra o Haiti

PorLúcio de Castro
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
19/06/2026 07:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Um homem com bandeiras haitianas e brasileiras em seu veículo dirige em Porto Príncipe, Haiti
Um homem com bandeiras haitianas e brasileiras em seu veículo (Foto: Clarens Siffroy / AFP)
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Pode apostar:

Muito será dito sobre o Haiti no dia de hoje.

Adversário do Brasil logo mais.

A "contextualização" do nosso adversário vai citar o caos, gangues, descalabro, crime organizado. E vai citar a presença do Brasil através da MINUSTAH.

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Pode dobrar a aposta:

Provavelmente, em 90% do que será publicado, o dever básico do jornalismo não estará contemplado: ouvir o "outro lado". A abordagem do jogo com algo além do campo e bola tem imensa razão de ser.

Não bastasse todo o contexto do Haiti, existe a questão da participação tão recente do Brasil como personagem importante daquela história.

Melhor mesmo entendermos o que há sob o sol de Porto Príncipe e suas dores e delícias. Tragicamente muito mais dores do que delícias.

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Brasil e Haiti: o preço alto pela liberdade

Em breves linhas.

Uma tragédia que vem de longe e foi imposta aos haitianos pelos colonizadores. No caso, os franceses. Ninguém pagou um preço tão alto pelo sonho de liberdade como o Haiti. Pagou e paga.

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Primeiro país a se libertar da escravidão pela bem-sucedida revolta comandada por Toussaint Louverture em 1804, pagou preço muito alto por desafiar a ordem colonial.

Duas décadas depois, o Haiti se viu sitiado pelos navios de guerra franceses. Restou pagar uma indenização. A imoral indenização pela liberdade. Uma dívida impagável que condenou o país à miséria.

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O legado está aí.

Para piorar, outro golpe na soberania viria no fim dos anos 70 e início dos 80 do século passado: autossuficiente na produção de cereais, o Haiti, pressionado pelos Estados Unidos, destruiu sua produção e passou a importar o que antes produzia. Da autossuficiência até os dias de hoje, quando 75% do arroz é importado dos americanos. Tradução: dólar e reservas escoando.

Diante do cenário de pobreza absoluta, a resolução 1542 do Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu, em 10 de setembro de 2004, criar a "Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti", a MINUSTAH.

Em teoria, uma força internacional para assegurar a ordem e a paz no Haiti.

A MINUSTAH, Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti
A MINUSTAH, Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, em ação no país (Foto: Marinha do Brasil / Divulgação)

Com o maior contingente da "força de paz", o Brasil assumiu a coordenação da MINUSTAH. E nessa posição ficou entre 2004 e 2017.

Nesse tempo, algumas dezenas de jornalistas brasileiros estiveram no país. Tendo como anfitriões a MINUSTAH.

E aqui voltamos ao começo desse texto: se você pegar 90% dos relatos dos enviados de então, são uma ode ao que o Brasil estava fazendo no Haiti.

Num passe de mágica, nossa força tinha pacificado o país, agora não mais sob o comando das gangues e do crime organizado.

Como dissemos acima, um mandamento básico do jornalismo não foi cumprido em 90% desses relatos: só tinham uma fonte. No caso, a MINUSTAH. E não ouviam o "outro lado".

E quem era o "outro lado"?

A população, a sociedade civil haitiana.

Aquilo me dava profundo incômodo.

De maneira geral, salvo boas exceções de praxe, realizamos um desserviço naquela cobertura.

Foi movido por esse imenso incômodo que cheguei ao Haiti, no já distante 2011.

Foi assim que entendi que as coisas não eram bem assim. Nada assim.

Eram exceções na nossa imprensa as linhas sobre os registros de 52 investigações contra militares brasileiros, sendo 18 por lesões corporais graves. Nenhuma foi adiante. Todas arquivadas. Outras tantas jamais registradas.

Uma troca de comando pedida pelo embaixador dos Estados Unidos em razão dos métodos adotados. "Excessos". Está nos registros da Wikileaks. Casos abundantes de abusos sexuais e estupros. Hoje de maior conhecimento por aqui.

Na busca de ouvir o "outro lado", um tanto além do mundo colorido que voltava nas reportagens que abundavam por aqui, encontrei Camille Chalmers, haitiano, economista respeitado no mundo inteiro pela alta qualidade de sua produção intelectual ao longo dos anos, com passagem pelas principais universidades do mundo.

Seu relato sobre a intervenção brasileira era devastador. Vale a pena rever alguns trechos, ainda mais no dia de hoje, em que você irá ler tanto sobre o Haiti e o "sucesso" da intervenção brasileira. Segue:

"O que é chocante é que quando se vê os objetivos dessa força, proclamados na resolução 1542 da ONU, diz-se primeiro estabelecer clima de segurança, segundo estabelecer eleições democráticas e terceiro, vigiar a respeito dos direitos humanos. Sobre essas três frentes a intervenção é um fracasso total".

"Os recursos estão sendo investidos para trazer armas, mas não há o que fazer, não há enfrentamento entre dois exércitos, então para que ter força de paz quando não tem guerra civil? O que há de se fazer é uma solidariedade de povo a povo, onde enfermeiras, especialistas em hidráulica, montanha, alfabetização popular, que venham participar".

"Há todo um processo de desinformação sobre o Haiti, pensam que é um campo de violência, gente se matando na rua todos os dias, e isso não tem a ver com a realidade, é um país tranquilo e quando se vê a disparidade social brutal desse país, é uma gente de paz. Existem 1.200 médicos cubanos aqui, vivendo em comunidades, e nunca se aproximou alguém com ameaça, nunca algum deles foi alvo de um enfrentamento. São amados, esse é o esquema de resposta para países como Brasil, Chile e outros, que deveriam adotar. E atacar os problemas básicos da crise. Alfabetização, saúde pública, reflorestamento e educação. São os quatro segmentos básicos que permitem lançar a economia do país e relançar a sociedade haitiana"

"Estamos numa situação em que temos uma presença militar das Nações Unidas através de 12 mil soldados e policiais, e é uma força militar que está gastando 865 milhões de dólares ao ano em um país onde estamos em situação de pobreza extrema, onde mais de 70% da população vive com menos de um dólar ao dia, e essa pobreza se agravou depois do terremoto, quando as 3 grandes cidades foram golpeadas, a gente perdeu tudo, houve desestruturação total do setor formal, desemprego, há um contraste entre a gente da Minustah, os gastos militares, e as necessidades do povo. A resposta dos EUA ao terremoto foi uma instrumentação militar, chegaram com 23 mil marines, barcos de guerra, para fazer o quê?".

"Quando se anda pelas ruas, mais de um ano e não se construiu nada. É uma vergonha, mas pode se desmascarar o que é a cooperação internacional. A reconstrução do país, o porvir, parte do reconhecimento dos fracassos das políticas impostas até agora e que o ator central do processo é a gente que produz, trabalha e está sempre marginalizado da decisão. Esse é o elemento básico".

A entrevista é de 2011. Estão no especial "No país dos Rest Avec", documentário que fiz naquele ano para a ESPN e com o qual tive a honra de ganhar o Prêmio Vladimir Herzog.

Em 2017, a MINUSTAH acabou.

Reler hoje as palavras de Camille Chalmers faz com que elas pareçam uma profecia.

É possível resumir tudo o que está acontecendo no Haiti ainda hoje na sentença de Chalmers: "O que é chocante é que quando se vê os objetivos dessa força, proclamados na resolução 1542 da ONU, diz-se primeiro estabelecer clima de segurança, segundo estabelecer eleições democráticas e terceiro, vigiar a respeito dos direitos humanos. Sobre essas três frentes a intervenção é um fracasso total".

Hoje é dia dos Bon Bagay na Copa. A expressão raiz de Cité Soleil e das ruas de Porto Príncipe. Para dizer "sangue bom", "gente boa".

O mundo segue em imensa dívida com eles.

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Torcedores do Haiti reagem durante a partida da Copa do Mundo FIFA 2026 entre Haiti e Escócia, em Porto Príncipe, em 13 de junho de 2026
Torcedores do Haiti durante a partida entre Haiti e Escócia, em Porto Príncipe (Foto: Clarens Siffroy / AFP)

A CBF e o caos

Se você acreditou na "Nova CBF" e em novos tempos, melhor botar o sapatinho na janela e esperar o bom velhinho chegar com seu trenó.

Nunca existiu a menor chance de ser uma "Nova CBF".

Na semana que vai acabando, publiquei reportagem no meu site onde mostrava um pouco sobre a vida pregressa de Samir Xaud. Em brevíssimo resumo:

Samir Xaud foi médico da secretaria de saúde de Roraima entre 24 de fevereiro de 2014 a 16 de maio de 2025, quando pediu a licença sem remuneração por 2 anos atualmente em vigor para ocupar a presidência da CBF.

Do ingresso no funcionalismo em 2014 até a licença vigente desde 16 de maio 2025, foram 4.100 dias. Desse total, Samir Xaud esteve por 2.007 dias no exercício regular do cargo.

E em 2.093 dias estava de licença. Dezesseis licenças em 11 anos.

Aproximadamente uma licença a cada nove meses.

Total fora do exercício do cargo público: 51,05% dos dias.

Tem história de licença médica por depressão, com forte medicação receitada e no mesmo dia registro do atual presidente da CBF correndo de kart. Tem muito mais.

Por essas e outras, a tendência é Xaud ser mais um tragado pelo "sistemão". Galho fraco na engrenagem, está com os dias contados. A senha está na mão, nos bastidores da CBF a contagem para a saída já abriu.

Mas não se afobe não que nada, tirando a possível queda, é para já, como disse o poeta.

Falamos de mudanças. Será mais um a sair. E tudo permanecerá do mesmo jeito. E alguns acreditando em uma "Nova CBF".

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Lúcio de Castro escreve sua coluna no Lance! todas as sextas-feiras. Veja outras colunas:

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