Lúcio de Castro: Infantino, o refém, e o capitão Renault
Fifa tenta conter desgaste após reação da imprensa, mas movimentação nos bastidores segue levantando questionamentos

Tiraram o assessor da cama antes do dia clarear em Zurique na manhã de hoje.
Às cinco da matina suíça, o perfil "FIFA Media", responsável por divulgar os principais comunicados da entidade, já estava tentando explicar o que, para muitos, não tem explicação.
Explicando o que ninguém acredita.
Explicando uma farsa.
Explicando um golpe.
E, para surpresa de ninguém, culpando o suspeito de sempre.
Sim, para a FIFA, o caos que tomou conta dos bastidores do futebol na semana que se encerra é culpa da imprensa.
Assim como o delegado corrupto de Casablanca entrava no Rick's e ordenava sua clássica frase — "prendam os suspeitos de sempre" —, o comunicado da FIFA desta manhã também transferiu todo o vexame para o culpado habitual.
"Notícias incorretas na mídia prejudicaram o processo de consulta planejado."
Em um comunicado extenso, até fora do padrão da entidade, como quem tenta explicar o inexplicável e dá voltas porque não consegue justificar os fatos, a FIFA já havia citado duas vezes as "notícias incorretas" até a sexta linha do texto. No mesmo trecho, também reafirmava, em outras duas ocasiões, seu "compromisso com um processo de consulta aberto e democrático".
As mentiras são assim.
Exigem tirar o assessor de imprensa cedo da cama.
Exigem um esforço enorme para tentar salvar o que já não pode mais ser salvo.
A essa altura, com a história já conhecida por todos, nem é preciso recuperar todo o factual.
O que a FIFA tenta desesperadamente vender agora como "um processo de consulta aberto e democrático" já escalou. A narrativa ganhou até a famigerada "nota dos leitores" nas redes sociais, com direito a deboche:
"Este anúncio é apenas uma cortina de fumaça para desviar a atenção do plano do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de vender participações na Copa do Mundo a investidores privados sob um esquema que poderia potencialmente render-lhe dezenas de milhões de libras, e colidir com associados de Trump."
E, sim, os usuários anônimos que lotaram as redes de Elon Musk com notas de correção estão respaldados pelos fatos.
Nunca foi um processo de consulta aberto e democrático.
O que estava em curso — e esse é o ponto central — é algo muito maior do que o Fifagate. E também muito mais sofisticado.
Sem encontros em bares escuros.
Sem dinheiro escondido na cueca.
Tudo legalizado.
De conta para conta.
Milhões voando.
Sem Fifagate.
Sem dinheiro por fora.
E, desta vez, com o FBI jogando do lado de quem conduz a operação.
Giannina Segnini, minha eterna referência na profissão — a repórter que costumo definir como a Pelé do jornalismo, inspiração para gerações que, como eu, foram até a Costa Rica aprender com seu trabalho e que hoje compartilha conhecimento na Universidade de Columbia, em Nova York — resumiu esse mecanismo como poucos:
"Quando as elites endinheiradas se distribuem no poder político entre elas e estabelecem suas próprias regras, como fazem em muitos países da América Latina, a democracia se debilita. Com esse nível de poder, é fácil levantar a varinha mágica e legalizar todas as suas ações: corrupção legal, monopólios legais ou evasão fiscal legal."
É exatamente isso que Infantino tenta fazer.
Levantou a varinha mágica.
Queria mudar as regras.
Sem Fifagate.
Sem sobressaltos.
Tudo dentro da mais absoluta legalidade.
O futebol entregue.
A Copa do Mundo transformada em ativo empresarial.
Uma empresa de amigos do rei.
Sem concorrência.
Sem transparência.
A interferência no jogo consumada.
O espetáculo transformado em pastiche.
O futebol sem alma.
A cafonice corporativa ocupando o espaço do torcedor.
Desesperadamente, a FIFA acorda o assessor cedo.
Ainda tenta salvar a própria imagem.
Mas é preciso prestar atenção.
A nota da entidade presidida por Gianni Infantino deixa claro que a discussão continua aberta.
Trecho do comunicado:
"Esses componentes representam o ponto de partida do processo de consulta e estão abertos à discussão como parte desse processo. Isso pode incluir a aprovação, rejeição ou alteração, seja na íntegra ou individualmente."
São muitos milhões em jogo.
Muito peixe graúdo envolvido.
Não vão abandonar essa ideia tão facilmente.
Vão esperar a poeira baixar.
E voltarão quando todos baixarem a guarda.
Um irmão do genro do verdadeiro dono da bola espera no fim da linha.
Pronto para assumir o controle.
Boa parte já foi tomada.
Ainda falta o restante.
Direitos de TV.
Patrocínios.
Licenciamento.
Marketing.
Novos produtos comerciais.
De 20% a 30% de tudo.
Por enquanto.
Vale lembrar que os pacotes de hospitalidade — uma das fatias mais valiosas desse mercado — já estão nas mãos de um amigo do rei laranja.
➡️Opinião: Infantino tentou usar a ganância, mas acabou engolido por ela
O melhor é entender que nada acabou.
As mudanças apenas foram adiadas.
Adiadas porque o jornalismo, ao contrário do que a FIFA tenta fazer acreditar, cumpriu sua função mais nobre: fiscalizar os poderosos.
Quando Martin Ziegler publicou no The Times, em primeira mão, a reportagem que desencadeou toda essa reação, veio o recuo.
É exatamente esse o momento atual.
Mas é apenas um recuo.
Porque Infantino terá de voltar ao tema.
Porque, no fim das contas, ele está condenado a isso.
Porque é, acima de tudo, um refém.
E, sim, essa é a palavra.
A palavra que melhor define o papel de Infantino nessa história é "refém".
Segundo o dicionário:
"Substantivo de dois gêneros: pessoa importante que o inimigo mantém em seu poder para garantir uma promessa ou um tratado."
Desde o episódio do cartão de Balogun, tudo parecia evidente.
Ninguém se presta a um papel tão constrangedor diante do mundo apenas por bajulação.
Infantino é um refém do verdadeiro dono do jogo.
E vai ter de entregar.
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