Boicote ao plano da Fifa já reúne quase cem países contra Infantino
Uefa e Concacaf já rejeitaram proposta do mandatário da Fifa

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Durante anos, o poder da Fifa foi construído sobre um princípio simples. A entidade arrecadava mais dinheiro, distribuía parte desses recursos entre as federações e, em troca, consolidava alianças políticas capazes de sustentar a presidência de Gianni Infantino. O modelo funcionou durante quase uma década e transformou o presidente da entidade no homem mais influente do futebol mundial.
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Foi exatamente essa engrenagem que começou a apresentar rachaduras depois da apresentação do projeto da FIFA Forward Enterprise (FFE), a subsidiária criada para administrar os direitos comerciais da Copa do Mundo, do Mundial de Clubes e de outras competições organizadas pela entidade.
O que parecia ser apenas uma operação financeira acabou se transformando em um confronto político de dimensões raramente vistas no futebol internacional.
Até o momento, o tabuleiro político montado por Gianni Infantino começa a revelar uma configuração muito diferente daquela imaginada quando o projeto da Fifa foi apresentado. A ideia de transformar a Copa do Mundo em um ativo administrado pela nova FIFA Forward Enterprise, com participação de investidores privados, parecia destinada a avançar com relativa tranquilidade. A lógica era simples: oferecer recursos inéditos a associações historicamente dependentes do financiamento da entidade e, em troca, consolidar uma maioria confortável.

O plano começou a ruir quando a resistência deixou de ser individual e se transformou em articulação institucional.
A primeira reação partiu da Uefa, que convocou uma reunião de emergência com suas 55 associações filiadas. Em seguida, a Concacaf realizou sua própria assembleia extraordinária e decidiu rejeitar a proposta por unanimidade. A AFC adotou uma posição intermediária, criticando o método utilizado e lamentando a ausência de consultas formais. A CAF e a OFC optaram por um caminho mais cauteloso, convocando encontros para avaliar o cenário. A Conmebol, por sua vez, manteve silêncio público.
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A soma dos votos europeus e norte-americanos leva o bloco contrário a 96 associações, apenas dez a menos do número necessário para alcançar a maioria simples dentro da Fifa, formada por 211 integrantes.
É justamente esse detalhe que tem provocado inquietação nos corredores da entidade. A disputa deixou de girar apenas em torno do dinheiro. Ela passou a envolver a própria sobrevivência política de Infantino.
A primeira ruptura ocorreu na Uefa. Em seguida, veio a reação da Concacaf. A Confederação Asiática de Futebol (AFC) adotou uma postura mais cautelosa, criticando a ausência de consultas prévias. A Confederação Africana de Futebol (CAF) e a Confederação de Futebol da Oceania (OFC) preferiram convocar reuniões internas antes de anunciar uma posição definitiva. A Conmebol, até agora, manteve silêncio público.
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O levantamento dos votos ajuda a compreender a dimensão da crise.
A Uefa reúne 55 associações nacionais. A Concacaf, outras 41. Juntas, as duas confederações somam 96 votos contrários ao projeto.
A maioria simples necessária dentro da Fifa é de 106 votos.
Isso significa que bastariam dez novas deserções para tornar a proposta inviável.
Em Zurique, dirigentes influentes passaram a fazer contas a cada nova manifestação pública. A grande dúvida é saber quantos países da Ásia, da África, da Oceania e da América do Sul estarão dispostos a abrir mão dos recursos oferecidos em troca de uma participação privada permanente no principal torneio do planeta.
Algumas federações enxergam a proposta como uma oportunidade única. Outras a interpretam como uma armadilha financeira de longo prazo.
Nos bastidores, a resistência cresce justamente entre dirigentes que, durante anos, estiveram ao lado de Infantino.
Enquanto isso, uma situação curiosa surgiu na própria Europa.
A associação da República Tcheca foi a primeira a demonstrar simpatia pela proposta. Seu presidente, David Trunda, defendeu o aumento do financiamento destinado ao desenvolvimento da infraestrutura esportiva.
O discurso oficial da Fifa sustenta que a entidade continuará exercendo o controle sobre o calendário, os regulamentos e a governança das competições.
A preocupação de seus adversários está concentrada em outro aspecto. A entrada de investidores privados alteraria a lógica de funcionamento do futebol internacional.
Na visão deles, a necessidade de garantir retorno financeiro permanente poderia provocar novas expansões da Copa do Mundo, aumentar a frequência dos torneios e ampliar a pressão sobre jogadores, clubes e ligas nacionais.
A guerra que pode mudar a política do futebol
O embate entre Uefa e Fifa não começou agora. Em 2021, o futebol europeu reagiu à tentativa de realização da Copa do Mundo a cada dois anos. Mais recentemente, as discussões sobre o formato do Mundial de Clubes aprofundaram as divergências.
A diferença é que, desta vez, a disputa deixou de girar apenas em torno do calendário.
A avaliação de dirigentes europeus é a de que a proposta da FIFA Forward Enterprise cria um precedente inédito ao abrir espaço para que investidores privados passem a influenciar decisões relacionadas ao principal patrimônio esportivo da entidade.
Infantino permanece no cargo e tem mandato assegurado pelo menos até 2027. A expectativa é de que ele concorra novamente, buscando um quarto período à frente da Fifa, entre 2027 e 2031.
A percepção é a de que a proposta de privatização acelerou um desgaste que vinha se acumulando silenciosamente. Pela primeira vez em muitos anos, o presidente da Fifa percebeu que sua base de apoio talvez não fosse tão sólida quanto parecia.
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