Fifa dá ultimato às federações e vê Uefa contra-atacar plano de Infantino
Entidade europeia marcou reunião para esta quinta-feira

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A decisão da Fifa de colocar parte dos direitos comerciais da Copa do Mundo nas mãos de investidores privados deixou de ser apenas uma proposta financeira para se transformar em uma disputa política que ameaça aprofundar o maior racha institucional do futebol mundial desde a chegada de Gianni Infantino ao poder, em 2016. Em poucos dias, a iniciativa desencadeou uma reação coordenada de confederações, ligas, sindicatos de jogadores e dirigentes, enquanto a própria entidade elevou a pressão sobre suas 211 associações filiadas ao estabelecer um prazo para que decidam se aderem ao novo modelo.
O projeto prevê a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), empresa avaliada em US$ 20 bilhões que concentraria os ativos comerciais da Fifa, incluindo os direitos da Copa do Mundo, da Copa do Mundo Feminina e do Mundial de Clubes. A entidade pretende vender cerca de 20% da companhia para investidores privados e levantar aproximadamente US$ 4,2 bilhões, mantendo o controle acionário da nova estrutura.
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A operação seria liderada pela Thrive, empresa fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elo que acabou ampliando um componente político que já acompanhava a gestão de Infantino desde a realização da última Copa do Mundo.
O presidente da Fifa apresentou o projeto como uma oportunidade para aumentar os recursos distribuídos às federações nacionais. Em carta enviada às associações, prometeu acesso imediato a US$ 20 milhões para quem aderir ao novo modelo, além de novos aportes nos ciclos seguintes. Ao mesmo tempo, deixou claro que quem rejeitar a proposta continuará recebendo apenas os valores já previstos pelo programa tradicional de desenvolvimento da entidade.
Na prática, a diferença financeira transformou a votação em um teste de fidelidade política. As federações terão até 19 de setembro para decidir se aceitam participar do novo sistema de financiamento.
Uefa articula reação conjunta
A resposta da Uefa foi imediata. Depois de classificar a proposta como uma iniciativa que "cruza uma linha que as instituições que governam o futebol jamais deveriam cruzar", a entidade convocou uma reunião de emergência com suas 55 federações filiadas para quinta-feira, na tentativa de construir uma resposta unificada.
Nos bastidores, diferentes possibilidades passaram a ser discutidas. Entre elas estão um eventual boicote a competições organizadas pela Fifa, inclusive à próxima Copa do Mundo Feminina, embora essa hipótese encontre resistência entre dirigentes que consideram inadequado transformar o futebol feminino em instrumento de pressão política.
A mobilização europeia ganhou força porque recebeu apoio imediato da Concacaf e da Confederação Asiática de Futebol (AFC), que também criticaram a ausência de consultas prévias sobre uma mudança considerada histórica. Somadas, as três confederações reúnem 143 das 211 associações filiadas à Fifa, número suficiente para dificultar a aprovação da proposta caso o bloco permaneça unido.
Mesmo assim, a unanimidade está longe de existir. A federação da República Tcheca tornou-se a primeira entidade europeia a apoiar publicamente o plano, defendendo que os novos recursos poderiam fortalecer o futebol de base e investimentos em infraestrutura.
Também a Confederação Africana de Futebol (CAF) iniciou consultas internas. O presidente Patrice Motsepe convocará uma reunião do Comitê Executivo da entidade para analisar oficialmente a proposta antes que cada federação africana manifeste sua posição.
A resistência extrapolou as confederações. A Premier League, integrante das European Leagues, apoiou integralmente o comunicado divulgado pelo grupo de ligas nacionais, que classificou o projeto como "imprudente e divisivo". Na nota, as ligas afirmam que a Copa do Mundo "não deve ser colocada à venda" e acusam a Fifa de repetir um padrão de decisões unilaterais que já motivou ações na Comissão Europeia sobre o calendário internacional.
O grupo também advertiu que investidores privados passariam a ter interesse permanente sobre o principal torneio do futebol mundial, pressionando por decisões comerciais capazes de alterar o equilíbrio entre campeonatos nacionais e competições internacionais.
Disputa amplia isolamento da Fifa
Embora a discussão tenha começado em torno da venda de uma fatia da nova empresa comercial, ela rapidamente passou a refletir uma disputa mais ampla pelo comando político do futebol mundial.
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Nos últimos anos, a relação entre Infantino e a Uefa deteriorou-se sucessivamente. A oposição europeia já havia barrado, em 2021, a tentativa do dirigente de realizar a Copa do Mundo a cada dois anos. Agora, a criação da FIFA Forward Enterprise tornou-se um novo ponto de ruptura.
O desgaste ganhou outra dimensão pela proximidade cada vez maior do presidente da Fifa com o entorno político de Donald Trump. O acordo proposto envolve investidores ligados diretamente à família do presidente americano, enquanto episódios recentes — como a criação do Prêmio da Paz da Fifa concedido a Trump e a polêmica envolvendo a participação do atacante Folarin Balogun na Copa do Mundo após uma intervenção atribuída ao presidente dos Estados Unidos — alimentaram críticas de que a entidade estaria aproximando excessivamente decisões esportivas de interesses políticos.
Essa combinação fortaleceu setores da Uefa que defendem endurecer o confronto institucional. Embora Infantino permaneça politicamente forte dentro da Fifa e tenha recebido centenas de manifestações de apoio para disputar novo mandato, dirigentes europeus enxergam a atual crise como a maior oportunidade para enfraquecer sua liderança antes da próxima eleição.
Pelos estatutos da entidade, Infantino permanece presidente pelo menos até 2027, quando deverá buscar um quarto mandato, válido até 2031. Não há, neste momento, um movimento formal capaz de retirá-lo do cargo, mas a sequência de confrontos com a Uefa, a crescente insatisfação de outras confederações e o desgaste provocado pela proposta comercial abriram uma frente política que dificilmente será encerrada apenas com a votação da nova empresa.
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Enquanto isso, a Fifa insiste que a criação da FIFA Forward Enterprise representa apenas uma oportunidade de ampliar receitas e redistribuir recursos ao redor do mundo. Para boa parte dos dirigentes europeus, porém, o debate deixou de tratar apenas de dinheiro. O que está em jogo, na avaliação desse grupo, é quem exercerá influência sobre o futuro da principal competição do futebol mundial e qual será o limite entre a administração esportiva e os interesses do mercado financeiro.

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