OPINIÃO: o último baile do Museu do Amanhã
Como a ostentação esconde a ruína técnica e política do futebol brasileiro

Foi um festival de ostentação, luzes e luxo sem fim.
Uma "festa única em seu gênero nos anais da sociedade brasileira que dificilmente será igualada".
A chegada dos famosos também mereceu atenção, "saudados calorosamente por uma multidão".
"Pouco depois começou o baile. O que ele foi, é difícil de dizer. A riqueza..."
Os relatos acima estão na imprensa nos dias que se seguiram ao provavelmente mais famoso baile da história do Brasil: o "Baile da Ilha Fiscal". Nove de novembro de 1889.
A suntuosidade da festa realizada na chamada "Ilha Fiscal", logo na entrada da Baía de Guanabara, era para ser uma celebração a demonstrar a força da monarquia e do poder imperial. A solidez da realeza.
Poucos dias depois, tudo desabou, evidenciando o que obras clássicas sobre o tema chamaram de o "alheamento da corte".
Por trás da suntuosidade e dos milhões gastos, estava uma instituição absolutamente frágil, distante da população e tomada pelas conspirações.
Um sistema que dias depois cairia por sua absoluta fragilidade. Um sistema que tinha como marca a brutal incapacidade de atender às demandas básicas de sua gente e a cegueira total nas mais básicas tarefas.
Alguns historiadores classificam o fatídico "Baile da Ilha Fiscal" como uma "dança sobre um vulcão", a metáfora para a cegueira dos seus monarcas.
Quis o destino que, 136 anos depois, num curtíssimo quilômetro de distância, separadas por um abrir e fechar de olhos na mesma banda de baía, uma outra festa fosse realizada. Agora, então, no Museu do Amanhã, 18 de maio de 2026.
O tempo e a dimensão histórica que separam os dois eventos são imensos, evidentemente. Mas olhando como a imprensa bajuladora de outrora descreve uma e como foi noticiada a de agora, tudo se aproxima.
Há muito mais a aproximar os dois furdunços.
Como é notório, o "último baile da Ilha Fiscal", por tudo que representou sobre uma monarquia que dançava sobre a ostentação e cafonice como demonstração de poder, mas era frágil como pó, virou metáfora de amplo uso para tudo o que parece grandioso mas esconde imensa fraqueza e incompetência.
Uma metáfora exata para contar sobre a CBF buscando o tal evento de anúncio de convocação.
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Festa das aparências e convocação aberrante
A farsa de aparências da Ilha Fiscal revivida em uma corte frágil e incompetente que vive de conspiração e da luta de cada um por seu quinhão. A festa estranha com gente esquisita teve de tudo.
Uma celebração grotesca do nada.
O prenúncio do desastre que viria em terras americanas.
Sobrou também a mesma bajulação da imprensa, como nos dias do último baile.
A única confederação a anunciar dessa forma os escolhidos para uma Copa, o que já evidencia algo bem estranho no reino.
Decoração suntuosa, buffet para os vips, tapete estendido na entrada e fanfarras para o que deveria ser uma simples leitura de nomes.
Jornalistas e uma infinidade de influencers escolhidos a dedo no papel de quem corteja o poder.
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O mito de Dom Sebastião e a realidade dos campos
O auge da aberração era a expectativa pelo chamado de Dom Sebastião.
Aquele que iria ressuscitar para a batalha final depois de pelo menos três anos sumido de qualquer campo de disputa.
O absoluto nonsense que em nenhum lugar com um mínimo de sensatez faria sentido, salvo uma corte apodrecida, assaltada por um histórico de interesses nebulosos e sombrios.
Começou como Dom Sebastião, o fora de combate que iria salvar a pátria, acabou como Imelda Marcos.
O mundo desabando lá fora e o pequeno príncipe fútil com seus bens pessoais, a bolha permanente e a síndrome de Peter Pan a explodir na cara do cidadão comum com um riso de deboche.
Da mesma forma que os relatos citam o sentimento de "alheamento" da realidade lá atrás, a história há de contar o tamanho dessa aberração. Uma delegação para uma disputa de alto nível de exigência e um recrutado que se arrasta nos campos em contendas de nível muito inferior e há poucos dias tinha sido neutralizado pelo potente Recoleta, time quase amador, como o centro das atenções.
O urro na hora do anúncio desse estranho ser a um espetáculo que exige o auge e plenitude ainda vai soar por muitos anos. Assim como as manchetes laudatórias e os discursos apaixonados e bélicos de uma categoria chamada "parças" que provavelmente já existia no império, então na figura dos bobos da corte.
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Bastidores financeiros e 'amigos do rei'
Tinha algo mais grave, e algo de muito podre no reino naquele último baile.
Por trás daquela suntuosidade, como numa corte de verdade, existia uma classe de beneficiados.
Sim, como em todo reino, a classe dos "amigos do rei". Ou senão do rei, como é o caso, de alguém muito poderoso no reino.
Nada ali era por graciosidade. Nada ali era parte de um evento de cunho técnico, como deveriam exigir as boas regras de conduta.
Negócios milionários em cada tábua, em cada prego na parede, em cada painel.
Uma teia de conexões por trás de um evento, levando o dinheiro até os amigos do rei, os realizadores do último baile, como mostramos em reportagem de 18 de maio publicada no site da Agência Sportlight de Jornalismo.
Os fornecedores da corte envoltos em escândalos pretéritos de novo na cena em um evento milionário.

A imprensa do reino e o 'jornalismo de release'
Enquanto isso, uma imprensa, salvo as sempre citadas exceções, louvando o baile.
Apontando o dedo para qualquer crítica àquela aberração em forma de convocação.
Nunca tinha sido diferente.
A imprensa do reino sempre viveu em absoluto estado de genuflexão para a CBF.
Que ao longo do tempo, como convém aos monarcas, se esmerou a pedir cabeças de quem contrariava.
Sem se lembrar que uma imprensa que não cumpre seus deveres básicos de fiscalização de qualquer tipo de poder, não é sequer imprensa.
Vira algo parecido com aquilo que Carl Bernstein definiu tão bem como o "bastardeamento de nossas pautas". Na frase completa do cara de Watergate, o vexame de quem "abdicou de nossa função primária. A melhor versão da verdade que se pode obter. E temos permitido que nossa pauta e prioridades se tornem bastardeadas e dominadas pelo triunfo da Cultura Idiota." É o que vivemos por aqui.
O chamado à responsabilidade pública
Da imprensa perdida na eterna bajulação a quem detém os direitos de transmissão, como sempre lamentou Juca Kfouri, ou até de quem nem tem tais direitos mas bajula por esporte mesmo. É o "jornalismo com alma de release", para ficar em outro gigante do ofício, Mário Magalhães. A "vergonha coletiva", como tão bem definiu a sempre valente Gabriela Moreira. O 7 x 1 de novo, aquele estado de espírito natural da CBF que Mauro Cezar Pereira apontou em 2014.
Para fechar citações no chamado à responsabilidade da culpa que nos pertence nesse latifúndio, a dose sempre necessária da maestra soberana Giannina Segnini, minha sempre inspiração, ao nos lembrar por que e para que afinal nos destinamos: "É preciso sempre recordar qual é a importância de nossa profissão como defensores do interesse público no mundo moderno". Ponto.
Falhamos miseravelmente ao longo dos anos, parecendo mais aquela entrada da área despovoada de tudo em campo que era a seleção de Ancelotti. Deitado em berço esplêndido dos quatro anos de contrato a um milhão de dólares por mês, sem contar com Ancelottinho no pacote.
Pós-baile e ciclo repetido
Os próximos dias serão de muito barulho e ruído. Mesmo aqueles da imprensa do rei serão impiedosos. Mas, claro, sempre com os lados mais fracos. Verão fraqueza onde só existiu virtude, fácil apontar o dedo para a vítima permanente de racismo abjeto e poupar a corte, afinal, interessa o clique e o aplauso dos desavisados.
Para todo o barulho se acabar em breve, como numa quarta de carnaval. Até que de novo as fantasias sejam vestidas para o próximo baile.
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