Onde Ancelotti errou? As decisões que derrubaram o Brasil

Convocações, Neymar e gestão do elenco entram na conta da eliminação

Enviados Especiais
06/07/2026 14:01
Ancelotti acompanha a partida entre Brasil x Noruega
Ancelotti acompanha a partida entre Brasil x Noruega (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Antes de olhar para 2030, Carlo Ancelotti terá de responder por escolhas que pesaram diretamente na eliminação do Brasil ainda nas oitavas de final da Copa do Mundo. A derrota por 2 a 1 para a Noruega não pode ser explicada apenas pela grande atuação de Haaland ou por um jogo ruim da Seleção. Ela também expôs uma sucessão de decisões discutíveis do treinador italiano durante sua primeira competição no comando da equipe.

A eliminação deixa um diagnóstico claro: mais do que falhas de execução dentro de campo, o Brasil sofreu com erros de planejamento, montagem do elenco e gestão das partidas. Ao mesmo tempo, oferece ao treinador a oportunidade de iniciar um ciclo praticamente do zero, agora com tempo para corrigir rumos antes da Copa do Mundo de 2030.

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Os maiores problemas começaram ainda antes da bola rolar. A convocação deixou lacunas evidentes. Depois do corte de Wesley, por exemplo, Ancelotti optou por não chamar outro lateral-direito de origem. Em vez disso, convocou mais um meio-campista, alterando o equilíbrio do elenco e reduzindo as opções para um setor que naturalmente exige profundidade durante uma competição longa.

O próprio meio-campo também revelou um planejamento insuficiente. A lista original tinha apenas cinco jogadores para a posição: Casemiro, Fabinho, Bruno Guimarães, Danilo Santos e Lucas Paquetá. Quando Paquetá se lesionou, ficou evidente que a comissão técnica havia subestimado a necessidade de alternativas. A convocação posterior de Ederson, da Atalanta, serviu justamente para corrigir um problema criado pela própria montagem da lista.

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Outro ponto que chamou atenção foi a gestão das convocações. Ancelotti apostou em atletas que chegaram embalados por boas atuações em seus clubes, mas que pouco conseguiram produzir com a camisa da Seleção. Luiz Henrique é o principal exemplo. Destaque nos amistosos de março contra França e Croácia, o atacante caiu de rendimento nos jogos preparatórios para a Copa, mas ainda assim permaneceu como aposta importante no grupo.

Situação semelhante ocorreu com Igor Thiago e Ibañez. Convocados apenas na última Data Fifa antes do Mundial, ambos receberam oportunidade logo na estreia, tiveram atuações discretas e praticamente desapareceram das opções do treinador no restante da campanha. A utilização pontual levanta um questionamento inevitável: se a confiança era tão pequena, por que levá-los para um torneio tão curto?

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Mas talvez nenhuma decisão tenha provocado tanta discussão quanto a administração de Neymar. Na semana que antecedeu o confronto decisivo contra a Noruega, Ancelotti afirmou que o camisa 10 tinha condições de atuar durante os 90 minutos. A declaração alimentou naturalmente a expectativa de que o craque começaria entre os titulares.

Não foi o que aconteceu. Neymar iniciou a partida no banco e entrou apenas no segundo tempo. A escolha, por si só, já gerou questionamentos. Mas o momento da substituição tornou tudo ainda mais intrigante. O camisa 10 entrou praticamente um minuto antes da parada para hidratação. Na prática, o técnico da Noruega ganhou imediatamente a oportunidade de reunir seus jogadores, reorganizar o sistema defensivo e orientar a marcação específica sobre o principal jogador brasileiro. O efeito surpresa, que poderia existir com a entrada de Neymar em bola rolando, desapareceu instantaneamente. É uma explicação que somente Ancelotti poderá oferecer.

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Apesar das críticas, o treinador passa a contar agora com uma vantagem que não teve ao assumir a Seleção: tempo. Seu primeiro ciclo foi construído às pressas, entre convocações, amistosos e a chegada da Copa do Mundo. Sequer conseguiu consolidar um time no período. Só foi repetir uma escalação no Mundial (contra Escócia e Japão). Agora, poderá planejar cada etapa do trabalho. Os primeiros compromissos da nova era serão em setembro, com dois amistosos contra a Austrália e, provavelmente, mais uma partida na Ásia.

As lições para o próximo ciclo parecem evidentes. A primeira delas é construir uma base sólida, algo que o Brasil nunca conseguiu formar neste início de trabalho. O treinador precisará definir rapidamente uma espinha dorsal e reduzir a constante rotatividade que marcou suas primeiras convocações.

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Também será inevitável iniciar uma renovação, especialmente no sistema defensivo. O setor deverá passar por mudanças importantes até 2030, enquanto o ataque oferece um cenário muito mais animador. Estêvão, Endrick e Rayan representam uma nova geração de talento, enquanto Vini Jr. chegará ao próximo Mundial com apenas 29 anos, em plena maturidade técnica.

O desafio de Ancelotti, portanto, não será encontrar talento. O Brasil continua produzindo jogadores capazes de decidir partidas. A missão será transformar esse potencial em uma equipe consistente, equilibrada e previsível apenas para seus próprios atletas — nunca para os adversários. A Copa de 2026 deixou cicatrizes e expôs erros importantes. Deixou o Brasil com o maior jejum em Mundiais (vai completar 28 anos em 2030). Se forem assimilados, podem representar o primeiro passo para um ciclo mais sólido. Se forem ignorados, a eliminação para a Noruega corre o risco de ser lembrada não como um acidente de percurso, mas como o início de uma oportunidade desperdiçada.

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Ancelotti após queda do Brasil na Copa do Mundo
Ancelotti após queda do Brasil na Copa do Mundo (Foto: Alexandre Brum/Agencia Enquadrar/Folhapress)

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