Haaland encerra ciclo marcado por erros de gestão e disputas de poder na CBF
Trocas de presidentes e técnicos deram o tom de ciclo conturbado e queda na Copa do Mundo

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A forma simplista de descrever a eliminação do Brasil nesta Copa do Mundo é dizer que a Seleção caiu diante da qualidade do artilheiro norueguês Haaland em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Mas o ciclo do Brasil até a Copa do Mundo de 2026 teve diversos percalços. Dentro de campo e, especialmente, fora dele, na entidade responsável pela Seleção, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Entre trocas de comando, tanto na equipe quanto na política, o Brasil chegou ao Mundial sem uma identidade, sem uma escalação definida e sem muitas esperanças de conquistar o hexacampeonato.
Se a equipe teve três treinadores — Ramon Menezes como interino por três meses, Fernando Diniz por seis e Dorival Júnior por 15 — que não encaixaram e precisou apelar para um estrangeiro, fora de campo também houve trocas de comando por motivos muito mais graves do que desempenho esportivo ruim. A bagunça se instalou com a conturbada saída de Rogério Caboclo sob acusações de assédio sexual, o que embaralhou as cartas nos bastidores da CBF.
Ednaldo Rodrigues assumiu de forma interina em agosto de 2021 e foi eleito em março do ano seguinte para o primeiro mandato oficial, que também não completaria. Entre denúncias de gastos excessivos e medidas polêmicas, como redução de orçamento da arbitragem e gastos pessoais com verbas da entidade, Ednaldo foi destituído do cargo no fim de 2023 pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

Na época, havia pressão da Fifa e da Conmebol, que não aceitavam o interventor nomeado pelo TJ-RJ, José Perdiz. É praxe. Na Copa, a CBF é Brasil. Mas, quando alvo de questionamentos ou investigações, entidades futebolísticas que representam e carregam as cores de nações se protegem sob um véu de organizações inteiramente privadas, de forma a barrar qualquer interferência governamental.
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Levou cerca de um mês para que, sob ameaças das entidades internacionais de exclusão de clubes e da Seleção de suas competições, o ministro do Superior Tribunal Federal, Gilmar Mendes, reconduzisse Ednaldo Rodrigues ao cargo. Mendes, que viria a se consolidar como uma eminência parda na entidade mais adiante, é um dos fundadores e sócios do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), parceiro comercial da CBF desde 2023.
Presidente afastado e novas eleições
Em maio de 2025, Ednaldo foi novamente afastado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), por fortes indícios de falsificação da assinatura do ex-presidente Coronel Nunes no acordo — homologado por Mendes em fevereiro daquele ano — que ratificaria a sua eleição em 2022. Esse acordo garantiria Ednaldo Rodrigues no cargo até 2026, quando então seriam convocadas novas eleições.
Foi nomeado outro interventor, mas desta vez alguém bem conhecido na Fifa, Fernando Sarney, vice-presidente da CBF desde 2004, e que ingressou na entidade em 1998. Durante anos, era ele o representante brasileiro no privilegiado — e extinto — Comitê Executivo da Fifa, onde mimos e luxo eram o padrão para seus membros. Uma crise política entre Sarney e Ednaldo, inclusive, foi deflagrada em 2023, quando o então presidente decidiu tirar a cadeira do vice e assumir o lugar no comitê.
Sarney convocou eleições para 25 de maio de 2025, quando Samir de Araújo Xaud, dirigente de Roraima que tentou sem sucesso por duas vezes se eleger deputado e nunca teve grande influência dentro da CBF, assumiu a cadeira com apoio de forças poderosas nos corredores da entidade. Desde então, o filho do ministro Gilmar Mendes, Francisco Mendes, passou a ganhar projeção nos bastidores da CBF.

Francisco tornou-se o primeiro brasileiro a ocupar um assento no Comitê Disciplinar da Fifa e tomou as rédeas das negociações com os clubes pela formação de uma liga única sob a tutela da CBF, onde não tem um cargo formal. E, atualmente, protagoniza uma nova disputa política nos corredores da entidade.
Inicialmente, Xaud conquistou simpatia com certa rapidez ao adotar medidas que já vinham sendo cobradas, como planejamento para implementação de Fair Play Financeiro, revisão do calendário com redução dos Estaduais, melhorias na arbitragem e relação mais próxima com federações locais.
Mas a paz de Xaud também durou pouco. As forças ocultas novamente entraram em ação em 2026, quando começou um processo de fritura do dirigente. O seu comportamento também não ajuda. Em meio a denúncias de viagens de acompanhantes pessoais com verbas da entidade e outros desvios de comportamento, a imagem do presidente nos bastidores está desgastada. E a eliminação ainda nas oitavas de final da Copa do Mundo pode acelerar um processo para nova troca de comando que, segundo gente poderosa na entidade, já está em curso.
Ancelotti não repetiu uma só escalação até a estreia
A contratação de Carlo Ancelotti, ainda na gestão de Ednaldo, serviu para dar um basta nas dúvidas sobre quem dirigiria a Seleção Brasileira na Copa do Mundo, já que Diniz e Dorival não conseguiram estabelecer um patamar de confiança que os permitisse levar a equipe até o fim do ciclo. Ancelotti teve seu contrato renovado até 2030 por Xaud às vésperas da viagem para os Estados Unidos, mas lá chegou com uma equipe ainda em formação, sem repetir uma escalação sequer até a estreia no Mundial.

E levou Neymar. O chamado ao camisa 10 da Seleção talvez seja o maior exemplo de como a falta de planejamento venceu. Em uma equipe de talento limitado, especialmente no meio de campo, a presença de um atleta lesionado, e que não mostra um futebol de alto nível há três anos, se tornou debate. Entrou no campo do aceitável. Seja por pressões externas, ou pela vontade de simplesmente barrar questionamentos a cada resultado ruim da equipe em solo americano.
A eliminação nas oitavas de final, sacramentada pelos gols do gigante Haaland, foi somente o último ato de uma trajetória marcada por disputas de interesses pessoais e ausência de um plano claro para a Seleção Brasileira, que só começou a se desenhar com a chegada de um estrangeiro para o comando técnico. A CBF tem, agora, a oportunidade de fazer diferente até 2030. Mas, com bastidores igualmente conturbados, não será surpresa se a política e disputa por poder novamente tomarem a frente da razão de ser da entidade.
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